25 dezembro 2010

Natividade

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Passei quase todo o Advento sem dar notícias, não tem sido muito fácil vir aqui!

De todos os modos, o dia de hoje amanhece de esperança e alegria. O Natal faz-nos regressar constantemente às nossas origens, àquilo que temos na memória e faz parte de nós.

O mais grandioso do mistério da Encarnação é o facto de Deus ter uma história que se cruza com a nossa. Se pensarmos bem, aquilo que hoje somos, o mundo tal como foi crescendo e desenvolvendo, parte deste acontecimento ocorrido há mais de dois mil anos numa pequena aldeia da Judeia.

Somos conscientes, ou poderíamos ser, de que Deus aproxima-se de tal modo da nossa vida que acaba por lhe dar uma transparência tão significativa. A vida pertence a Deus, é uma consequência do amor Ele estar eternamente e intensamente comprometido com ela. Por isso, este Natal aparece como a luz que faz ganhar cor e sabor a cada momento, afinal vivemos na e de eternidade.

Feliz Natal!

10 dezembro 2010

Profundidade

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Há tempo para pararmos tudo aquilo que fazemos e encontrar o espaço que nos faça viver algo semelhante ao nada. Vivemos não só entre imensos compromissos e ritmos exteriores, mas também - e sobretudo - envolvidos numa quantidade impressionante de ocupações e pre-ocupações da alma. Se, por um lado, é importante acompanhar com atenção o que nos acontece, acabamos muitas vezes por sermos arrastados pela corrente dos nossos pensamentos. 

E até pode acontecer que, pensando muito, acabamos por não pensar nada que valha a pena, algo que nos traga alguma luz mais concreta.

A sabedoria oriental tende para um aniquilamento da reflexão e do pensamento, para alcançar estados de silêncio interior. Todo esse esforço pode correr o risco de ser simplesmente um não estar presente na vida, o esforçar-se por sair dela. Quando, o mais importante do silêncio interior é, precisamente, entrar no ritmo da vida como o seu batimento mais profundo. O perceber onde estou completo, onde vivo em sintonia com tudo. Onde sou enviado no melhor que hoje tenho.

06 dezembro 2010

Alegre em dia de chuva

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Monotonia em dias de chuva. Obriga-nos a ficar mais por casa, em arrumações, planear coisas, procurar um abrigo mais quente que dê conforto. O Inverno tem esta capacidade de nos voltar mais para dentro. Mesmo não tendo lareira em casa, existe esta nostalgia de lugares de estar, sem complicar muito.

Depois, a criatividade nasce. E abre possibilidades para dias de sol. Uma espécie de hibernação interior, preparando o dia em que sai pela porta da rua e se fecha os olhos por causa do brilho do sol. Respiramos fundo e entramos na estrada com um sorriso e de cabeça erguida. 

Quando queremos realmente ter um sentido profundo da alegria, é importante criar espaço para que ela nasça, cresça e nos transforme. A alegria não é de todo uma experiência passageira e pontual, nasce em particular nas alturas em que nada nos motiva imediatamente para estar a sorrir. No fundo, é um estar bem connosco mesmos e com a vida que temos, quer em dias de chuva, quer em dias de sol.

05 dezembro 2010

Viver de encanto

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A admiração é o resultado de uma surpresa positiva. Quando algo nos invade com uma luz que desperta em nós ecos de histórias passadas e que nos orienta para coisas muito fundamentais. Muitas vezes, estas surpresas são sinal de que se foi criando um espaço para disposições, mesmo de forma pouco calculada.

O desejo é um dos maiores mistérios para mim. Entre o apetecer coisas imediatas e o desejar coisas que hão-de vir, movo-me muitas vezes entre o estar realizado e o estar incompleto. Parece-me, porém, que o desejar é já uma forma de plenitude, como um caminho que está a começar.

Desejamos coisas muito boas para nós. A maior delas devia ser a santidade. Então se desejas ser santo, começa já a sê-lo. O caminho começou. Talvez seja isto um pouco o Advento. Recordar uma iniciativa surpreendente, Deus entre nós, e isto, se pensarmos bem, é uma enorme surpresa. É um verdadeiro encanto este fascínio de Deus pelas nossas coisas.

17 novembro 2010

Curiosidade

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Estamos constantemente em passagens para coisas desconhecidas. Se nos dermos conta, quando vemos o nosso dia, as coisas nunca correm como o previsto. Um telefonema, alguém que encontramos na rua, uma mensagem no mail... coisas que acrescentam vida ao que estava previsto.

É muito bonito pensar como cada dia tem a sua parte - e muito maior do que pensamos - de coisas surpreendentes. E o mais engraçado é que não são coisas muito espectaculares, são gestos, toques, pequenas decisões que fazem que um dia nunca seja igual ao outro.

Podemos ser curiosos daquilo que nos está para acontecer, daqui a uma hora, até daqui a um minuto... no fundo, não é preciso vivermos a controlar tudo, acabamos por não nos deixar surpreender.


16 novembro 2010

Estar

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Os ritmos sucedem-se demasiado rapidamente. Sente-se uma nostalgia própria de dias de sol, frios e sem nuvens. Com cores e cheiros de campo. Ritmos marcados pelo som dos sinos de uma torre distante. Passei por várias paisagens dos últimos tempos sem encontrar verdadeiramente um lugar onde pudesse descansar.

O que queremos e aquilo que fazemos por vezes não coincide. É estranho quando deixamos que isto se torne normal e acabamos por passar rapidamente em muitos lugares sem poder parar em nenhum deles. E pergunto-me: será apenas falta de tempo? Não será antes falta de desejo de estar sem pensar demasiado em compromissos mais ou menos impostos?

Há algo grandioso no meio de tudo isto. Chega um dia em que nos damos conta que vivemos mergulhados em contínuas oportunidades de ter nas mãos a força daquilo que nos acontece. A diferença entre o estar e o estar bem passa muito por sermos mais ou menos aquilo que nos acontece. Ser mais... e depois o resto irá acontecendo. Não te preocupes...

15 novembro 2010

Anos!

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Foi isto que encontrei quando abri esta manhã a janela do meu quarto! :)

Não podia deixar de escrever hoje, que sempre considero o dia de aniversário um dia muito feliz, mesmo que me custe sempre um bocado estar no centro das atenções!

Tirando aquele embaraço de não saber o que fazer enquanto cantam os parabéns (!), vivo um dia como o de hoje com a serenidade dos outros. Mas uma serenidade que tem um sabor de surpresa, amizade, e sobretudo agradecimento. 

Ficamos mais sensíveis a coisas muito essenciais, que é o facto de vivermos, já termos feito tanto caminho, perceber que ainda está tanto ali à frente por viver. É uma responsabilidade sentir as consolações. Obrigatoriamente, o entusiasmo lança-nos, faz querer ser mais, corresponder a tanto que nos é dado. Sentimo-nos preciosos. Mas não é apenas sentir, é ver que as coisas são mesmo assim.

07 novembro 2010

Voltar

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E amanhã regresso a Roma para uma semana! Vou para uma reunião de trabalho de alguns dias, ligado ao Apostolado da Oração. Ainda não passou muito tempo desde o regresso, mas é uma oportunidade que me enche de alegria, ainda nem deu tempo para sentir aquela nostalgia dos lugares fundamentais.

Uma viagem é sempre uma oportunidade de encontrar coisas novas, mesmo voltando aos mesmos sítios. Somos construídos também a partir de espaços. Porque um espaço é um lugar onde acontecem tantas coisas, sozinho ou com outras pessoas. Espaços são também relações e experiências de entrega e desafio.

É tão importante regressar a lugares importantes, porque nos recordam inspirações passadas com as quais nos continuamos a comprometer. São espaços de Vida e promessa. No fundo, o estar com qualidade joga-se entre memória e desejo de continuar assente em algo que teve significado. Roma é este espaço na minha vida, tal como muitos outros na nossa vida que se impõem como vontade de acertar. Viajar, regressar e partir completam-se muito.

04 novembro 2010

Qualidade

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Perguntamo-nos muitas vezes sobre a forma de ter qualidade de vida. Associamos qualidade ao bem estar, a que tudo nos corra bem e não nos falte nada. É bastante redutor fazer equivaler qualidade de vida com uma vida calma e sem problemas. Temos, aliás, a experiência que muito raramente vivemos momentos em que parece que está tudo arrumado.

A qualidade de vida tem mais a ver com atitudes de fundo e criação de espaços de gestão dos acontecimentos. Passa por aceitar e querer tirar de tudo oportunidades de viver bem, e viver o bem de cada momento. Mesmo que não seja óbvio. Uma das dificuldades principais em viver com optimismo é não conseguirmos ter tempo e disponibilidade para nos distanciar das coisas, não as ver como monstros e ameaças, mas como aquilo que é: a vida que me é dada viver. E se é dada, é dom.

Este espaço equivale ao silêncio, para quem acredita, à oração. Se há decisões importantes em relação à qualidade da nossa vida, sem tomar esta decisão do silêncio, as outras mais importantes ficam radicalmente diminuídas.

PS: Esta reflexão é feita a propósito de uma grande conversa no CAB com a Rita Negrão. Obrigado! :)

31 outubro 2010

Canto Gregoriano

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Sugestão de Nise


Há uns meses atrás, o António Valério pediu-me para eu escrever alguma coisa sobre o Canto Gregoriano. Comecei a escrever… mas depressa abandonei aquilo que tinha começado. Já existem tantas introduções ao Canto Gregoriano que a minha não traria nada de novo. Toda a gente sabe mais ou menos o que é o Canto Gregoriano, e a internet pode ser uma preciosa ajuda para quem quer aprofundar estes e outros temas. Também não queria entrar em polémicas nem em contrastes ideológicos que, quando se trata de uma realidade mística e sagrada como a Liturgia, só nos podem fazer mal. Tenho a firme convicção de que fazer da Liturgia uma questão ideológica, de esquerda ou de direita, conservadora ou progressista, é uma profanação. Não nos podemos esquecer que a Liturgia é de ordem mística. É dom de Deus para nos tocar de salvação… e o Canto Gregoriano não é um absoluto.

Por isso escrevo algo muito diferente… pessoal… uma experiência de vida e da Vida, onde também entra o Canto Gregoriano.

Era a Noite de Natal. Começava a celebração na Basílica de S.Pedro no Vaticano presidida pelo Papa. O toque de Deus atingiu-nos logo desde o primeiro momento da celebração (para não falar da preparação…). Em vez de uma esfusiante canção natalícia de centro comercial, fomos envolvidos por palavras sagradas, que se exprimiam num música interior, profunda, expressiva, contida, sóbria e comovente. Era a tradicional antífona de entrada da Noite de Natal em Canto Gregoriano: Dominus dixid ad me: Filius meus es tu. Hodie genui te (O Senhor disse-me: tu és meu Filho. Eu gerei-te hoje)…

Senti-me imediatamente tocado pelo Mistério do Natal: naquela noite cantávamos o mistério tremendo da nossa real participação na divindade. A antífona põe na boca de Jesus a expressão do salmo, mas, ao ser cantada por nós hoje, já não cantamos um evento histórico encerrado no passado. Cantamos a nossa participação no mistério de Jesus Cristo no nosso hoje, que na Liturgia se torna um Hoje de salvação, de real participação. É verdade: com aquelas palavras eu cantava comovido o amor louco de Deus que me tocava e abraçava de sentido e de salvação. Naquela noite eu já não era mais um ser tocado de tantas fragilidades e doenças, apenas nascido e já a declinar para a morte, porque naquela noite o Senhor disse-me: tu és meu filho. Eu gerei-te hoje!


A celebração prosseguiu. Depois da belíssima e comovente homilia do Papa ficámos em profundo silêncio a meditar nas suas palavras. Ele falava-nos de Deus… que se fez criança… para que não tivéssemos medo dele…

Depois de um profundo silêncio meditativo levantámo-nos para o canto do Credo. Era o Credo gregoriano da Missa de Angelis. E porque Deus tomou a sério a Encarnação, naquela noite também nós tínhamos que sentir no nosso corpo o tremendo mistério no qual estávamos a participar. Cantámos o Credo até às palavras Qui propter nos homines et propter nostram salutem descendit de caelis (Por nós homens e para nossa salvação, desceu dos céus). Terminadas aquelas palavras suspendeu-se o canto…

Naquele momento Papa ajoelhou-se em profundo recolhimento, e com ele a multidão que rodeava o altar da Basílica, que ficou completamente silenciosa. Como todos os outros, também eu estava com os dois joelhos no chão de mármore frio e duro, com os olhos fechados… e numa paz profunda…

Naquele momento os miúdos do Coro da Cappella Sistina começaram com muita delicadeza a cantar as palavras do Credo Et incarnatus est de Spiritu Sanctu ex Maria virgine, et Homo factus est (E encarnou pelo Espírito Santo no seio da Virgem Maria, e se fez homem)...

Já não era a famosa melodia gregoriana que tinha ficado interrompida, mas uma moderna composição polifónica belíssima… Tinha a leveza e o dançar delicado das nuvens perfumadas do incenso… era música… mas cheia de silêncio…

Quando as palavras do canto chegaram ao fim, … et homo factus est (e se fez homem), nós continuávamos ainda com os joelhos teimosamente plantados no chão de mármore frio e duro, com os olhos cerrados e comovidos… Tinham terminado as místicas palavras que narravam a Encarnação da Palavra… As palavras tinham-nos deixado e a música tinha cedido completamente o lugar ao silêncio… mas nós não tínhamos ficado sozinhos:

naquela suspensão do tempo, da acção e da música,
sentíamo-nos verdadeiramente envolvidos e abraçados pela protectora nuvem da Presença,
num silêncio profundíssimo,
a jorrar de bondade e de consolação,
de alegria e de paz…

(Era a noite do Deus-connosco…)

Fernando António,sj


PS: Adiciono um vídeo, precisamente do momento que o Fernando fala, na Missa de Natal na Basílica de S. Pedro. 



30 outubro 2010

As cores da Vida

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O Outono enche os nossos dias de reflexos e pormenores de cor e luz. Entre os raios de sol e as gotas de água na janela, passam diante de nós imagens nostálgicas de um tempo em que parecia que tudo seria mantido numa promessa de primavera ou calor de verão. 

Acabamos por ter de nos confrontar com paisagens que têm tanto de sereno como de desestabilizador. São passagens feitas dentro da alma que deixam caminhos para trás e nos lançam em construções de futuros promissores. Poderíamos dizer que estamos sempre a terminar e começar etapas, outras, porém, impôem-se na sua força e beleza.

É importante não ficarmos constantemente agarrados a consolações passageiras e prazeres aparentes. Do mesmo modo, vivemos na liberdade de deixar também para trás pesos que não merecemos levar. Podemos viver num Outono constante, mais cheio de finais felizes. Afinal, as cores falam por si.

25 outubro 2010

A paz interior

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É bastante complicado encontrar as nossas rotinas e o equilíbrio no meio daquilo que fazemos habitualmente. Temos o risco de viver a rotina como um tem-de-ser que nos tira a liberdade e a novidade dos vários momentos. Podemos cair numa espécie de insensibilidade que nos diminui e acaba por tirar alguma energia e vontade de fazer bem as coisas.

Mas a rotina também tem aspectos positivos, na medida em que nos molda e nos cria hábitos, ritmos, modos de estar. É inevitável que isto aconteça.

Olhar positivamente a rotina, sobretudo no criar espaços onde possamos "respirar", pensar e rezar aquilo que fazemos e os sonhos que temos é um caminho que acabará por nos trazer muita paz interior. A grande questão está em estarmos completos no que fazemos, sem serem as actividades a definir-nos, mas conseguirmos aproveitar e enriquecermo-nos interiormente mesmo com coisas pequenas e óbvias.

19 outubro 2010

Saber estar

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Muitas vezes acabamos por nos perguntar, no fim de termos estado com alguém, ou termos lidado com alguma situação mais complicada, se estivemos à altura, se a nossa presença e a nossa acção teve resultados positivos. Também corremos claramente o risco de fazer tudo para que ficássemos por cima, que as coisas se tivessem resolvido a nosso favor, que tivéssemos ganho a batalha.

É muito importante aprendermos com as nossas atitudes e criar disposições para os momentos em que somos postos à prova nas paciências e na superação de conflitos.

Muitas vezes, uma aparente derrota numa luta de argumentos significa criar espaço para a possibilidade de reconciliação e entendimento. Ou uma aparente derrota significa, no fundo, uma vitória do bom senso e do desejo de bem.

O bem das nossas acções e o bom fruto delas nasce de um discernimento capaz de avaliar as boas consequências do nosso modo de estar. Estar na vida e diante dos outros de um modo pre-disposto à amizade muda muito as coisas.

14 outubro 2010

Desejos

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Desejamos muito que aquilo que projectamos corra bem, seja um sucesso, que cumpramos as nossas expectativas. Temos momentos na vida em que nos encontramos no ponto em que algo se está a concretizar e aguardamos com alguma ansiedade o resultado dos nossos sonhos.

Em tudo isto, é bonito ver como os sonhos estão intimamente ligados com as acções concretas e os caminhos que percorremos para os ver cumpridos. Nessa altura, sentimo-nos entusiasmados e à espera que algo aconteça.

Mas é importante que as expectativas não nos tirem a surpresa nem limitem a nossa capacidade de aceitar o que vier. Os sonhos são, por natureza, coisas prováveis e improváveis ao mesmo tempo. No fundo, são uma parte essencial da vida, e tudo nos pode ser dado a viver como um dom muito grande. 


08 outubro 2010

Arranque

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E depois de uma longa paragem, já começava a sentir um vazio deste espaço! Nada melhor que dar cara nova ao Cidade Eterna, que já não é Roma, mas é a nossa cidade de todos os dias, onde a eternidade tem sempre um lugar importantíssimo.

E já estou em Braga, no arranque do ano! Escrever em poucas palavras aquilo que tem sido não é, para já, a minha intenção. Prefiro ir escrevendo impressões nos próximos posts. =)

Um início encerra muitas muitas promessas. Mas, há algo que verdadeiramente toca o nosso ser e nos faz cair na conta de uma coisa muito simples... que acabamos por começar pouco. Quase tudo o que fazemos, sobretudo se pomos em movimento a nossa bondade e criatividade, tem já uma longa história atrás de nós.

Começar algo é, de certa maneira, assumir consequências do caminho percorrido, mesmo das etapas que não parecem importantes ou que preferíamos não ter passado. Estamos inteiros na nossa história, quer queiramos quer não. 

E sonhar com dias futuros, luz de fim do dia e reflexos de cores nas paredes da nossa casa, é um poema que escrevemos todos os dias. Com a melhor arte que temos: a Vida que pomos à disposição do mundo.

26 agosto 2010

After Ben!

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Interrompo este tempo de férias (que está quase a acabar!) do Cidade Eterna para propôr uma grande iniciativa que terá lugar nos dias 1, 2 e 3 de Outubro em Cernache (Coimbra).

Depois da visita de Bento XVI a Portugal, ficaram no ar muitos desafios e provocações que, como cristãos e em Igreja, ficamos com vontade de aprofundar. Os Jesuítas, na continuação de outros encontros que têm feito (AfterXav, AfterPaul) organizam esta actividade orientada para os jovens entre os 16 e os 30 anos, que queiram aprofundar o tema: o amanhã está à nossa espera.

Nada melhor que visitar o site, ver as propostas e, claro, inscrever-se! Das experiências passadas, estes encontros têm-se revelado momentos de grande entusiasmo e encontro com dimensões muito essenciais de uma  fé mais esclarecida e da vida em Igreja. A não perder!!!

Visita e conhece aqui!

02 julho 2010

Até breve!

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Nunca me tinha acontecido que o Cidade Eterna estivesse tanto tempo parado, o que, de todo, não é confortável para mim, mas foi o que o ritmo destes últimos meses me impôs. De facto, não dava para mais, nem em tempo, nem em disponibilidade interior.

Felizmente, o trabalho para a tese, para os exames, e sobretudo o exame final, teve os seus bons resultados, o que me deixa com uma feliz sensação de dever cumprido e caminho percorrido. Alcancei a meta daquilo que me trouxe a Roma, que foi terminar os estudos. Agora, nestes dias, vou pondo em malas e caixotes roupas, livros e sobretudo memórias de um tempo fascinante, de grande crescimento.

Não sinto saudades, nem muita nostalgia, é o tempo de regressar e assim se parte para uma nova etapa. Creio ter concluído tudo, e resta-me agora algum passeio de despedida pela Cidade e dizer um Arrivederci Roma!

Entretanto, começa o meu tempo de chegada à nova comunidade, às novas missões, às actividades e a um bom tempo de descanso. Assim sendo, o Cidade Eterna fica de férias até meados de Setembro, altura em que poderei rever o que já foi acontecendo por aqui e pensar que coisas continuar, que coisas acrescentar... É um espaço que faz parte de mim, sobretudo pelo mundo que nos abre, à vida das outras pessoas, os maiores tesouros que podemos encontrar e cuidar.

Até Setembro e bom Verão! :)

06 junho 2010

Fidelidade

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A fidelidade é apostar constantemente em algo que não queremos perder. No fundo, ser fiéis a alguém ou a alguma coisa, não é difícil. Se virmos bem, aquilo que amamos é o centro da nossa vida e é impossível que façamos algo sem que tudo tenha uma referência àquilo que ilumina o nosso coração e o nosso olhar, ao que lhe dá um sentido completo.

Temos consciência de muitas pequenas infidelidades. Parece que falhámos regras e não estivemos à altura do que nos era pedido. Talvez fosse melhor que pensássemos acerca da qualidade do amor nas coisas que falhámos. Quando algo importante não nos preenche, é porque, provavelmente, não estamos a cuidar aquilo que sabemos ser importante e definitivo.

Podemos começar a enganar-nos a nós mesmos, querendo estar ligados a tudo, sem estar ligados a nada... vivemos à superfície. Falta-nos coerência, ou falta-nos amor?


01 junho 2010

Atitudes

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Mais que argumentos, convencem as atitudes. Podemos encontrar inúmeras desculpas para nos justificar, querendo salvar aparências ou não arranjar demasiados conflitos. Contudo, acredito que é apenas uma solução provisória. Gastamos muita energia quando nos esforçamos por esconder e adiar gestos que construam, de facto, algo positivo.

Temos imensa vontade de resolver questões pendentes, sentirmo-nos confortáveis naquilo que fazemos, sermos aceites naquilo que somos. Por isso, vivemos numa tensão constante entre imagem e verdade. 

Seria muito mais fácil se deixássemos acontecer aquilo que somos. Talvez não tenhamos os resultados imediatos que queremos, mas podemos terminar o dia contentes com o que fomos verdadeiramente. 


26 maio 2010

Procura

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Procurar exige movimento. Por dentro, somos tocados pelo desejo, que nos faz cair na conta de espaços vazios que temos necessidade de preencher. Procuramos muitas coisas, alcançar metas, virtudes nos outros, coisas que nos fazem falta. No fundo, acredito que estamos constantemente à procura de algo.

Faz parte de nós sermos incompletos, mesmo quando atingimos êxtases de realização ou quando nos deparamos com a nossa cara-metade. Vivemos, por isso, em constante sensação de ter já conseguido e ainda faltar algo. Isso não quer dizer que tenhamos desejos insaciáveis, simplesmente somos abertos ao mundo e à história do que nos acontece.

Cada dia nos traz qualquer coisa mais completa, crescemos de forma invisível, mesmo quando perdemos algo ou nos perdemos. Por vezes, é saudável percebermo-nos como não tendo tudo. Aliás, quem pensa que tem tudo, já não vive com surpresa.

21 maio 2010

Motivação

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Nem sempre encontramos a motivação certa para nos dedicarmos de alma e coração àquilo que é mais importante em dado momento da vida. No fundo, ficamos com uma sensação de ficar aquém do esperado, por não vermos resultados imediatos, ou porque as coisas têm sempre algum imprevisto.

A motivação nasce de uma certeza que queremos fazer determinado caminho. As metas do nosso esforço, por mais longínquas que sejam, exigem-nos perseverança. É fácil motivarmo-nos a curto prazo, mas quando é algo mais distante, damo-nos conta que o entusiasmo tem altos e baixos.

O mais importante é podermos ter, em relação a nós mesmos, uma espécie de confiança e fé. Acreditar que algo se constrói diariamente quando cumprimos a pequena parte do esforço de cada dia. Não vivemos apenas de grandes realizações, aliás, estas são bastante raras... a qualidade joga-se em coisas bastante mais pequenas.


17 maio 2010

A nova Missão!

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Chegou a altura de ser conhecida a minha missão, quando, em Julho próximo regressar a Portugal, depois de ter terminado os meus estudos aqui em Roma.

Para quem não conhece bem os procedimentos da designação de uma missão para um jesuíta, passo a explicar. A missão é dada pelo superior Provincial, superior dos jesuítas em Portugal, depois de um tempo de discernimento, em que o jesuíta é consultado sobre aquilo que sente que poderá ser o campo onde vê que poderá dar maiores frutos. É um dado importante no discernimento, mas não o decisivo. Por detrás de uma decisão está a disponibilidade de quem se oferece para o que for preciso segundo o voto de obediência. Assim sendo, a última decisão cabe ao provincial, que escolhe um jesuíta para fazer determinado trabalho, de acordo com as necessidades que a Companhia de Jesus tem nesse momento. Depois deste tempo, foi-me então comunicada a minha missão, que acolhi com imensa alegria!

Regresso à cidade de Braga, onde estudei por quatro anos Filosofia e Humanidades e irei viver na mesma comunidade em que estive, a Comunidade Pedro Arrupe, com os jovens jesuítas que estudam Filosofia. E irei dividir o meu apostolado em dois campos:

Vou começar a trabalhar no Apostolado da Oração, que é uma obra levada pela Companhia de Jesus e que tem uma grande tradição em muitas paróquias e grupos espalhados pelo país. Para além da editorial e da publicação de várias revistas, o Apostolado da Oração tem como principal missão o dar instrumentos a todos aqueles que queiram aprofundar a sua relação com Deus, através da oração, e de crescer no seu compromisso com a Igreja. A minha presença nesta obra será a de colaborar com aquilo que já se faz e ir descobrindo e aprofundando novos modos de comunicar a experiência de Deus às pessoas, mais novas e menos novas, que o desejam. Nesta linha, o Apostolado da Oração lançou esta Quaresma o Passo-a-rezar, um verdadeiro sucesso no modo de usar as novas tecnologias para proporcionar momentos de oração.

A outra parte da minha missão é ser Director do CAB (Centro Académico de Braga), um dos quatro centros universitários que os jesuítas têm em Portugal. Este centro é um lugar que acolhe os universitários que queiram vir, e que propõe de uma série de actividades, adaptadas ao mundo universitário. Estas actividades ajudam a crescer e viver a fé de forma mais esclarecida e ter também uma visão do mundo e da sociedade que leve a um compromisso maior e segundo os valores cristãos. Serei ajudado por alguns companheiros jesuítas e um grupo de universitários. As actividades vão desde grupos de reflexão, oração e partilha, a voluntariado, peregrinações, viagens, debates, etc. Sobretudo, o que mais toca os universitários é a experiência de partilhar a mesma fé, que ajude a orientar o rumo da própria vida, para além dos profundos laços de amizade que se criam.

Para aprofundar, deixo aqui alguns links que ajudam a perceber melhor onde estarei nos próximos tempos! Peço desde já as vossas orações, para que consiga levar com generosidade esta missão e partilho a minha alegria! ;)

Apostolado da oração: http://www.apostoladodaoracao.pt/
Centro Académico de Braga: http://www.cab.com.pt/

16 maio 2010

Entusiasmo

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(sugestão de Nise)

Aproveito a visita do Papa Bento XVI a Portugal, para reflectir sobre este tema do entusiasmo, que certamente será um dos sentimentos mais presentes nos fiéis católicos em Portugal, depois destes dias tão marcantes. Entusiasmo tem a sua origem nas palavras gregas en (dentro) theos (Deus), e pode-se traduzir com a ideia de "ter Deus dentro de si". Isto significa aquela força interior que nos acende e nos motiva, que nasce de uma sintonia criada com algum aspecto que nos faça orientar a nossa acção de um modo que nos empenha completamente.

Com muita pena, não estive em Portugal nos dias da visita do Santo Padre, mas acompanhei atentamente, graças à possibilidade das transmissões em directo na internet, todas as celebrações. Senti a profunda comoção transmitida no rosto de Bento XVI e nos milhares de pessoas que o recebiam. Por várias vezes, tive a oportunidade de, aqui em Roma, poder ver de perto o Papa e descobrir nele um homem próximo, afectivo na sua timidez e no seu pouco à-vontade no meio das grandes multidões. Contudo, o que mais me tocava era a sua afabilidade e, sobretudo, a profundidade das suas palavras. É impossível não ficar preso das suas palavras do início ao fim dos seus discursos. Portugal teve a sorte de ouvir em primeira pessoa alguns dos discursos mais profundos e significativos que este Papa dirigiu à Igreja.

Há uma diferença que encontrei entre as celebrações de Roma e o que pude ver em Portugal. Em Roma, o Papa apresenta-se no mesmo estilo, com o mesmo sorriso (apesar de algumas vezes ter notado algum cansaço) e a mesma força de unir as pessoas à sua volta através das suas palavras. Porém, em Roma, tudo é mais organizado, definido, e o ambiente da Praça de S. Pedro e da basílica conferem outra solenidade. Além disso, para além da fé de muitos peregrinos presentes, mistura-se inevitavelmente a sensação de estar diante de mais uma atracção turística, da parte de muitas pessoas que vêm a Roma e para as quais ver o Papa faz parte do programa. Em Portugal, tudo era mais espontâneo, mais "corpo", com maior sintonia. Era uma pura expressão da fé e do desejo de esperança que movia o coração dos portugueses. Isso notava-se claramente, a fé transformou-se numa enorme festa!

É natural que o entusiasmo fosse o sentimento mais central destes dias. Ninguém, mesmo os mais cépticos, terão ficado indiferentes à surpresa desta recepção ao Papa. Especialmente quando, da parte de tantos sectores da sociedade e de alguma comunicação social, se procurava perturbar, desde há vários meses, o ambiente da sua visita, aproveitando a difícil situação que vive a Igreja nestes dias. Esta situação dos escândalos e da descristianização crescente da Europa produz uma profunda dor em todos os cristãos, e um sentimento de desânimo, perguntando-nos como será o futuro da Igreja no nosso país e no mundo. Porém, esta visita, trouxe a todos esperança e uma verdadeira experiência de conversão interior, à qual o Papa se referiu na sua entrevista que deu no avião a caminho de Portugal.

Deste modo, a conversão que marcou o início da sua visita, não pode estar separada do entusiasmo que marcou o seu fim. Converter-se é orientar o coração para um caminho interior, em direcção à verdade e autenticidade do Amor. Só vivendo profundamente a experiência de saber o que é essencial nas nossas vidas, nos dá a força e o espírito de orientar a vida, em todos os seus aspectos, para concretizar algo grande e bonito, sermos realmente "lugares de beleza". O entusiasmo não nasce de uma experiência emotiva pontual, mas é a consequência daquilo que nos toca e constitui mais profundamente. É Deus-dentro-de-nós. É este o entusiasmo que vivemos nestes dias e que nos desafia a continuar, como cristãos convertidos ao Amor, mais Igreja.

12 maio 2010

Bem vindo a Portugal! :)

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"Com o vosso entusiasmo, mostrai que, entre tantos modos de viver que hoje o mundo parece oferecer-nos – todos aparentemente do mesmo nível –, só seguindo Jesus é que se encontra o verdadeiro sentido da vida e, consequentemente, a alegria verdadeira e duradoura". (Homilia na Eucaristia do Terreiro do Paço)



Ontem foi uma consolação enorme assistir daqui ao que ia acontecendo em Lisboa, num ambiente de festa, fé e alegria :)

10 maio 2010

Descobrir

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Perguntamo-nos muitas vezes sobre aquilo que nos faz falta. Por momentos, temos a impressão que vivemos no meio de uma nuvem que nos faz habituar àquilo que acontece todos os dias. Temos os nossos rituais e as nossas rotinas que vamos aceitando até ao dia em que nos damos conta que vivemos pouco.

Como em tudo, precisamos de um equilíbrio entre o conhecido e a descoberta de outras paisagens. No fundo, acredito que a mesma atitude pode ser fascinante: a de procurar fazer de cada momento um início e uma realização. Mesmo nas coisas comuns e conhecidas de todos os dias, seria óptimo se nos déssemos conta que é naquele tempo e naquele espaço em particular que a nossa bondade pode ter expressão. Fazer as coisas por rotina diminui a nossa paixão.

Quem vive com esta atitude estará aberto àquilo que acontecer. Não cabemos todos inteiros em coisas demasiado pequenas. No fim, teremos tempo e espaço para algo original, que nos faça sair de um certo comodismo que adormenta a nossa capacidade de transmitir alegria e serenidade. 

08 maio 2010

Redenção

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(Sugestão de Nise e Zé Lito)

A Redenção é um tema da fé cristã que toca muitos aspectos. Será difícil explicitá-los todos, mas procurarei tocar os pontos mais importantes. 

Em primeiro lugar, redenção significa, na sua etimologia hebraica e grega, segundo os diversos contextos: "libertar, soltar, resgatar". Redimir alguém seria libertá-lo de alguma obrigação, escravidão, etc, através do pagamento de dinheiro ou de um gesto que desse cumprimento a essa libertação. Em contexto religioso, a redenção era vista como a libertação do pecado, devendo, por isso, ser oferecido um sacrifício que perdoasse os pecados. Era o que se fazia no templo em Jerusalém, em que os sacerdotes ofereciam sacrifícios de animais para redimir o povo e as pessoas singulares dos seus pecados. Deste modo, o termo redenção está relacionado com outros termos que se usam na linguagem teológica, como salvação, perdão, expiação, sacrifício. 

A comunidade cristã, desde a sua origem, viu na morte de Jesus na cruz o sacrifício que o Filho de Deus fez, entregando a sua vida para libertar os homens dos seus pecados. É por isso que os discípulos o chamam Cordeiro de Deus. Além disso, em cada Eucaristia, os cristãos continuam a recordar e fazer presente este mesmo sacrifício e entrega de Jesus na cruz. Na sua morte e ressurreição, são perdoados os pecados da humanidade, Jesus pagou definitivamente o preço da nossa salvação.

Esta linguagem pode criar alguns mal entendidos, na medida em que podemos ficar a pensar que Deus necessita que alguém morra ou faça sacrifícios pelo pecado de outros; como se a salvação tivesse um preço a pagar e Deus só desse o perdão em troca de algo. O que é importante é reflectirmos sobre o que está por detrás da realidade do pecado e da redenção. O pecado, na medida em que é oposição ao amor e ao bem, rompe o laço que nos une a Deus, a nós próprios e aos outros. Quando pecámos, algo de bom deixou de estar presente no mundo, houve amor que não foi vivido nem comunicado. O pecado coloca-nos numa situação em que estamos afastados do bem e do amor. Para regressar à comunhão com Deus, connosco e com os outros, necessitamos de tomar consciência que precisamos de mudar atitudes e fazer algo que mude o nosso estado de pecado e nos faça passar ao estado de amor. Pedir perdão é já um gesto de redenção, mudar o nosso coração e não querer ficar no mal, é também um gesto de redenção, que muitas vezes implica um sacrifício pessoal de superar feridas, de dar o braço a torcer, reconhecer que errámos, crescer na humildade. Deste modo, podemos dizer que a conversão e a redenção implica necessariamente um sacrifício, a morte do nosso egoísmo e do nosso pecado, para que a vida de Deus-Amor aconteça plenamente em nós.

O que é mais significativo na redenção cristã é que Deus tenha oferecido o perdão gratuitamente e sem medida. A iniciativa de Deus é oferecer o perdão através do facto de Ele mesmo se ter feito um de nós, ter vivido tudo o que vivemos, ter sofrido e, finalmente, ter morrido na cruz. Em Jesus, Deus oferece-se a si mesmo como o preço da nossa libertação do pecado. Poderemos dizer, de forma muito simplificada, que a morte de Jesus na cruz torna o perdão de Deus extremamente acessível, de uma vez para sempre. Então o que se espera da nossa parte? Poderíamos dizer que, se Jesus já pagou o preço do nosso pecado, então estamos já salvos. Isto é verdade, mas não completamente. É um erro presumir que estamos já salvos, fazendo tudo como se o pecado não nos afectasse e vivendo sem responsabilidade. Não é isto que Deus nos pede. Pelo contrário, o facto de sabermos que o perdão nos é constantemente oferecido, faz-nos mais exigentes connosco mesmos, e queremos retribuir com uma vida mais santa aquilo que Deus fez por cada um de nós. Ser amados deste modo transforma-nos, na medida em que queremos ser dignos desse amor e corresponder-lhe com fidelidade e entrega. Por outro lado, ser amados deste modo, também nos faz mais sensíveis à nossa falta de amor, temos uma maior consciência e dor do próprio pecado quando sabemos que estamos a ser pouco fiéis a quem muito nos ama. 

Deste modo, a redenção é o perdão posto à nossa disposição, é o perdão já acontecido, que exige de nós uma correspondência e fidelidade constantes. Por isso, fazer o bem e não pecar não é uma simples tentativa de ganhar o céu, mas uma consequência existencial do facto de sermos amados e perdoados. Se o preço da libertação do nosso pecado está já pago, o que nos resta fazer é viver de acordo com este dom enorme de Deus. Isto é exigente, mas Deus ama-nos deste modo, quer-nos responsáveis e com a capacidade de tomar nas mãos o nosso destino.


04 maio 2010

Cuidar

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Uma das coisas que mais me impressiona na vida de Sto Inácio de Loyola é algo que é testemunhado por aqueles que contactaram de perto com ele. Diziam que qualquer pessoa que saísse de uma conversa pessoal com ele, saía com a impressão que era a pessoa mais importante no mundo para ele.

Penso muitas vezes nisso, quando reflicto sobre o modo como me dedico às pessoas que encontro. Criar esta atitude não é fingir que aquilo que a pessoa diz é importante, mas é sentir verdadeiramente o que está a acontecer. Em tudo o que nos é dado viver somos desafiados a estar presentes diante daquilo que está a acontecer.

Isso implica uma disponibilidade interior e uma consciência que as coisas urgentes podem esperar quando se trata de cuidar de alguém. No fim, não falta tempo quando ajudamos a construir uma paisagem melhor no coração de alguém.

29 abril 2010

Finalmente!

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Fui ontem entregar a minha tese na Faculdade, fechando três meses de trabalho mais intenso, com a recompensa de ter conseguido terminar a tempo e fazendo algo que me deu gosto, intelectual e pessoal! Para quem seja curioso, o tema sobre o qual escrevi tem a ver com o diálogo entre a fé e a Teologia e o nosso contexto cultural actual. A especialidade que estou a tirar, Teologia Fundamental, dedica-se a estes temas. 

O ponto central do meu estudo foi fazer uma descrição daquilo que as pessoas hoje vivem no dia-a-dia, encontrando os espaços onde cada um, na sua história pessoal, pode vir a pôr a questão de Deus, ou se existe algo para além desta vida e dos seus problemas que possa dar uma resposta e uma orientação à própria vida. Sendo assim, peguei nas duas etapas iniciais dos Exercícios Espirituais de Santo Inácio (Principio e Fundamento e Primeira Semana) e procurei pôr em relação a proposta de Santo Inácio, e as graças espirituais que ele propõe, com os desafios que este percurso pode colocar ao discurso da fé e da Igreja para despertar e promover a disposição interior para a fé.

No Princípio e Fundamento, reflecti sobretudo sobre o modo como olhamos a nossa vida, como nos definimos, o que é a plenitude; o modo como olhamos o mundo e a nossa relação com as coisas que estão à nossa volta; e depois, neste relacionar-se com as coisas, o que significa ser livre. Como me vejo e o que quero da minha vida? Como vejo o mundo, a história e os outros? Que relação de liberdade tenho com as coisas? São as três perguntas a que procurei responder.

Na Primeira Semana, tratei da questão dos nossos limites, da nossa falta de liberdade, das desilusões e do sofrimento. Como estamos metidos num mundo onde há mal, pecado, injustiça e morte. A grande questão é assumirmos a nossa verdade de sermos frágeis e tantas vezes incoerentes com o que sabemos ser o melhor para as nossas vidas. E descobrimos que aquilo que nos restitui a vida e a liberdade é o facto que temos alguém, Jesus, que continua a acreditar em nós, nos perdoa, que é capaz de chegar ao ponto de morrer por nós.

No fundo, o que mais me ficou deste trabalho é que a fé é uma questão de reconhecer uma fronteira que somos chamados a passar sempre e todos os dias: a de viver apaixonados. Não acreditamos só com a cabeça e com aquilo que dizemos, acredita-se porque é algo natural a quem ama. 

Claro que o discurso não é assim tão simples, este resumo é uma tradução das ideias principais, para que se possa perceber. O bom resultado do trabalho intelectual é que se possa aplicar à vida concreta, nisto espero ter atingido o meu objectivo. Logo verei os frutos :)


21 abril 2010

Os nossos lugares

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A nossa vida desenha em nós espaços onde nos vamos acomodando e com os quais nos identificamos. Acontecem, porém, coisas, que nos fazem sair desses lugares, alguma contrariedade, uma surpresa, um novo desafio. 

Viver cada dia é fazer constantemente passagens de um lugar interior a outro. Onde entram novas relações e perspectivas. Muitas vezes, sentimos que não temos a força para grandes mudanças, porque podemos estar a mudar de um lugar conhecido, para um novo, onde não estamos à vontade.

Poderemos ter uma atitude essencial que nos prepara para estar constantemente em mudança, mesmo que seja partir de um espaço conhecido para uma paisagem que desenhe surpresas felizes. Afinal de contas, estar sempre no mesmo sítio não nos ajuda a crescer.

11 abril 2010

Outro olhar

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A vida faz-se de encontros. De facto, somos muito pouco quando estamos sós, não nascemos para a solidão. Aliás, é das coisas que mais nos assusta. As pessoas passam na nossa vida e constroem ali o seu lugar. Depois, passa o tempo e partimos para novas paisagens. É muito bonito perceber como aquilo que se construiu em relações positivas não se perde, somos também as nossas relações.

Nas relações existe um espaço de comunhão e intimidade que revela quem nós somos. A verdade necessita de um campo de manifestação, feito de confiança e abertura. Ser aquilo que se é constitui uma surpresa e um desafio. Aceitamos o outro, acolhemos, passamos a gostar e a amar. O que é defeito torna-se oportunidade de crescimento, muitas vezes através de diálogos que custam. Mas ninguém é amigo se ao menos uma vez não se tiver zangado. 

São passos que descobrem pessoas como são, com luzes e sombras. É bonito o mundo humano, um fascínio que nos ajuda a ser nós próprios. É preciso ser muito livre para ser amigo.

06 abril 2010

Grandeza

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O que significa ser grande ou fazer coisas grandes? Vivemos à procura dos momentos em que a nossa vida ganha um rumo novo, em que temos a impressão que deixámos uma marca significativa no mundo e na vida das outras pessoas. Deixar obra feita. É muito importante que existam metas na nossa vida, porque orientam aquilo que fazemos numa direcção que nos preencha e nos faça crescer.

O risco que temos de afrontar é não fazer depender a nossa grandeza daquilo que podemos vir a fazer de significativo e visível. Existe uma grandeza que significa crescimento contínuo sem estar directamente relacionada com os seus frutos. É o caminho de cada dia e o modo como somos grandes em pequenas coisas. A vida sabe a pouco quando não prestamos atenção e não valorizamos tudo o que acontece como oportunidade e surpresa.

Uma pessoa grande tem aquela simplicidade de não ser obsessiva com resultados. Sabe dar valor ao que merece ter valor. E assim a vida ganha outra qualidade. 

04 abril 2010

Boa Páscoa!

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"Porque procurais entre os mortos Aquele que está Vivo? Não está aqui, ressuscitou!"


26 março 2010

Emoções

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Sugestão de dúvida

Apesar de a questão colocada ser longa e não ter sido toda escrita, não deixa de conter alguns tópicos muito interessantes que espero tocar da forma desejada. A relação das nossas emoções com as nossas recordações.

A emoção é um dos campos mais complexos da nossa vida. Têm relação com os sentimentos, que são algo que não controlamos, simplesmente as coisas tocam-nos de determinada forma e fazem eco em nós sem que possamos evitar. Sentimos atracção por algo que não nos faz bem, sentimos gosto em pequenas coisas que nos acontecem, vibramos com os mesmos sentimentos de um amigo. As emoções entram na nossa vida como uma consequência do facto de estarmos constantemente em relação com os outros e com o mundo.

Muitas vezes podemos correr o risco de pensar que não devíamos sentir determinada coisa, quando não é aí que está o problema. Uma emoção é sempre um despertar de algo que nos toca e nos sensibiliza. Porque nos faz desejar algo, nos faz completar algum aspecto de que sentimos falta. É, por isso, um convite a olharmos a nossa vida e percebermos o porquê de sermos tocados afectivamente por algo. Aquilo que nos toca é o que poderá significar o que realmente é importante. O trabalho que podemos fazer na análise dos nossos sentimentos é reflectir sobre o bem que estes trazem à nossa vida. Se nos orientam num caminho que achamos ser correcto, ou se nos estão a afastar dele.

Tenho a certeza que somos fruto de uma memória afectiva que nos vai formando como pessoas. Somos muito fruto dos sentimentos dos outros em relação a nós e também daquilo que sentimos em relação aos outros. Porque é raro que um sentimento fique fechado sem nenhuma reacção da nossa parte. Precisamos de comunicar o que nos vai na alma e manifestar com gestos concretos o que sentimos. 

Podemos lembrar-nos de muitas emoções, mas recordar-nos de poucas. As emoções têm muito de passageiro, são pontuais e vamo-nos lembrando de muitas coisas. As emoções que recordamos são aquelas que trazemos ao coração, que fazem parte de nós. A raiz de re-cordar (re-cordis) é precisamente fazer voltar a fazer passar pelo coração. Sentimos falta de memórias que nos façam reviver momentos importantes. Se "recordar é viver", talvez fosse melhor dizer que "recordar é voltar a viver", sobretudo se tornamos presentes os pontos que nos fazem crescer, escrevemos a nossa história a partir de certezas que nos fizeram e continuam a fazer como pessoas.



23 março 2010

Cuidar

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Encontrei este vídeo, que mesmo sendo um pouco longo, é lindíssimo!
Fez-me pensar naquilo que podemos fazer por quem gostamos, cuidar pequenos detalhes de um mundo feito de forma bonita. Amor é criativo...

20 março 2010

A paz de Cristo

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Sugestão de anónimo

Como discernir a paz de Cristo? Este tema necessariamente será dirigido a quem já tem uma vida de fé e oração e pretende encontrar modos e critérios para descobrir esta paz que vem do encontro com Jesus.

Especialmente na oração, não há receitas infalíveis. Tal como, com os nossos amigos, temos um modo específico e particular de nos relacionarmos com cada pessoa, do mesmo modo, o encontro com Deus na oração é extremamente pessoal. Cada um terá de encontrar o seu próprio modo de rezar, de acordo com a sua sensibilidade, carácter, estilo de vida e circunstâncias. Há pessoas que rezam a partir dos acontecimentos da vida, ou a partir das leituras do dia, outras que preferem silêncio sem grandes palavras, outras que pedem luz para algumas decisões que têm que tomar.

Em todas estas circunstâncias, há algo comum que é importante ter em conta. O primeiro aspecto é que a oração consiste num encontro com Alguém que quer estar connosco numa relação de transparência, verdade, intimidade e amor. Não estamos diante de um juiz ou de um mago, mas de alguém que acolhe e ajuda a transformar, orienta tudo aquilo que temos de bom para um horizonte maior. O segundo aspecto é que a boa oração é uma graça que não depende só de nós. O desejo e o tempo que temos à disposição para a oração é essencial, mas os resultados da oração partem de Deus. E Deus tem os seus tempos e modos de se comunicar, que muitas vezes estão além das nossas expectativas. Esperar que a oração nos traga aquilo que queremos corre o risco de transformar o encontro numa espécie de mercado e retribuição, o que tira a gratuidade e a surpresa. A oração, por isso, é um encontro de disponibilidade para aquilo que for, um exercício completo de liberdade.

Um dos frutos da oração é a paz. E como fruto que é, devemos pedi-la constantemente. Não como um direito que temos, mas como disposição total de abertura a recebê-la. Receber a paz de Cristo não é criar um espaço de tranquilidade psicológica, que nos poderia fazer ficar numa ilha desligada da vida, mas receber a paz como dom que transforma o nosso ser e o nosso agir.

Vejo muitas vezes a necessidade que as pessoas têm de um espaço de paz e existem imensos locais que a propõem, do tipo da meditação transcendental baseada em métodos orientais. E isto é bom. Porém, também tenho visto que estas experiências correm o risco de criar o efeito de uma ilha de tempo e espaço desligada do resto. É um processo psicológico mais que um encontro. E quando se sai desta ilha, evita-se a todo o custo confrontar-se com as "más energias" dos outros, quando o óbvio seria que a paz que se tem fosse motor para afrontar tudo e todos num desejo de curar feridas e estabelecer relações de verdade.

A paz que vem de Jesus pode ser encontrada também num tipo de meditação com métodos orientais. É também o meu preferido, mas importa perceber antes que não é uma paz conseguida, mas uma paz recebida.  Quais são então os critérios que nos permitem discernir a paz que vem de Cristo?

É uma paz que cura as nossas feridas, porque é voz de perdão e acolhimento total da nossa pessoa. Quem se sente amado sem condições sai transformado, deixa para trás os bloqueios e acredita na própria vida como caminho concreto de bem. Quem tem esta paz não se isola do mundo, mas quer fazer aos outros a mesma experiência de perdão. Não condena facilmente, mas ajuda com verdade. A paz faz-nos estar centrados que as coisas que nos acontecem, por piores que sejam, não nos distraem do essencial, aprendemos a relativizar tudo e colocar cada coisa num projecto de crescimento.

É uma distância que aproxima e faz agir. Perante cada coisa, pergunto-me: e agora? Que possibilidade de amar me é dada? São as pessoas de paz que não desesperam, mas têm a força de encontrar soluções. Isto é um dom enorme, e o centro da qualidade da nossa Vida.

19 março 2010

As certezas

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Vivemos constantemente entre passagens, faz parte do caminho de cada dia e do caminho da vida. Passamos de um lugar a outro, de uma relação a outra. Sobretudo alternamos emoções e pensamentos, um mundo complexo que se desenha velozmente come se não fôssemos donos dos traços que fazemos numa folha em branco.

Existem momentos em que temos a possibilidade de ir além do que está diante de nós. Um desses momentos é o final do dia, a irresistível cor do fim da tarde. Esta é uma passagem do dia para a noite, o adormecer tranquilo das nossas actividades interiores. As cores do fim do dia escondem segredos e abraços profundos, que constituem as nossas histórias apaixonadas e as palavras que expressam o que nos vai na alma.

Expressar qualquer coisa de amor nas nossas vidas é uma aventura que nos leva para espaços desconhecidos. Dizer que se ama compromete-nos, porque a palavra é a resolução de uma história, um ponto de consciência que significa uma mudança total da nossa vida. Esta é uma certeza, sentir e fazer sentir amor é a criação de um espaço onde estamos radicalmente, onde nunca mais poderemos deixar de estar.

14 março 2010

Agradecer

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É mesmo muito bom quando nos damos conta e experimentamos as coisas que já sabemos. Não há limites de tempo e espaço para as verdadeiras amizades, fazem parte de nós como o nosso respiro. Estes dias estive aqui com algumas visitas e foi o tempo de viver a sério a profundidade dos laços que criamos.

Todos temos imensa sorte com as pessoas bonitas que conhecemos, com as histórias que fazemos entre partilha, perdão, ajuda e consolação. É mesmo importante cuidarmos das pessoas que nos cuidam. Num estilo de vida como a que tenho, não é possível manter contacto frequente, mudo muitas vezes de sítio, outras vidas... agora é mesmo importante cair na conta que não vivemos de forma indiferente às vidas que tocámos e nos tocaram. É um dom e uma responsabilidade.

Ter amigos é o maior dom que podemos ter. Nisso percebo-me verdadeiramente abençoado. Fica o desafio de esta semana cuidarmos aqueles que são importantes para nós, abraçar tantos dons... a amizade é também livre, mas precisa de atenção. ;)


PS: Com estas visitas e o trabalho mais intenso para a tese, estou mais irregular na escrita. Estes tempos, vou escrevendo quando posso, mas está a correr bem. Boa semana! ;)


07 março 2010

Não desistir

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Certamente ouvimos já tantas vezes alguém que nos tenha dito: "Não desistas". Nós próprios já o dissemos a alguém e também a nós mesmos. O que está por detrás do não querer desistir?

Em primeiro lugar, isto só acontece quando nos confrontamos com um cansaço ou com uma dificuldade que põe em causa o nosso esforço. Parece óbvio dizer isto, mas estou convencido que muitas vezes desistimos sem perceber porquê, o que fizemos para ficar cansados, ou sem reflectir se a dificuldade é de tal ordem que seja suficiente para nos fazer parar.

Em segundo lugar, desistir esconde uma falta de energia e vontade. Não encontramos em nós a luz suficiente para manter um compromisso assumido e desmotivamo-nos com  a falta de frutos do que fazemos ou respostas ao nosso empenho. De todos os modos, parece-me que olhamos mais para fora de nós e para os efeitos da nossa acção do que propriamente para o que acontece dentro de nós.

Quando assumimos um compromisso, devemos ter consciência que aquilo que prometemos a nós mesmos ou a alguém nasce espontaneamente de um desejo de fazer algum bem, algo que nos faz sair de nós e traduz de uma forma concreta a nossa bondade. Quando desistimos, deixamos de ser nós nalguma parte do mundo das nossas relações, criamos espaços vazios e alguém fica a perder.

Finalmente, uma coisa é desistir, e outra é deixar um compromisso para dar lugar a um empenho mais completo. Desistir fecha uma estrada, escolher um outro caminho abre outros horizontes.

02 março 2010

Suavidade

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Não vale muito a pena tentar mudar coisas de forma violenta. Certamente, há aspectos na nossa vida que exigem algum corte ou mudança repentina, mas acredito que isto se aplica a uma parte bem pequena dos nossos momentos.

De facto, a nossa vida tem uma continuidade de sensações e impressões às quais devemos ir estando atentos e percebendo até que ponto todas as coisas nos ajudam a construir na autenticidade e na verdade. Isto faz-se com pequenos passos e certezas cada vez maiores.

A vida parece muitas vezes repentina e violenta, mas o passar do tempo é muito mais suave do que supomos. Ter consciência da suavidade do toque de cada acontecimento dá outro respiro àquilo que estamos a fazer, alimenta as nossas expectativas numa outra direcção. Faz-nos mais atentos, mais centrados, com maior respeito por mim e pelos outros, e maior liberdade. 

01 março 2010

2 anos!

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O essejota.net celebra este mês de Março 2 anos de vida! 


Este site é uma iniciativa da Pastoral Juvenil da Companhia de Jesus, levada pelos jovens jesuítas portugueses, juntamente com um bom número de amigos que colaboram. 

Neste mês, começa uma nova fase do site, que agora passa a ser quinzenal. Assim, cada 15 dias, terás oportunidade de ler, ouvir, reflectir, conhecer novos conteúdos que ajudem a entrar mais nesta proposta de um olhar actual e cristão sobre a vida, o mundo e a fé. Visita e bem vind@! ;)

25 fevereiro 2010

Começar

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Quando começamos a ter a impressão que o tempo nos falta para o que queremos, estamos a cair na conta de que os compromissos que assumimos, juntamente com os imprevistos de cada dia, nos ocupam a a mente e o coração de uma forma não organizada.

É inevitável que a vida, como a temos hoje, seja marcada pela pressa e pelo acumular de coisas, entre trabalho e descanso, família e amigos, lazer e compromissos. Se é verdade que a determinada altura, teremos de dizer não a algumas coisas, é certo também que muitas vezes não nos resta alternativa senão em fazer o que nos aparece à frente.

Existe uma sabedoria que nasce da consciência de que não podemos viver só em função da agenda, porque a Vida é muito mais que uma série de acontecimentos, é sobretudo a qualidade e a luz pessoal que pomos em todas as coisas. Se não temos o tempo e o espaço para ganhar contacto com aquilo que verdadeiramente interessa, acabamos por nos dispersar. É importante encontrar o ponto de partida de cada dia, que não nos deixe fugir a vida por entre os dedos. 

Porque não, em cada manhã, fazer o exercício de olhar o dia como oportunidade de completar o que sou em coisas pequenas? Em cada dia, eu me manifesto e não deixo que os ritmos me tirem a serenidade.

22 fevereiro 2010

Celibato

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Sugestão de Aprendiz

Depois de algum tempo, e com muitos temas atrasados, retomo as sugestões! Na altura em que surgiu este tema, recordo-me que era a propósito de um acontecimento muito falado nas comunicação social, em que um jovem sacerdote resolveu deixar o seu sacerdócio por se ter apaixonado. É inquestionável que o tema do celibato provoca muitas reacções, quer da parte de crentes, quer de não crentes.

O celibato é entendido pela Igreja como um sinal de consagração. Uma pessoa decide livremente entregar a sua vida a Deus e ao serviço dos outros, renunciando, não à sexualidade, mas sim ao seu exercício. Um consagrado não é um extraterrestre, é um homem ou uma mulher que vive a sua sexualidade e é chamado, como todos, a vivê-la de forma integrada e aberta à relação com os outros. Não se consegue viver sem afectos, nem a ninguém é pedido isso.

Uma coisa que creio que nunca fica clara é que se fala muitas vezes do celibato como uma imposição. O celibato é um convite a um determinado estilo de vida. Quem escolhe ser padre, ou religioso, sabe que o celibato faz parte da sua escolha e, na sua liberdade, opta por isso. Mesmo consciente da própria fragilidade e da possibilidade que não se possa alguma vez ser coerente com esse compromisso, a pessoa que escolhe ser célibe fá-lo com esse desejo. Uma pessoa que claramente vê que a sua realização pessoal e a sua missão não passa pelo celibato, não escolhe este tipo de vida. Do mesmo modo, a quem casa, não se lhe é imposta a fidelidade, mas é o ponto de partida básico da sua opção. Quem casa ou quem namora, quer verdadeiramente ser fiel, como base de uma relação autêntica e verdadeira. O que quero dizer com isto, é que o celibato nasce de uma opção livre e consciente das suas consequências, incluindo uma certa solidão. Tal como no casamento, se casa livremente e querendo ser fiel, consciente das suas consequências, de alimentar constantemente a relação, mesmo no meio das dificuldades, rotinas e cansaços.

Não quero estar a julgar o comportamento deste sacerdote, que só conheço a história por fora, ou de muitos religiosos que não são coerentes com a própria escolha. Importa é reflectir sobre o porquê de estas coisas acontecerem, se se deve à própria estrutura da pessoa ou falta de maturidade, a uma formação pouco atenta a estes aspectos, ou, a meu ver, a questão principal, o não cuidar o centro da própria vocação, que é a oração. Um padre ou religioso que não reze, não se poderá sentir totalmente apaixonado e centrado, enchendo de afecto de Deus o próprio coração. E sabemos todos como o coração precisa de estar preenchido e, se ficamos divididos nos afectos, acabamos por procurar outras coisas que preencham os nossos espaços vazios. 

Uma outra questão é sobre o porquê de a Igreja católica romana pôr o celibato como fazendo parte do sacerdócio. Esta indicação não é um dogma, nem algo impossível de poder mudar. Sabe-se, que nos primeiros séculos do cristianismo, existiam sacerdotes e bispos casados. Com o passar do tempo, por diversas circunstâncias da época, começou a crescer esta ideia de que o sacerdote devia ser célibe. Não existe uma data concreta em que isto se decidiu, foi um processo longo que a Igreja foi estabelecendo. Teria de escrever muito para explicar todas estas razões e, por isso, aponto-as brevemente e deixo a cada um a curiosidade de poder aprofundar.

Começa a desenvolver-se na mentalidade eclesial a consciência da consagração total a Deus, cuja modelo estaria sobretudo na vida eremítica e monástica, isto é, pessoas que deixavam as cidades para se retirar no deserto e nos campos para se dedicar à oração. Este modelo foi passando, pouco a pouco, também para o clero secular. Uma outra questão começou a ser a preocupação dos bispos nos casos de mau exemplo dos seus padres casados e também, numa altura em que a Igreja tinha poder político sobre diversos territórios, havia o problema da dispersão do património da igreja, por causa dos descendentes dos padres. São estes aspectos, misturados, que pouco a pouco criaram uma mentalidade de que o sacerdote teria de ser célibe e assim se estabeleceu a regra. Porque a Igreja não existe fora da história e experimenta, como todas as instituições humanas, a necessidade de se adaptar aos tempos e configurar o modo como se apresenta, mantendo o que lhe é essencial. 

O celibato, para além do aspecto central da consagração a Deus, tem, na Igreja, um carácter jurídico, isto é, o celibato faz parte do sacerdócio. Mas apenas na Igreja católica de direito romano. Na Igreja católica de direito oriental, em união com o Papa, os padres diocesanos podem escolher casar ou não. Os Bispos, porém, terão de ser célibes. Para poder aprofundar esta questão da igreja católica de rito bizantino (oriental), aconselho a leitura de um texto publicado há tempos, por um companheiro jesuíta, no essejota.net. Por outro lado, os religiosos vivem sempre o celibato, porque professam os votos religiosos de pobreza, castidade e obediência. Os padres diocesanos prometem viver a castidade, mas não tem o mesmo valor jurídico de um voto. Contudo, o essencial da castidade é vivido seja por padres diocesanos, seja pelos religiosos.

Uma última coisa, sobre a possibilidade de que os padres - diocesanos - possam vir a casar. Poderá ser, mas ainda é necessário um tempo de amadurecimento da questão e sobretudo ver se a mentalidade eclesial vai nesse sentido. Uma coisa que é óbvia na mentalidade ocidental, pode não o ser numa outra cultura. Uma lei da Igreja terá de ter em conta a diversidade das culturas onde está inserida, e uma mudança do género teria de vir acompanhada de uma aceitação pacífica e desejada por todos. Se, neste momento, o celibato dos padres fosse abolido, seria aplaudida por muitos, mas também não aceite por muitos. A meu ver, não seria uma questão pacífica na igreja universal, e é necessário que uma mudança sirva para congregar a todos numa única direcção e não para dividir e criar roturas. Mas certamente é uma questão que importa ser repensada e aprofundada.

21 fevereiro 2010

Superação

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Temos em nós fronteiras e limites que estabelecem a diferença entre o nosso espaço e aquilo que está fora de nós. Uma fronteira é um espaço de passagem ou de defesa, dependendo do modo como olhamos o que está fora do nosso horizonte.

É importante cuidarmos o nosso espaço, o santuário onde podemos contemplar e adorar a maravilha que somos e a nossa eternidade, aquele espaço ao qual só nós temos acesso. Algo que é verdadeiramente importante e não ganhamos nada se não cuidarmos, embelezarmos, visitarmos muitas vezes. 

Acredito que a beleza da nossa paisagem interior é aquilo que nos torna fascinantes e não precisamos de ir buscar continuamente fora de nós as coisas que nos fazem felizes, poderíamos correr o risco de sermos algo diferente do que somos, e é pena que isso acontece.

Nas nossas passagens além das fronteiras, saímos e deixamos entrar e, por isso, a comunhão, a amizade e o amor são pontos altos da nossa Vida. Apenas as pessoas que trazem em si algo de autêntico é que podem sair de si com uma atitude de verdade e simplicidade, sem defender os limites, mas convidando à participação e a fazer juntos algo grande.


 

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