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04 janeiro 2012

À procura

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O Evangelho do dia de hoje apresenta-nos as primeiras palavras que Jesus diz, na versão de S. João: "Que buscais?" Não é inocente que o evangelista tenha posto como primeiras palavras uma pergunta tão desafiadora e inquietante.

Todas as nossas acções movem-se em direcção a algo que queremos alcançar, quer para satisfazer uma necessidade básica, quer para obter um resultado, ou definir um caminho a seguir. O desejo implica uma procura, e uma procura implica movimento, dentro e fora de nós.

A pergunta mais difícil e essencial, que dá início à descoberta da história de Jesus, coloca os discípulos diante do seu horizonte de vida. E é curiosa a sua resposta. Procuram uma casa: "Onde moras?". Um lugar de abrigo, intimidade, comunhão... se fosse esta a nossa procura, as nossas relações seriam um espaço muito diferente para os outros. 

19 outubro 2010

Saber estar

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Muitas vezes acabamos por nos perguntar, no fim de termos estado com alguém, ou termos lidado com alguma situação mais complicada, se estivemos à altura, se a nossa presença e a nossa acção teve resultados positivos. Também corremos claramente o risco de fazer tudo para que ficássemos por cima, que as coisas se tivessem resolvido a nosso favor, que tivéssemos ganho a batalha.

É muito importante aprendermos com as nossas atitudes e criar disposições para os momentos em que somos postos à prova nas paciências e na superação de conflitos.

Muitas vezes, uma aparente derrota numa luta de argumentos significa criar espaço para a possibilidade de reconciliação e entendimento. Ou uma aparente derrota significa, no fundo, uma vitória do bom senso e do desejo de bem.

O bem das nossas acções e o bom fruto delas nasce de um discernimento capaz de avaliar as boas consequências do nosso modo de estar. Estar na vida e diante dos outros de um modo pre-disposto à amizade muda muito as coisas.

04 maio 2010

Cuidar

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Uma das coisas que mais me impressiona na vida de Sto Inácio de Loyola é algo que é testemunhado por aqueles que contactaram de perto com ele. Diziam que qualquer pessoa que saísse de uma conversa pessoal com ele, saía com a impressão que era a pessoa mais importante no mundo para ele.

Penso muitas vezes nisso, quando reflicto sobre o modo como me dedico às pessoas que encontro. Criar esta atitude não é fingir que aquilo que a pessoa diz é importante, mas é sentir verdadeiramente o que está a acontecer. Em tudo o que nos é dado viver somos desafiados a estar presentes diante daquilo que está a acontecer.

Isso implica uma disponibilidade interior e uma consciência que as coisas urgentes podem esperar quando se trata de cuidar de alguém. No fim, não falta tempo quando ajudamos a construir uma paisagem melhor no coração de alguém.

11 abril 2010

Outro olhar

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A vida faz-se de encontros. De facto, somos muito pouco quando estamos sós, não nascemos para a solidão. Aliás, é das coisas que mais nos assusta. As pessoas passam na nossa vida e constroem ali o seu lugar. Depois, passa o tempo e partimos para novas paisagens. É muito bonito perceber como aquilo que se construiu em relações positivas não se perde, somos também as nossas relações.

Nas relações existe um espaço de comunhão e intimidade que revela quem nós somos. A verdade necessita de um campo de manifestação, feito de confiança e abertura. Ser aquilo que se é constitui uma surpresa e um desafio. Aceitamos o outro, acolhemos, passamos a gostar e a amar. O que é defeito torna-se oportunidade de crescimento, muitas vezes através de diálogos que custam. Mas ninguém é amigo se ao menos uma vez não se tiver zangado. 

São passos que descobrem pessoas como são, com luzes e sombras. É bonito o mundo humano, um fascínio que nos ajuda a ser nós próprios. É preciso ser muito livre para ser amigo.

14 março 2010

Agradecer

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É mesmo muito bom quando nos damos conta e experimentamos as coisas que já sabemos. Não há limites de tempo e espaço para as verdadeiras amizades, fazem parte de nós como o nosso respiro. Estes dias estive aqui com algumas visitas e foi o tempo de viver a sério a profundidade dos laços que criamos.

Todos temos imensa sorte com as pessoas bonitas que conhecemos, com as histórias que fazemos entre partilha, perdão, ajuda e consolação. É mesmo importante cuidarmos das pessoas que nos cuidam. Num estilo de vida como a que tenho, não é possível manter contacto frequente, mudo muitas vezes de sítio, outras vidas... agora é mesmo importante cair na conta que não vivemos de forma indiferente às vidas que tocámos e nos tocaram. É um dom e uma responsabilidade.

Ter amigos é o maior dom que podemos ter. Nisso percebo-me verdadeiramente abençoado. Fica o desafio de esta semana cuidarmos aqueles que são importantes para nós, abraçar tantos dons... a amizade é também livre, mas precisa de atenção. ;)


PS: Com estas visitas e o trabalho mais intenso para a tese, estou mais irregular na escrita. Estes tempos, vou escrevendo quando posso, mas está a correr bem. Boa semana! ;)


21 fevereiro 2010

Superação

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Temos em nós fronteiras e limites que estabelecem a diferença entre o nosso espaço e aquilo que está fora de nós. Uma fronteira é um espaço de passagem ou de defesa, dependendo do modo como olhamos o que está fora do nosso horizonte.

É importante cuidarmos o nosso espaço, o santuário onde podemos contemplar e adorar a maravilha que somos e a nossa eternidade, aquele espaço ao qual só nós temos acesso. Algo que é verdadeiramente importante e não ganhamos nada se não cuidarmos, embelezarmos, visitarmos muitas vezes. 

Acredito que a beleza da nossa paisagem interior é aquilo que nos torna fascinantes e não precisamos de ir buscar continuamente fora de nós as coisas que nos fazem felizes, poderíamos correr o risco de sermos algo diferente do que somos, e é pena que isso acontece.

Nas nossas passagens além das fronteiras, saímos e deixamos entrar e, por isso, a comunhão, a amizade e o amor são pontos altos da nossa Vida. Apenas as pessoas que trazem em si algo de autêntico é que podem sair de si com uma atitude de verdade e simplicidade, sem defender os limites, mas convidando à participação e a fazer juntos algo grande.


13 janeiro 2010

O rosto e o olhar

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Hoje, no meio das minhas leituras encontrei algo que me fez pensar. Falava-se do rosto e do olhar. O rosto é uma fronteira entre o que eu conheço do outro e aquilo que o outro é. No rosto apercebemo-nos não só das características, mas também das suas emoções e das suas histórias.

Contudo é o olhar que faz transparecer aquilo que verdadeiramente enche o coração. Ou aquilo que o coração precisa. Posso olhar um rosto sem me deixar interpelar e ficar apenas pelo catálogo de muitas sensações e impressões. Agora, um olhar interroga, seduz ou intimida.

O rosto tem vida por causa do olhar e por vezes esse olhar pode elevar a alma ou destruí-la. Pode gerar-se um confronto sem palavras, que mede e calcula, à espera que o outro baixe o olhar, derrotado. É impressionante o poder que temos sobre as outras pessoas.

Mas existe um olhar que acredita, que constrói, que é sensível. Que não busca confronto, mas surpresa. Um olhar inocente e sábio na sua inocência. De quem não tem medo... gostaria de olhar sempre assim.

08 dezembro 2009

A amizade

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Sugestão de Di

A amizade é dos dons mais preciosos que podemos ter na Vida. Se todos, mais ou menos, temos um medo existencial muito profundo da solidão, são os amigos que vêm preencher esse espaço. Contudo, os amigos, sabemos bem, não servem só para satisfazer os nossos desejos de termos alguém com quem desabafar e partilhar as coisas mais importantes.

O elemento mais importante da amizade é a gratuidade. Não escolhemos os nossos amigos, as amizades profundas simplesmente acontecem, ficamos ligados a elas, fazem parte de nós. Começamos com pequenos episódios comuns, que fazem nascer sintonias de fundo e algumas certezas de que determinada pessoa é um espaço onde eu me manifesto de forma autêntica.

A amizade não dá lugar a medos e calculismos. É o espaço onde cada um existe como é, com qualidades e defeitos. A determinado momento, os próprios defeitos entram na relação e podem provocar conflitos. É o momento em que aparecemos na nossa verdade e na nossa fragilidade. E é nesse momento que a amizade se purifica. Não há verdadeiros amigos se pelo menos uma vez não se tiverem zangado. Então, aí se faz a experiência que eu te aceito, que quero o teu bem e que não vou desistir de ti. Só o ser amado pode transformar e mudar atitudes menos correctas. E este acolher-transformar acontece de parte a parte, cada um cresce no melhor que tem e integra os próprios defeitos, porque existe por trás uma verdade baseada no amor. É uma experiência muito profunda.

Tenho a sorte de ter amizades assim. E que não são muitas, porque as amizades que verdadeiramente transformam não podem ser muitas. Mas cresci e fiz crescer em aceitação, beleza e transformação da própria bondade num desejo de ser autêntico e feliz. É algo que tenho a certeza que nunca se perde, mesmo estando longe e falando de vez em quando... como se cada encontro tivesse acontecido ontem, é uma vitalidade fresca e feliz.

Há também amizades que chamamos assim, mas que, no fim de contas, não chegam à profundidade do que é a amizade. Ser amigo é algo sério, não é uma necessidade de companhia, é estar disponível sempre e com liberdade. Quando uma relação não nos deixa ser verdadeiros, quando deixamos de ser autênticos, então é um caminho incompleto ou mal começado. Possuímos ou somos possuídos, fazemos papéis que não nos servem e não falam de nós. Há sempre um modo de poder fazer destas relações uma amizade profunda, mas nestas coisas do coração, ou acontece ou não acontece. Nesse caso, a estima e o respeito são uma boa atitude. Mas nunca a mágoa e sempre o perdão. A Vida é complexa =)


26 novembro 2009

Sim, mas...

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Hoje estive a pensar e reflectir sobre as conversas que tenho, acerca de acontecimentos e pessoas. Quer eu, quer outros, temos um estranho hábito de começar por louvar uma situação, que é maravilhosa, óptima, e depois, lá vem a palavra mágica: sim, mas...

E o discurso que vem a seguir é muito mais convincente e interessante.

Os nossos "mas" podem ser a expressão de uma capacidade crítica e desejar o melhor, mas escondem uma armadilha que consiste em não sermos generosos e compassivos nos nossos juízos. Entre as ideias claras e ter um mundo feito à minha medida está uma fronteira muito ténue. Prefiro ser ingénuo algumas vezes, a estar constantemente a olhar os pontos fracos dos outros. Talvez o principal problema esteja em mim e sou eu o ponto fraco do meu mundo.


02 novembro 2009

Amar tem muitas caras

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Hoje fiz uma visita por vários blogs amigos e confirmei uma coisa. Parece que há alturas em que há um maior número de temas recorrentes. E é curioso que seja também o tema que mais me ocupa interiormente. Talvez seja porque, em determinada altura do ano, o tempo nos faça frutificar diferentes sentimentos. E o sentimento de hoje é especial.

O amor é um apelo grande à verdade da nossa Vida. É ter consciência, e uma consciência mais afectiva que racional, que nos sentimos movidos por uma energia que faz com que cada coisa tenha um rumo. Em direcção a algo ou alguém que amamos. Não nos sentimos perdidos, mas por vezes quase que arrastados. É uma força pacífica e reconciliadora e, ao mesmo tempo, com uma violência que não nos deixa tomar o pulso à situação.

O amor tem a extraordinária capacidade de nos fazer "deixar andar", sem pensarmos muito nas consequências. Confiamos ingenuamente, perdemos tempo com tesouros que não custam ganhar. É felicidade e exigência. Quando a verdade do nosso bem faz bem, estamos entusiasmados. O amor é esta extraordinária capacidade de não sermos donos do tempo, nem de nós e, sobretudo, dos outros.



20 maio 2009

Reconciliação

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Tenho-me dado conta que uma das coisas que causa mais dano a nós e às nossas relações é o facto de não termos a capacidade de reconhecer caminhos mal feitos e não termos tido, um dia, a coragem de reconhecer algo importante que não quisemos ou pudemos fazer. Uma grande parte desta falta de reconhecimento faz-se através de mal-entendidos.

Quando algo não é claro, vamos-nos convencendo de que é impossível que a culpa esteja só em nós, ou então, que somos os únicos responsáveis por algo menos bom que aconteceu. Como em tudo, na Vida, é preciso perceber o que acontece dentro de um olhar maior.


Normalmente, as falhas que nos fazem sofrer mais têm relação com algo que é muito importante. Sentimos que não somos verdadeiros em relação a nós ou aos outros. E, por isso,precisamos de uma palavra humilde e corajosa ao mesmo tempo, de dizer: desculpa, de pedir força para ser maior e melhor, de nos deixarmos levar pelo mais positivo que temos, esta energia enorme de poder dizer que se ama alguém.


29 abril 2009

Crescer com alguém

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Estou mais irregular na escrita, estes dias, por causa da canonização de S. Nuno, que trouxe a Roma muitos portugueses e, por isso, estive a acompanhar alguns amigos que vieram cá. Foi uma cerimónia muito bonita, e ouvir falar português pelas ruas é sempre uma experiência original!

O facto de ter estado com algumas pessoas e, sobretudo, a experiência de recordar momentos e tornar presente amizades, fez-me cair na conta de algo tão importante, que é pena que não me lembre disso mais vezes.

Creio ser praticamente impossível fazer uma lista completa das pessoas que fomos tocando nas nossas vidas. Talvez porque o bem que fazemos, por vezes não nos damos conta disso. Um abraço ou uma certa palavra num determinado momento da Vida de alguém pode ser uma experiência muito libertadora. Mas aqueles com quem vamos construindo uma relação, vamo-nos apercebendo, com o passar do tempo, que vamos ficando pessoas diferentes.

Não só porque cada dia acrescenta coisas novas, mas porque eu cresci com algumas pessoas e algumas pessoas cresceram comigo. E, por ser exactamente com essa pessoa, sou diferente e mais completo de um modo que não seria se fosse uma outra pessoa. Isso é uma responsabilidade e um dom. Deveríamos perguntar-nos qual a qualidade daquilo que damos e fazemos pelos outros, como alguém fica melhor, e brilha mais, por nossa causa.

23 março 2009

Na corda bamba

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Estes dias tenho andado a pensar numa coisa, sem ter chegado a nenhuma conclusão. Estamos constantemente è procura de pontos de equilíbrio, entre trabalho e descanso, acção e contemplação, ócio e criatividade. Ou em gerir relações complicadas, procurando não explodir, ou deixar passar o tempo sobre as coisas, afastando-nos delas.


Buscar este ponto de equilíbrio é muito importante, e acho que estaremos toda a vida à procura dele, porque cada tempo tem as suas tensões e decisões. Quer isto dizer que a nossa condição é estar na corda bamba, a procurar alguma corda que caia do céu e nos segure quando tudo está mal? Assim não teríamos descanso, e a Vida não nos daria a alegria que habitualmente nos dá.


O equilíbrio também não é buscar soluções de compromisso, ou politicamente correctas. Poderá ser útil para ganhar algum tempo, mas não resolve as questões de fundo. Sem uma boa conversa, com verdade e desejo de bem, os silêncios comprometidos entre dois amigos magoados não ajudam muito. Entre amigos, entre colegas, com nós próprios, etc, etc.


Daí que estar equilibrado não é fugir, nem agarrar a milagres feitos de propósito para a ocasião. É por os pés no chão. Que maior equilíbrio há do que estar em terra firme? E vou percebendo como é preciso coragem para estar no sítio certo e da maneira certa. Só assim conheço o meu mundo, porque não estou preocupado em agarrar o que aparece, mas tenho um olhar tranquilo para ver tudo o que está a acontecer.


18 março 2009

Influências

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"Diz-me com quem andas, dir-te-ei quem és". É verdade que é normal que nos rodeemos de pessoas com as quais temos mais sintonia e que, de alguma forma, condicionam um certo estilo de estar na vida, de vestir, de frequentar lugares, etc. Mas também existe uma diversidade grande, de ter amigos que não partilham os mesmos pontos de vista, e são muito diferentes de nós. Mas isso não quer dizer que sejam amizades menos profundas, às vezes até é o contrário. A diversidade ajuda-nos a sair dos nossos esquemas.


Porém acredito que é necessário um equlíbrio para saber estar em todas as circunstâncias, sem deixar de ser si próprio. Quando as pessoas com quem andamos dizem mais de nós que nós próprios, é porque não temos muita força. E assim fazemos as coisas como calha, namoramos como se vê nos filmes, trabalhamos porque tem de ser ou passeamos aos mesmos sítios onde vai toda a gente. É pena não estarmos completos no que escolhemos fazer.


É por isso que a diversidade nos deve questionar, mudar paisagens ajuda a descobrir o nosso próprio estilo. E é isso que torna uma pessoa fascinante. Está onde deve estar, mas está como é. Não se vêem capas sociais nem maquilhagem de circunstância, mas a beleza que é a estrutura de tudo.

12 março 2009

O Divórcio

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(sugestão de António)

A questão do divórcio é, sinceramente, um tema que não me deixa muito confortável, por dois motivos principais: o primeiro é que eu próprio, como futuro padre, estou a referir-me a um assunto do qual não tenho experiência pessoal, a não ser através de casos com quem contacto ou de histórias que vou ouvindo. O segundo motivo é que, ao falar deste tema, corre-se o risco de generalizar e não ter a noção de que cada caso é único, e requer uma apreciação particular. Se certos casos de divórcio podem ser caracterizados por alguma "ligeireza", acredito que a esmagadora maioria envolve situações de muito sofrimento e desilusão: um sonho em comum que não está a ser possivel realizar, e as quais respeito profundamente.


Por isso, procurarei fazer uma reflexão sobre o que poderá ser mais essencial, para estar atento e cada um poder tirar também as próprias conclusões.


O casamento, ao menos na nossa cultura ocidental, mesmo para a Igreja, tem um elemento de visibilidade social. É uma instituição social, pois, perante uma sociedade, duas pessoas realizam um compromisso (ou contrato) de viver em comum, criar família, partilhar os bens, etc., e esse compromisso tem os seus direitos e as suas obrigações, que os vários códigos civis ou religiosos prevêm. Há porém, o elemento mais interior desta união, que é o facto de duas pessoas se amarem e desejarem viver a sua vida em comum uma com a outra. Não há lei que possa aferir a qualidade ou a quantidade deste amor, simplesmente se toma como pressuposto, ao menos razoavelmente. Sobretudo agora, que já passou o tempo dos casamentos por conveniência ou desejo dos pais.


Estou a dizer o óbvio se afirmar que o Amor é a base do casamento, mesmo que depois este assuma exteriormente a forma de um acordo entre duas partes, com uma projecção social. E é sobre isto que quereria reflectir.


Quando duas pessoas se amam verdadeiramente, vêem claramente que a sua vida faz sentido se for partilhada em todos os momentos, descobre-se o lugar da própria existência mais central, onde é impossível estar sozinho: onde tu e eu precisamos um do outro, para sermos quem somos e realizados nas nossas maiores aspirações, onde se entrega a vida mutuamente. E esta relação de amor não é fechada, porque todo o amor é fecundo e gera vida. Quando ouço falar da família como a célula da sociedade, penso nisto: como é maravilhoso que os homens e mulheres de amanhã nasçam a partir de um amor incontido, que se comunica em nova Vida. Isto é tão bonito como extremamente exigente, é uma responsabilidade tão grande dar filhos ao mundo...


Fazer um caminho em direcção a esta consciência é o que, a meu ver, decide muito do resultado e do "sucesso" de um casamento. Estou a fazer a minha preparação para ser padre há 12 anos, com pessoas especializadas e preparadas para me ajudarem a ter consciência da minha opção de Vida. Não há nenhum casal no mundo que faça um percurso idêntico de mútuo-conhecimento para poder amadurecer a relação, sonhar com ela, etc. Nem isso seria viável, mas é para fazer cair na conta de como uma opção de casamento requer uma maturidade muito grande e um caminho de exposição da própria verdade, das próprias intenções e, sobretudo da energia de amor que liga duas pessoas, no presente e no futuro.


Uma preparação mal feita e à pressa, não é o único problema, nem creio ser o problema principal. É necessário ter consciência, de inteligência, alma e coração, da profundidade do amor, e como só este é capaz não só de dar Vida e entregá-la, mas também de perdoar, perceber, cuidar, ser fiel, ganhar e perder, sempre na maior alegria. Desejar amar com todas as suas consequências é o grande motor do casamento. Quando duas pessoas casam a ver o que depois dará, algo não está a funcionar... Se bem que podem surgir dificuldades tão grandes que não se podem resolver senão com a separação, é preciso ser consciente de que não é primeira dificuldade que pôe tudo em questão. Como disse, cada caso é um caso....


Quer a legislação civil, quer a legislação do direito da Igreja prevêm casos de divórcio, ou anulação do casamento. Bem sabemos que é mais fácil obter o divórcio civilmente do que na Igreja. O casamento na Igreja, para além do aspecto do consenso e do contrato social, é uma união abençoada por Deus. Não como um elemento mágico, mas como a expressão da divindade do amor, presente na vida de duas pessoas que se unem. No fundo cada um dos esposos diz sim à capacidade de amar até ao limite, sem "ses" ou "mas". Quem casa assim, com-promete a própria Vida com o outro, e o amor total é eterno, dura toda esta vida, até sempre.


A dificuldade em haver divórcio na Igreja deve-se ao facto de querer salvaguardar este acontecimento fundamental. No direito da Igreja são previstos muitos casos que se poderá anular o casamento, por razões muito fortes, que tenham a ver com a verdade, a integridade, e outras situações que possam vir a ser apreciadas, tão variadas quantas as circunstâncias e as pessoas. Mas pela razão de apelar à profundidade humana e espiritual de quem casa, não se pode quebrar um laço tão forte por motivos débeis. No fundo, é preciso ser também responsável das próprias opções e o casamento, a meu ver, não é algo que se possa decidir levemente.


Há tempos, li no último número da revista Brotéria (revista de cultura publicada pelos jesuítas portugueses) um artigo sobre a nova legislação do divórcio em Portugal. Esta facilita o divórcio de uma forma que pode abrir caminhos a grandes injustiças, sobretudo quendo pôe em questão os direitos da parte lesada ou dos filhos. Fiquei muito preocupado e perguntei-me, como na reflexão final do artigo aparece, se a nova lei do divórcio acaba por pôr em crise o casamento como instituição de estabilidade social; e se estas leis acabam, no final, por dar maior relevo ao casamento religioso, por este alimentar mais a coêrencia de vida e de amor e, por isso mesmo, vem mais protegido.



01 março 2009

Amor próprio vs Egoísmo

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(sugestão de Tiago)

É um tema muito sugestivo. Normalmente, penso que o amor-próprio é uma versão do egoísmo, relacionado com o orgulho. Quando nas nossas relações algo nos fere, é o nosso amor-próprio que se revolta com a injustiça ou a falta de respeito. Atacaram a nossa dignidade, fizeram-nos sentir menores. E isso é desconfortável e faz-nos reagir. Tenho sempre a impressão que as motivações que nascem de sensações desagradáveis não são boas, e as acções que pomos em movimento através delas acabam por magoar e romper qualquer coisa.

Pode-se também pensar em amor-próprio como uma versão da auto-estima (um amigo meu disse-me um dia que esta palavra lhe causa arrepios e eu, pensando melhor sobre isso, também concordo com ele). Este amor-próprio nasce do desejo de nos afirmarmos naquilo que somos, de termos uma palavra a dizer, de nos sentirmos úteis. E quando isto não acontece, quando não somos reconhecidos, surgem de novo feridas e reacções desagradáveis.

Creio que pode haver um ponto de equilíbrio entre todas estas sensações. O amor-próprio está ligado a algo natural em nós, uma espécie de instinto de sobrevivência, para não desaparecer no mundo das relações. O grande segredo está no modo em como usamos esta nossa energia, em que somos felizes com aquilo que somos, temos e fazemos. No fundo como gostamos de nós e nos mostramos aos outros, como nos fazemos reconhecer e amar.

O egoísmo não é bom, o centro do mundo sou eu, e isso é uma fonte de tensão e desolação, porque simplemente a Vida e as suas circunstâncias, as minhas relações, não funcionam com interesses de ilhas isoladas, de querer controlar tudo e todos, mas segundo modos de comunicação e partilha, de ganhar e perder. Fico doente, os outros não fazem o que quero, o patrão não reconhece o meu valor, não tenho tempo para o que quero... e tudo isto estraga o meu mundo imaginário. Terei de viver o que sou de outra maneira.

A energia do amor-próprio deveria ser usada num dinamismo de humildade e simplicidade. Ser humilde não é apagar-se, mas é reconhecer a própria bondade e beleza, que é algo fundamental em cada um de nós e que nunca desaparece. E comunicar o que sou com simplicidade, com vontade de ser melhor e estar disponível. Um professor meu usa muitas vezes uma frase de Shakespeare que gosto muito: "Readiness is all". Estar pronto para tudo, para o que acontecer, sabendo que a minha capacidade de fazer o bem em todas as circunstâncias não desaparece.

Isto implica uma coragem gigantesca, que vive em perfeita harmonia com a humildade de saber que não posso dominar tudo, e a simplicidade de aceitar a Vida como oportunidade de me questionar e ver que coisas estou pronto para fazer. Este amor-próprio é extremamente criativo e corajoso, forte, e pode trazer muitos frutos àquilo que vivo com os outros.

05 fevereiro 2009

Dependência

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(sugestão de m)

A liberdade nas relações é daqueles temas que mais mexe comigo. Precisar de alguém, querer muito bem a uma pessoa é algo tão natural nas relações que são importantes na nossa Vida. De certa maneira, é o modo espontâneo de dar aquilo que se recebeu. E assim, preocupamo-nos, cuidamos, perdoamos, conhecemo-nos e admiramo-nos naquilo que somos.


O que está na base de uma relação deste tipo é o amor, nas suas diversas formas. O amor é comunicação e gratuidade, damos o que somos e temos por causa do outro, para o fazer feliz. Contudo, há um mecanismo muito escondido em nós que procura receber algo em troca do que dá. Esse mecanismo existe e é importante que sejamos conscientes dele e da forma como pode agir. Sempre que uma relação começa a ter como referência o eu e não o outro, podem surgir problemas.


Começamos a cobrar, a desconfiar, a querer mais atenção, a fazer jogos de silêncios... Obrigando o outro a ter-me no centro do seu mundo. O critério que me pode fazer pensar sobre a liberdade em determinada relação é o que sinto quando penso nela: se confiança, alegria, estima, ou tensão, medo e angústia. Se as últimas coisas acontecem, é porque não estou livre e estou mais preocupado comigo. E isso não é bom.


É possível dar-se com limites? Depende dos limites que são, cada relação é uma história única. Mas quando faz sentido, o dar-se sem limites tem a cor da confiança absoluta e da abertura para falar sem medo. Se não, podemos começar a fazer violência, que é a outra face do amor, como há dias escrevi numa outra reflexão.


04 fevereiro 2009

Relações humanas

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(sugestão da sarita)

Nas minhas experiências de amizade, tenho descoberto algo que me fascina sempre mais. Cada pessoa é uma paisagem completamente nova. E completamente diferente. Conheço melhor quem sou quando me dou conta das diferenças: que os outros pensam, são e fazem de outra maneira. Aprendo com isso muitas formas novas de estar na Vida.

Há relações humanas que fazem parte da nossa vida, que não pudemos escolher, a nossa família, colegas de escola e de trabalho. Mas nem todas estas relações poderão vir a ser significativas para mim. Há um passo inicial que começa com uma conversa, uma sintonia, uma coincidência. Se algumas relações não as posso escolher, outras tenho a impressão de ter sido escolhido por elas. As relações significativas são aquelas de amizade ou de estar apaixonado, e isso percebe-se quando o meu dia é marcado por uma intenção, de me lembrar de alguém muitas vezes, ou de ter uma pessoa como critério das minhas escolhas, mesmo as mais pequenas. Estas relações acabam por fazer parte de mim, de uma forma que não posso iludir.

É aqui que surgem duas perguntas. Quem és para mim? Quem sou para ti? E a resposta pode ser juntar paisagens tão diferentes e fazer um mundo cheio de novas cores: mar e montanha, deserto e oásis, planície e cidade. Onde há partilha, alegria, crescimento, perdão, compreensão. Onde um não deixa de ser quem é, mas busca continuamente espaço para o outro construir a sua casa.

Mas outra resposta poderia ser uma só paisagem, onde não houvesse diferenças, ou um bosque onde não soprasse o vento, e o pólen não pode fecundar as plantas: Um peixe no oceano, uma árvore num jardim, um quarto numa casa. Onde o outro estivesse num espaço que eu tivesse já determinado, e do qual ele não poderia sair. Ou vice-versa.

A primeira resposta é liberdade, a segunda é dependência. A amizade e o amor perdem a força se são demasiado apertados entre abraços que não deixam brilhar a força e a beleza. E com isso, podemos acabar por perder tudo.



PS: No site essejota, foram já publicados duas reflexões sobre relações humanas, que gostei muito. Podem ver aqui e aqui. =)

10 novembro 2008

Sozinho nunca

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Não seria preciso fazer um inquérito para saber qual é a coisa que todos mais tememos. A solidão é algo que tentamos nem sequer pensar como horizonte dos nossos dias. É demasiado assustador e, felizmente, acaba por não ser sempre uma realidade presente, mas existe como uma espécie de fantasma.


Muitas vezes, a forma de evitar sentimentos é enchermo-nos de cores artificiais e ruídos à nossa volta. Talvez o medo da solidão seja um modo de nos afastarmos de nós próprios e não querer dar atenção ao que somos e fazemos verdadeiramente.


Se acreditássemos mais profundamente que somos capazes de contruir à nossa volta espaços de relações de qualidade, em que não fôssemos máscaras, mas verdade. A nossa verdade é bonita, e essa é a nossa melhor companhia. A partir dela os outros e o mundo encontram um desafio para a entrega. Porque a nossa qualidade é bonita, cheia, nunca sozinha, desde o início.


03 março 2008

O bem que quero

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Uma das atitudes mais positivas é o querer o bem. É mais fácil desejar o bem quando alguma coisa deve melhorar, em nós ou nas nossas relações, o que implica por vezes decisões difíceis e uma dose enorme de paciência.

Há outro bem que se aproxima do óptimo ou do que nós acreditamos ser a perfeição a que somos chamados. Aí encontramo-nos com a instalação e a preguiça. E também é importante o equilíbrio de não querer ser perfeccionista.

Temos uma aceitação profunda de nós mesmos, quando reconhecemos limites mais ou menos superados e acreditamos que temos capacidade de ir além de nós mesmos. Vamos sendo conduzidos num movimento de querer alargar os abraços que damos à Vida, olhando a importância de tudo o que acontece hoje e agora, e fazendo o bem a que somos realisticamente chamados.

Que esta semana seja um bem para os nosso gestos. Boa semana! =)
 

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