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15 fevereiro 2009

Cristianismo e outras religiões

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(sugestão da susana)


A questão da multiculturalidade religiosa e o diálogo da Igreja com as outra religiões é um tema que hoje tem muita força, porque em muitos países o convívio diário com outras culturas religiosas é uma realidade, com as suas riquezas, mas também com os seus desafios. Falando do contexto mais português, onde a religião católica é maioritária e a própria cultura é tradicionalmente ligada a ela, as outras religiões e confissões cristãs, se bem que existem, acabam por não ter uma expressão muito grande e nisso até podemos dizer que vivemos num ambiente bastante tranquilo e respeitoso, comparando com outros países onde isso não sucede.


Antes de mais, talvez seja uma informação desnecessária, mas pode ajudar a esclarecer algumas coisas que talvez não se saibam. Da parte da Igreja, há duas vertentes de diálogo com outras tradições religiosas. Uma é o Ecumenismo, o diálogo entre várias Igrejas cristãs, entre a Igreja católica e as Igrejas protestantes (mais presente nos paises do centro da Europa, ou países anglosaxónicos), a Igreja anglicana (sobretudo em Inglaterra) e as Igrejas ortodoxas (sobretudo na Europa de Leste, Grécia e Médio Oriente). Há outras Igrejas cristãs não católicas, mas apontei as mais numerosas e conhecidas. Todas têm como principais elementos em comum a fé em Jesus Cristo, na sua morte e ressurreição, a Bíblia, o batismo e a celebração da Eucaristia.


A outra vertente de diálogo é o diálogo inter-religioso, com as outras religiões não cristãs: Judaísmo, Islamismo, Hinduismo e Budismo, falando das mais representativas. Estas religiões têm em comum a crença no Divino, quer como Deus, quer como um pricípio de Unificação, etc.


Quando se fala destes temas, imediatamente vêm à memória a história passada de guerras e violência, a inquisição, cruzadas, colonização, excomunhões mútuas... É evidente para nós que continuam a haver infelizmente guerras e violência a vários níveis, motivadas por algumas visões da religião mais extremistas, que acabam por ser o maior contratestemunho daquilo que a religião pode trazer à humanidade que é a paz, fraternidade, ajuda aos desfavorecidos... Também devemos ter em conta que, muitas vezes, em muitas situações de guerra e necessidade, são as organizações religiosas as primeiras a entrar no terreno. Tudo isto para dizer que não é bom nem sensato rotular imediatamente a religião, seja ela qual for, como promotora de violência ou que aliena as pessoas dos problemas concretos da vida. Porque, de facto, não é assim. Se há muitos cristãos, muçulmanos, judeus, budistas ou induistas que fazem violência, e que por isso têm mais publicidade, não quer dizer que haja um número bastante maior de cristãos, muçulmanos, judeus, budistas e induistas que são empenhados nos compromissos com o seu Deus e com os outros, nas circunstâncias em que vivem.


Em 1965 foi o final, na Igreja Católica, de uma reunião de todos os bispos do mundo, que acontece muitas poucas vezes, (21 em 2000 anos de história). Foi o Concílio Vaticano II, onde a visão acerca das diferenças de religião foi radicalmente mudada. Antes poder-se-ia ter a ideia de que quem não é cristão, se não se converte vai para o inferno, ou não se salva. Mas o Concílio afirma o segunte: "Com efeito, aqueles que, ignorando sem culpa o Evangelho de Cristo, e a Sua Igreja, procuram, contudo, a Deus com coração sincero, e se esforçam, sob o influxo da graça, por cumprir a Sua vontade, manifestada pelo ditame da consciência, também eles podem alcançar a salvação eterna. Nem a divina Providência nega os auxílios necessários à salvação àqueles que, sem culpa, não chegaram ainda ao conhecimento explícito de Deus e se esforçam, não sem o auxílio da graça, por levar uma vida recta". Sei que aparecem aqui termos mais difíceis de perceber: graça, vontade de Deus, Providência, salvação eterna". Se for preciso, posso falar depois destes temas e explicar o que significam, se não escrevo hoje um tratado!


O que a Igreja refere em relação aos não crentes na fé cristã, é que o mais importante e que realiza o homem é levar com compromisso uma vida de bem, e que procura o bem dos outros, do mundo e a Deus, com sinceridade de coração. A Igreja não condena um bom muçulmano, ou um bom judeu ou um bom anglicano. Na sua própria religião, cada um deve viver de coração aquilo que lhe é transmitido. As religiões têm em comum, apesar das diferentes linguagens e culturas, o amor a Deus, o respeito e o serviço aos outros, sobretudo os pobres e necessitados, e a construção da paz. Acho muito bonito que o espírito humano tenha sempre associado a relação com Deus com um compromisso com o próximo, na paz e no bem. Não há religiões do egoísmo ou da guerra, mas sim leituras erradas dessas religiões.


Nos últimos anos, tem havido, por isso, um esforço de diálogo entre igrejas cristãs e outras religiões, não para se converterem uns aos outros, mas para partirem de bases comuns, a fim de ajudarem a promover a paz e a justiça e a tornar visível o amor de Deus pela humanidade. Creio que todos se foram dando conta que é impossível o regresso ou a existência de uma única religião, mas que é a partir das diferenças que se pode dar o maior sinal de unidade, rezando juntos e trabalhando juntos pela paz, pelo perdão e pela justiça. Algo se começa a fazer, mas ainda se poderia fazer muito mais.


Existe também um enriquecimento mútuo que vem sendo aprofundado. Dou alguns exemplos: no âmbito cristão, os estudos protestantes sobre a bíbila ajudam muito as outras igrejas a percebê-la e a lê-la. A religião cristã tem uma fortissima parte prática, que nasce do amor ao próximo, e isso também desafia outras sensibilidades religiosas mais voltadas para a interioridade. O budismo e o hinduismo podem ajudar muito o tipo de oração cristã, com métodos de usar o corpo, a respiração e a concentração. As igrejas ortodoxas priveligiam muito o uso dos sentidos nas celebrações (música, perfumes, imagens), transmitindo uma presença do divino mais tocável, e que desafia também o modo algo triste com que, por vezes, os católicos estão na missa. Estes elementos vão já aparecendo, mas ainda se poderia fazer mais.


Há, por fim uma questão, que talvez se tenham posto. Se o essencial é o bem, a paz, a boa consciência e a ajuda aos outros, como é que a Igreja diz ter a religião verdadeira? Não são todas iguais? E o mesmo em relação às outras religiões que se afirmam verdadeiras. É sempre uma questão de entender o que quer dizer a Verdade. A Verdade é que todos os homens são amados por Deus e chamados a amá-Lo. Quando isto acontecer plenamente, acontece o chamado Reino de Deus, que se está a construir, mas não está completo. A Igreja é o sinal que expressa, de forma humana - e por isso também contraditória, como todos nós - esta união que há-de acontecer. Não há coincidência entre Reino de Deus e Igreja, mas a Igreja é e deveria ser cada vez mais o referente desta Verdade que está entre nós.


Fui muito longo, mas era difícil resumir mais, peço desculpa e agradeço a paciência =) Se algo não for claro, estou disposto a esclarecer! Boa semana!



 

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