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08 outubro 2009

Mudar o coração

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Esta noite passei por uma zona mais fora do centro da cidade, por detrás da estação principal dos comboios. Não sabia que ali se encontrava a cantina da Caritas e viam-se muitas pessoas por lá. O que mais me impressionou foi a quantidade de gente a dormir, na rua, por todos os lados. É uma realidade que o centro histórico não mostra.

E dei agora por mim a pensar na impossibilidade de fazer algo, de me perguntar o que fazer para mudar estas situações, para além de ajudas pontuais. É sempre pouco. Percebo que vivemos num mundo com uma injustiça estrutural. O que posso fazer?

Na nossa vida podemos ser continuamente desafiados a construir justiça à nossa volta, vivendo relações de verdade, sem explorar o outro, sem estar acima de ninguém, no fundo, estando mais disposto a acolher e servir do que a dominar. Não se mudam estruturas sem antes mudar o próprio coração. Ao sermos mais justos, então estamos a fazer algo, a ser exemplo, a mostrar que há alternativas. Uma gota no oceano, mas que é a nossa parte mais autêntica.

25 fevereiro 2009

Porquê converter-se?

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(sugestão de Nélson Faria)


A sugestão dizia mais respeito aos motivos porque uma pessoa se poderia converter ao cristianismo. Hoje começa a Quaresma, e um dos termos chave deste tempo é precisamente a conversão. Creio que não será errado falar disso, porque mesmo um cristão precisa de se converter; ser cristão não é uma espécie de carimbo para mostrar no passaporte, é muito mais que isso. Apresento o que tenho visto serem, para mim, os principais chamamentos à conversão e como estes são os motivos principais para ser cristão.


Conversão a Deus - A história do pensamento humano sempre se debateu com as questões de provar a existência de Deus. Eu próprio tenho dificuldade em racionalizar a fé, com argumentos que, mais tarde ou mais cedo, se é constrangido a dizer: "até aqui podes pensar, agora ou acreditas ou não acreditas". Não é isso. Converter-se a Deus é admitir que o Amor tem uma palavra definitiva em mim e na minha história. Que não sou eu que domino o amor, mas sou escolhido por Ele. Que o máximo das aspirações humanas é amar e ser amado, a impossibilidade de viver sozinho. E como esta força é tão potente que tem de estar além de mim, e que tem de ser Alguém, com um Nome e um Rosto. E que no cristianismo esse Alguém é uma pessoa, Jesus, que mostra o modo de funcionar de Deus e acho-o fascinante e irresistível.


Conversão de mim mesmo - A nossa raiz situa-se no facto de estarmos vivos. É dinamismo, criatividade, altos e baixos, sonhos e desilusões. Temos em nós uma consciência que o amor é melhor que o egoísmo, que o bem é superior ao mal. Mesmo que a Vida nos mostre o contrário. Mas a Vida vale pelo que se acredita e como me posiciono de frente a ela, em todas as suas dimensões. O cristianimo é exigente, porque me mostra um caminho de amor autêntico, que me faz rever a qualidade do meu amor, o compromisso com o bem, o querer superar-me cada dia em bondade e alegria. Acho que muitas pessoas não se atrevem a ser cristãs porque têm medo de amar completamente, com liberdade, responsabilidade, compreensão. E os cristãos não se atrevem, pelos mesmos motivos, a serem-no completamente.


Conversão aos outros e ao mundo - Sou fascinado pelos olhares de grandes horizontes. Quando o meu mundo são 5 amigos especiais, uma casa, um carro e um trabalho de sonho, tenho um mundo minúsculo. Fecho-me em casa com as coisas que gosto e não vejo o pôr do sol. Um olhar grande é capaz de ver as coisas que tem, de modo relativo, a não ficar preso a elas, mas sabendo amá-las do modo certo. Normalmente confundimos liberdade com desprezo. Mas não se identificam, porque quando amo alguém ou qualquer coisa, amo intensamente no espaço e no tempo que tenho para isso, de todo o coração. E não deixo de amar intensamente por partir para outras paisagens, mas sou chamado a um compromisso novo, a acrescentar o meu mundo.


Conversão à Igreja - Ser cristão não se vive sem uma comunidade. Por ser uma religião em que o amor ao próximo é tão importante como o amor a Deus, a Igreja é parte essencial do cristianismo. E tantas vezes sinto incompatibilidades e incoerências no corpo da Igreja, exactamente como as sinto em relação a mim mesmo. É uma instituição com tantas leis, tradições, coisas pesadas... mas da qual me sinto parte. Nunca me senti impedido, por parte da Igreja, de ser livre no bem e no amor. Sempre me considerei previligiado por exprimir a minha autenticidade no ambiente em que estou, e como a Igreja me ensinou a fazê-lo. E a minha autenticidade é também a minha inteligência, que me diz de não conseguir estar de acordo com tudo, mas não sou capaz de falar desde fora, como se a Igreja fosse qualquer coisa diferente de mim. Devo-lhe demasiado para a criticar desta maneira, e posso criticar porque estou comprometido com ela. Se a base for um desejo de bem, e o conseguir realizá-lo, é impossível não haver diálogo.


São estes os motivos que me fizeram e fazem ser cristão. Sinto-me maior por isso, e com consciência que posso fazer sempre mais. A principal exigência é o compromisso de cada dia, autêntico e responsável, mas não é uma luta, é sobretudo uma experiência de compreensão, perdão e confiança, nos momentos em que não sou eu próprio, mas aos olhos de Deus, sou sempre o mesmo, único no mundo.


Boa Quaresma!

13 março 2007

O que falta

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Estes dias tenho estado em contacto com uma sensação. Este tempo de Quaresma pode ser mesmo um desafio enorme, se deixarmos que as perguntas surjam com naturalidade, sem ter medo delas, mas vê-las como caminhos de certeza, rumo a nós próprios.

Porque é tão fácil termos medo das coisas melhores que temos...

A Conversão está ligada a uma verdade e a um desejo. Tenho-a feito para mim mesmo assim: Que me falta para ser perfeito? É uma mesma verdade, a daquilo que me falta e a da possibilidade de a ter agora. É um grande desejo que se joga numa opção por coisas concretas.

Para ser perfeito, falta-me um coração mais simples, mais encantado. E isto é muito consolador. Se tenho um bom desejo de simplicidade e encanto com a Vida, é porque tenho um coração capaz disso. Isso é um dom, só me falta acertar com a minha possibilidade, já dada, de perfeição.

28 fevereiro 2007

Conversão

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Há palavras-chave na Quaresma que tenho vindo a tentar perceber o seu significado mais profundo. Nos últimos tempos tem-me chamado a atenção a palavra Conversão.

Parece sempre algo difícil e doloroso, bater no peito e reconhecer que há coisas em mim que não estão como deviam estar.

Entre a verdade exigente e o dinamismo do Amor, sou chamado a preferir uma imagem Amorosa e Verdadeira de mim mesmo.

Converter-me é confrontar-me, olhar-me ao espelho e ver uma imagem não desfigurada, mas desejosa de ser conseguida, e que, de algum modo, já é conseguida porque sonhada. E se é sonhada, também é possível. O sonho leva a não ficar parado, e é a busca desta imagem que não me faz querer ficar limitado no tempo e no espaço.

Con-verter... derramar-me num projecto meu e de Deus? Fazer uma versão autêntica de mim mesmo? Acredito que as duas coisas vão unidas. O que sou e o que quero ser... o que deixei de amar é precisamente o que sou chamado a fazer, de coração mais presente que nunca.
 

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