Mostrar mensagens com a etiqueta sofrimento. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta sofrimento. Mostrar todas as mensagens

19 janeiro 2010

Partilha

10comentários
O tempo vai passando, e todos os dias vou vendo com atenção as notícias sobre a tragédia no Haiti. Cada vez me impressiono mais e vejo que sou incapaz de dizer algo ou reagir. Há acontecimentos que apenas nos pedem silêncio e respeito, são demasiado grandes. Um silêncio que está por detrás e antes da oração e das acções de ajuda. Não é tempo de responder a perguntas e a porquês, que nem sequer se podem fazer. Porém, deixo três impressões, em estilo de partilha:

Que me custa estar longe de tudo isto, confortável, a fazer coisas diminutas, como encaminhar mails ou colaborar com alguma ajuda económica. É estranho que isto me toque como se fossem pessoas que conheço desde sempre. Ou talvez não seja tão estranho assim...

Que me comovo com o movimento de ajuda, a nível mundial, que se está a fazer. Tudo isto não nasce de uma solidariedade superficial, é algo que vem de mais profundo, uma urgência em não deixar o outro desamparado. O ser humano é capaz de superar-se a si mesmo, desaparecem as fronteiras e os obstáculos...

Que me surpreendo com a facilidade que tenho em me queixar de coisas pequenas. Como os momentos de sofrimento têm a sua importância e o seu peso, mas vou caindo na conta de que há queixas que só representam um mundo demasiado pequeno. Falta tanto agradecimento e simplicidade...

22 outubro 2009

Quando a consciência se ilumina

1 comentários
Sugestão de pica

"Quando a luz se apaga é que a consciência se ilumina.
As almas são como os morcegos: vêem melhor às escuras."  
Guerra Junqueiro



O ponto de partida é esta frase. As imagens da luz e da escuridão fazem uma enorme ressonância em nós, vão além daquilo que podemos reflectir. É uma impressão instintiva, percebemos a luz em nós e nos outros, sem saber bem explicar porquê. Fascinam-nos as pessoas de olhar iluminado, e queremos a toda a força conhecer o seu segredo. Um olhar escuro faz-nos desviar o olhar, sem sabermos o que podemos fazer.

Quando nos sentimos iluminados, tudo nos corre bem, temos imensas ideias de coisas bonitas para afaer, crescemos na confiança e na ousadia. O mundo parece pequeno para os nossos desejos. Porém, quando a escuridão é o nosso ambiente, ficamos perdidos, desorientados, o mundo fecha-se até ficar do tamanho do nosso problema, um pequeno canto numa cave, sem grande capacidade para sair dali.

O que quer dizer que a consciência se ilumina quando a luz se apaga? Esta pergunta é um desafio e um confronto com o modo como lidamos com os nossos tempos e situações mais obscuras. Creio não estar errado, se propuser que são exactamente os momentos de escuridão onde encontramos a nossa verdade. Um dos nossos maiores medos é enfrentar a dúvida, a des-esperança e o facto de não nos sentirmos completos.

Querer viver sempre na luz é bom, na medida em que somos continuamente desafiados a alargar os nossos horizontes e a não ficarmos fechados em nós. Mas pode ser um risco, se formos ingénuos ao ponto de querer a toda a força ser iluminados sem aceitar as nossas sombras, e vivemos tantas vezes numa aparência, quando essa luz não passa de iluminação artificial, lâmpadas coloridas e neons publicitários que, no fim de contas, dizem pouco de nós. Fazemos parte do sistema, que evita todo o contacto com a realidade paradoxal da vida.

Nas alturas em que a escuridão é o nosso mundo, temos a oportunidade de partir do que somos: dúvida, incompreensão, fragilidade. A um certo momento da nossa Vida, o confronto com a escuridão é necessário e salutar, poder dizer com toda a simplicidade: "Também sou isto, mas isto não me impede de viver, antes pelo contrário".

A nossa consciência ilumina-se a partir de dentro, e tornamo-nos mais transparentes, olhamos para nós, ao mesmo tempo que uma luz de aceitação vai tornando os limites mais claros, até que percebamos que a fragilidade é a nosso fonte mais autêntica de força. Ser conscientes, não pelo pensamento, mas na intuição, no fundo, amarmos o nosso presente, seja como este for.



10 abril 2009

Mistério da paixão

2comentários


É inevitável que esta semana santa, aqui em Itália, esteja marcada pela tragédia que aconteceu no dia 6, em Aquila, Abruzzo. Tenho seguido muito o que vai acontecendo, não tanto por ter sentido o tremor de terra aqui em Roma, que não teve consequências para além do susto normal destas situações, mas por saber que a poucos quilómetros daqui vivem-se momentos de dor e sofrimento muito grandes.


O mistério da morte de Jesus não é, de modo nenhum, um acontecimento longínquo, que celebramos de forma mais ou menos tradicional. É algo que está muito presente em cada dia. Simplesmente, não há explicações para dar nestas alturas. Vive-se um silêncio de incompreensão, de tristeza, de não conseguir perceber o porquê. O que tenho rezado, para além de rezar pelas vítimas deste terremoto, é o modo como Jesus se torna presente.


Acredito num Deus que assumiu a nossa condição humana. Que levou até ao limite a nossa existência. É muito óbvio ver Jesus nos rostos de quem perdeu a família, a casa e todos os seus bens. Jesus morreu abandonado pelos seus amigos, foi despojado da sua dignidade, sofreu um julgamento injusto e uma morte atroz. Porque Ele quis que fosse assim. Para que percebesse e experimentasse na pele os meus pequeninos dramas e os dramas imensos de quem sofre, como estas pessoas de Aquila.


É isto que me fascina mais na minha fé. Um Deus totalmente próximo, que me percebe e acompanha em tudo o que me possa acontecer. Nisto há uma misteriosa fonte de esperança e Vida. Vendo as centenas de voluntários civis, não so os bombeiros ou a protecção civil, que trabalham e escavam, até com as próprias mãos, na tentativa desesperada de ainda encontrar alguém vivo... não é este um sinal de que a Vida e o Amor vence a morte? De como somos capazes de coisas grandiosas e que nos poêm tão fora de nós?

06 abril 2007

Sentido

3comentários

Procurar e encontrar um sentido para a cruz é difícil. Sinto-me movido a não dizer nada, e ficar numa contemplação simples, sem palavras. No fundo é o que todos experimentamos quando vivemos os momentos difíceis.

Fico apenas com o sentimento de saber com que Deus posso contar. Não é distante, porque sabe o que é sofrer, na alma e no corpo, os limites a que estamos sujeitos.

A sabedoria do coração vive sozinha quando não tem respostas. Às vezes nem é capaz de pôr questões. Uma experiência de deserto. É ao mesmo tempo tão árido e tão completo. Quando não há mais nada, é porque há todo o espaço para acontecer tudo. O mais incrível, é que o deserto das emoções e dos sentidos é o que possibilita o conhecimento mais puro.

O conhecimento que só a alma é capaz de ter.

20 março 2007

Orgulho?

2comentários

Hoje preparei a Oração Comunitária que fazemos aqui em casa antes de almoço. Escolhi, quase por acaso, um texto da Carta aos Romanos (5, 1-5).

E falou-me de tantas coisas, enquanto lia e pensava nisto. Quem acredita, orgulha-se nos seus sofrimentos, porque o sofrimento produz a constância, a constância produz a virtude, e a virtude produz a esperança.

É o círculo completamente oposto. Porque tantas vezes o sofrimento produz a fuga, a fuga produz uma vida artificial e uma vida artificial produz o desencanto com a Vida.

Sinto em mim estes dois caminhos, consoante o que mais me convém, e o que é mais fácil, segundo o tipo de sofrimento. Às vezes encara-se e outras foge-se. O resultado de um ou outro caminho, a médio ou longo prazo, é sempre este, a esperança ou o desencanto.

Não posso viver sem momentos de sofrimento. Sinto-me capaz de ter este "orgulho" neles?

06 dezembro 2006

Estupefacto

3comentários

Alguns dias é mais complicado lidar com os limites. Primeiro os meus, por aquilo que, por mais que pense e me esforce, não consigo atingir na plenitude que desejo. Caminho para lá, e só o desejo de olhar para a meta me leva como essa mão invísivel que sabe melhor que eu mesmo para que coisas sou criado.

Há depois estes limites da rua. Aqui por Roma é tão comum ver imagens de crianças assim. E não se pode fazer muito, nem sequer entendo o seu mundo, o que está por detrás das histórias familiares. E depois, mais fundo, o que está por detrás da História da Humanidade, perfeita e criada para ser plena no Amor. Mas à nossa volta tudo parece ser tão impossível...

Estes olhos que contemplo, como tantos outros, de todos os dias, são verdadeiramente os olhos de Deus que vem até nós, e que celebramos neste tempo de Advento. Mas parece tão fácil este discurso... Porque é que preparo uma Vi(n)da que salvará tudo, quando, depois do Natal, não vou deixar de ser confrontado com os mesmos olhares?

Acredito que seja um convite à minha não-tentativa-de-tentar-perceber. À minha humildade. No fundo, existe o mistério de Deus, nascido, morto e ressuscitado por mim. Apesar de tudo. Estes olhares são o mistério mais profundo de Deus-no-mundo. Apesar de tudo.
 

Cidade Eterna © 2010

Blogger Templates by Splashy Templates