25 fevereiro 2009

Porquê converter-se?


(sugestão de Nélson Faria)


A sugestão dizia mais respeito aos motivos porque uma pessoa se poderia converter ao cristianismo. Hoje começa a Quaresma, e um dos termos chave deste tempo é precisamente a conversão. Creio que não será errado falar disso, porque mesmo um cristão precisa de se converter; ser cristão não é uma espécie de carimbo para mostrar no passaporte, é muito mais que isso. Apresento o que tenho visto serem, para mim, os principais chamamentos à conversão e como estes são os motivos principais para ser cristão.


Conversão a Deus - A história do pensamento humano sempre se debateu com as questões de provar a existência de Deus. Eu próprio tenho dificuldade em racionalizar a fé, com argumentos que, mais tarde ou mais cedo, se é constrangido a dizer: "até aqui podes pensar, agora ou acreditas ou não acreditas". Não é isso. Converter-se a Deus é admitir que o Amor tem uma palavra definitiva em mim e na minha história. Que não sou eu que domino o amor, mas sou escolhido por Ele. Que o máximo das aspirações humanas é amar e ser amado, a impossibilidade de viver sozinho. E como esta força é tão potente que tem de estar além de mim, e que tem de ser Alguém, com um Nome e um Rosto. E que no cristianismo esse Alguém é uma pessoa, Jesus, que mostra o modo de funcionar de Deus e acho-o fascinante e irresistível.


Conversão de mim mesmo - A nossa raiz situa-se no facto de estarmos vivos. É dinamismo, criatividade, altos e baixos, sonhos e desilusões. Temos em nós uma consciência que o amor é melhor que o egoísmo, que o bem é superior ao mal. Mesmo que a Vida nos mostre o contrário. Mas a Vida vale pelo que se acredita e como me posiciono de frente a ela, em todas as suas dimensões. O cristianimo é exigente, porque me mostra um caminho de amor autêntico, que me faz rever a qualidade do meu amor, o compromisso com o bem, o querer superar-me cada dia em bondade e alegria. Acho que muitas pessoas não se atrevem a ser cristãs porque têm medo de amar completamente, com liberdade, responsabilidade, compreensão. E os cristãos não se atrevem, pelos mesmos motivos, a serem-no completamente.


Conversão aos outros e ao mundo - Sou fascinado pelos olhares de grandes horizontes. Quando o meu mundo são 5 amigos especiais, uma casa, um carro e um trabalho de sonho, tenho um mundo minúsculo. Fecho-me em casa com as coisas que gosto e não vejo o pôr do sol. Um olhar grande é capaz de ver as coisas que tem, de modo relativo, a não ficar preso a elas, mas sabendo amá-las do modo certo. Normalmente confundimos liberdade com desprezo. Mas não se identificam, porque quando amo alguém ou qualquer coisa, amo intensamente no espaço e no tempo que tenho para isso, de todo o coração. E não deixo de amar intensamente por partir para outras paisagens, mas sou chamado a um compromisso novo, a acrescentar o meu mundo.


Conversão à Igreja - Ser cristão não se vive sem uma comunidade. Por ser uma religião em que o amor ao próximo é tão importante como o amor a Deus, a Igreja é parte essencial do cristianismo. E tantas vezes sinto incompatibilidades e incoerências no corpo da Igreja, exactamente como as sinto em relação a mim mesmo. É uma instituição com tantas leis, tradições, coisas pesadas... mas da qual me sinto parte. Nunca me senti impedido, por parte da Igreja, de ser livre no bem e no amor. Sempre me considerei previligiado por exprimir a minha autenticidade no ambiente em que estou, e como a Igreja me ensinou a fazê-lo. E a minha autenticidade é também a minha inteligência, que me diz de não conseguir estar de acordo com tudo, mas não sou capaz de falar desde fora, como se a Igreja fosse qualquer coisa diferente de mim. Devo-lhe demasiado para a criticar desta maneira, e posso criticar porque estou comprometido com ela. Se a base for um desejo de bem, e o conseguir realizá-lo, é impossível não haver diálogo.


São estes os motivos que me fizeram e fazem ser cristão. Sinto-me maior por isso, e com consciência que posso fazer sempre mais. A principal exigência é o compromisso de cada dia, autêntico e responsável, mas não é uma luta, é sobretudo uma experiência de compreensão, perdão e confiança, nos momentos em que não sou eu próprio, mas aos olhos de Deus, sou sempre o mesmo, único no mundo.


Boa Quaresma!

5 comentários:

Rosa disse...

Olá António
Esta é uma boa "reflexão" e tem hoje todo o sentido.
Cheguei agora mesmo da Celebração das cinzas, onde "pelo menos uma vez no ano" somos convidados a reflectir sobre a nossa vida, a reconhecer a nossa pequenez e fragilidade.
A reflectir o quanto é grande o amor misericordioso de Deus.

São agora quarenta dias em que, se quisermos, se deixarmos, a conversão... pode "deve" acontecer.

António, obrigado pelo post.

Abraços.
Santa caminhada Quaresmal.

Nélson Ramires Faria disse...

Óptima forma de enquadrar o tema.

Uma grande ajuda para a Quaresma.

Ser cristão não é uma espécie de carimbo para mostrar no passaporte, é muito mais que isso.

Vou ler esta todos os dias, pois às vezes teimo em não pensar suficientemente "nisto" de ser cristão, como se a decisão, estando já tomada, não merecesse mais atenção.

Obrigado.

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