07 fevereiro 2009

Eutanásia e cristianismo


(sugestão de Nelson Faria)


Não é muito hábito deste blog fazer apresentações mais "teóricas" de certos temas, mas sim proporcionar algumas reflexões sobre a Vida e o dia-a-dia, de um modo mais pessoal. Porém, aceito o desafio de escrever sobre este tema, até porque estes dias, aqui em Itália, tem sido a notícia do dia. É também invulgarmente longo, mas não queria deixar coisas importantes de fora.

A Congregação para a Doutrina da Fé, na declaração sobre a Eutanásia, apresenta a seguinte definição: "uma acção ou omissão que, por sua natureza ou nas suas intenções, provoca a morte a fim de eliminar toda a dor". Por sua natureza, quer dizer, uma acção ou omissão que provoque directamente e imediatamente a morte; e essa acção ou omissão é intencional , isto é, alguém quer provocar directamente a morte, a si mesmo ou a outro. A eutanásia é, por isso, eticamente inaceitável, pois viola a dignidade da vida humana e a indisponibilidade da pessoa. Quer dizer, ninguém, nem sequer o próprio, tem o direito de decidir quando a sua vida tem de chegar ao fim.

Como há tempos também reflectia: nós temos uma vida, mas não somos a nossa vida, esta supera-nos infinitamente, pertencemos a ela, mais do que ela nos pertence. Tudo isto é fácil de falar, mas na realidade, as situações em que se põe a questão de acabar com o sofrimento, acabando com a vida, são terrivelmente marcadas pela angústia e desespero, do próprio e dos familiares, o qual se deve respeitar acima de tudo, muitas vezes no silêncio e na incapacidade de fazer ou dizer algo. A morte é um momento que nos põe enormes questões sobre a vida e o seu sentido, e não conseguimos ficar indiferentes a isso.

A eutanásia decorre também num ambiente em que acabar com a vida parece ser a única solução para um sofrimento atroz e prolongado, que se deve eliminar, mesmo que seja eliminando a pessoa. Existe aqui uma capa de "bem", mas que no fundo esconde algo que não se pode iludir: mesmo no sofrimento mais incompreensível e inaceitável, é uma Vida que está em questão, a qual não pode terminar de forma artificial e provocada. O magistério da Igreja, porém, considera lícito que se possa administrar medicação para aliviar o sofrimento, mesmo que isso implique o encurtamento da vida. Do mesmo modo, deve-se acompanhar o doente de uma forma humana e integral, em todas as suas necessidades: são os chamados cuidados paliativos.




O exemplo que estes dias ocupa as páginas dos jornais é o caso de Eluana Englaro, que desde 1992, está em coma e à qual, ontem de manhã, por ordem judicial que acolheu o pedido do pai de Eluana, se começou a reduzir a alimentação e hidratação, que conduzirá à sua morte por inanimação. A justificação é que é uma situação irreversível, e que mantê-la seria cair no outro extremo da eutanásia, que é a distanásia, ou seja, manter a vida a qualquer custo.


O magistério da Igreja condena a distanásia. E afirma em relação a isso que é lícito e também um dever moral reconhecer que a vida chega ao seu fim e que deixar morrer não equivale a provocar a morte. A mesma Congregação da Doutrina da Fé refere-se assim à não aplicação da distanásia: "é permitido interromper a aplicação dos meios de que dispõe a medicina avançada quando os resultados não correspondem às esperanças neles depositadas" e "na eminência de uma morte inevitável, apesar dos meios usados, é lícito tomar a decisão de renunciar a tratamentos que dariam somente um prolongamento precário e penoso da vida, sem contudo interromper os cuidados normais devidos ao doente em casos semelhantes".


É precisamente aqui que o caso de Eluana é inaceitável, porque lhe estão a ser negados os cuidados normais, a alimentação e a hidratação, que a fará morrer de fome e sede. Isso choca-me e não devia acontecer assim. Poder-se-ia interromper o tratamento, como situação irreversível que é, mas dar de comer e beber, mesmo que de modo forçado, é algo básico que não se pode tirar a um ser humano.


PS: Só algumas observações laterais a este caso, que fui reflectindo. É muito triste ver como uma situação de sofrimento de um pai que pede ao tribunal para acabar com a vida da filha, já que a lei não o permitia, está a ser explorada indecentemente a nível político. Como as máscaras de bem e de defesa da Vida escondem tantos interesses mesqunhos de popularidade.
Não me sinto no direito de julgar o pai de Eluana por ter pedido isto, são 17 anos de uma situação terrível, de ver a filha sem possibilidades de ter uma vida normal e não suportar isso, mesmo que não concorde com a sua decisão.
Outra coisa que me faz confusão é a facilidade com que o presidente do Conselho Pontifício para a Pastoral da Saúde, classifica de "assassínio abominável" o que está a acontecer, mesmo referindo-se de forma muito humana ao contexto de dor que envolve esta situação. Concordo que matar alguém à fome e à sede é abominável, mas é muito pesado o título de assassino para um pai que lida há tantos anos com esta situação, preferia outro tipo de linguagem.
Por último, há uma questão de fundo que não aparece muito nestes debates, nem sequer no pronunciamento oficial da Igreja: a qualidade de vida. O que se entende por isso no contexto do fim da vida? Como reflectir de modo mais abrangente, teologicamente, antropologicamente, cientificamente, sobre esta questão? Creio que aqui se devia reflectir mais. Ao menos, vou procurar fazê-lo.


9 comentários:

Antonio Valerio, sj disse...

Em toda esta questão, faço uma oração muito especial pela Eluana e por todos os que vivem situações de sofrimento no fim da vida, e pelos familiares, amigos e aqueles que os acompanham. Que haja sempre capacidade de acreditar e aceitar o que a Vida é, mesmo nas dificuldades.

Zé Maria Brito,sj disse...

Meu caro António:
a nota sobre a linguagem que usamos é mesmo importante... obrigado!

Nélson Ramires Faria disse...

Caro António,

Muito obrigado por ter aceite o meu pedido; a dúvida que transmite no primeiro parágrafo da minha "sugestão" de tema também me acompanha.

Obrigado por toda a reflexão, coroada por um muito oportuno e sensato "post scriptum".

Grande abraço!

Nélson Ramires Faria disse...

Errata: a dúvida quanto ao tema também me acompanhava ;)

Fiquei muito feliz por focar o caso de Eluana: é com ela e com a sua família que estão as minhas preces, e foi em oração que o tema se apresentou como uma dúvida que sozinho não era capaz de transpôr.

Não estava familiarizado com o conceito de distanásia, o que traz muita luz para a minha opinião sobre casos terminais.

Mais uma vez, obrigado.

Carolina disse...

Mais uma vez, surpreendes. :) A reflexão que propusseste me fez repensar nos meus conceitos. Na verdade, sempre fui completamente contra a eutnásia, assim como ao aborto. Acho que ninguém, além d´Aquele que nos deu a vida, pode acabar com a vida, simplesmente, para deixar de sofrer. Mas também é verdade que muitas vezes o sofrimento entorpece, e muitas vezes não somos capazes de ver o que vai além dessa (e de outras) experiencias de dor. Também vou rezar pela Eluana, e por todos que se encontram nesta situação.

Fica com Deus. Um beijinho mesmo grande. Bom domingo e bom começo de semana.

Anónimo disse...

Obrigada por escreveres sobre este tema.

Um chamada de atenção para a frase "reconhecer que a vida chega ao seu fim e que deixar morrer não equivale a provocar a morte".

Sinto que é mesmo isto!

Um beijinho*

Fi

susana disse...

adorei toda esta tua refelxão. Tinha passado de manhã por um blog em que falava desta situação e apesar de não ser contra a eutanásia - não é o mesmo que ser a favor - fiquei a pensar nisto durante o dia. De facto acho de uma violência atroz que lhes estejam a ser negados cuidados essenciais. Só ela , corpo, mente e espirito deveriam decidir quando partir. Tudo bem que parem com os tratamentos mas os cuidados básicos... é tão violento que me deixa triste. Vou reflectir ainda mais sobre isso... há um meio termo para tudo... e arriscando ser absolutista parece-me que a virtude vem sempre do equilibrio. Neste caso da decisão. Também me pergunto quais são os apoios que têm indo a ser dados a este pai e a esta familia. Os cuidados paliativos deviam ser estendidos aos familiares e amigos mais próximos... é uma situação de sofrimento atroz...
boa noite e obrigada por estas palavras.
su

Antonio Valerio, sj disse...

Olá! Agradeço mais uma vez a sugestão Nelson, e não se preocupe com o facto de não ser algo comum, um blog é tudo menos estático! =)

Fico muito contente que este tema tenha ajudado a dar-se conta destas situações, que é mesmo difícil avaliar e saber o que pensar. Ao menos alguns critérios como ponto de partida e esclarecimento, sabendo que, como dizes, Carolina, na altura é tudo muito difícil de avaliar...

Su, também me pergunto o mesmo... e acredito que à familia da Eluana também lhe esteja a ser dada atenção e apoio. O doente tantas vezes já não é consciente do que se passa, mas a família leva consigo um peso enorme que é um dever acompanhar e aliviar. beijinho*

erute disse...

Desconhecia o termo distanásia… e na verdade não tenho acompanhado com grande atenção o assunto nos Media, de tal forma que não me tinha apercebido que a solução do caso de Eluana Englaro tinha sido a de deixarem de alimentarem e de darem água.

A água não se nega a ninguém… não consigo perceber como é que é permito este tipo de morte, ainda se deve sofrer mais.

Concordo em pleno que nestas situações os cuidados paliativos, a nível psicológicos, deveriam ser direccionadas aos familiares e amigos, será que isso acontece?



“Por último, há uma questão de fundo que não aparece muito nestes debates, nem sequer no pronunciamento oficial da Igreja: a qualidade de vida. O que se entende por isso no contexto do fim da vida? Como reflectir de modo mais abrangente, teologicamente, antropologicamente, cientificamente, sobre esta questão? Creio que aqui se devia reflectir mais.”



Acho que é um tema que ainda necessita de muita reflexão.

E muitas são as vezes que penso nisso… até porque, tal como são Paulo diz: “Para mim morrer é lucro.”

 

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