09 fevereiro 2009

Interno e Externo


(sugestão de Cláudia Pinto)


Temos uma vida agitadíssima, cheia de compromissos com a família, os amigos, o trabalho. E pensamos que não há tempo para pensar nas coisas, saboreá-las e rezá-las. Ficamos à espera de dias mais tranquilos, das férias, ou do tempo oportuno em que finalmente arrumo a casa por dentro. Quando chega o momento de parar, é tanta a aceleração interior e os problemas são tão vivos no pensamento, e o corpo não consegue estar quieto. Não foi o tempo que afinal tinha desejado, descansei, mas o meu interior ficou igual.


Creio que muitas vezes temos tendência a pensar que uma coisa é a vida do dia-a-dia e os seus acontecimentos, e outra é a minha vida interior e as suas necessidades incompletas. Todos dizemos que o tempo do dualismo alma-corpo já é passado, mas continuamos a viver isto como pressuposto e a criar uma divisão em nós que não devia existir. Uma forma nova de falar de alma-corpo seria interno e externo. Mas com uma diferença fundamental. O interno e o externo não são duas dimensões separadas com as quais tenho que combater para dar espaço uma à outra, mas são eu próprio, completo. O interno é minha memória, inteligência, sensibilidade, emoção, vontade e liberdade.O externo é a minha pele, que faz parte de mim e me acompanha para onde quer que vá. Na pele estabelece-se o contacto com o mundo, as carícias e os golpes, o frio e o calor, a água e o sangue. Todo eu sou interno e externo, que se comunica, tal como a pele precisa do vasos e dos nervos para comunicar com o corpo e ter a sua função de toque e defesa.


A vida e as suas ocupações tocam-me do exterior e fazem parte de mim. Sou o que me acontece, tal como sou aquilo que sinto e penso, exactamente da mesma forma. Por isso, a vida acontece quando eu estou presente nela e levo à vida aquilo que tenho em mim. Seria preciso amar tudo, como me amo a mim próprio.


Se cada dia for capaz de ter um tempo para estar atento à vida tocada na pele, dar-me-ia conta de que não posso fazer outra coisa que agradecer por ter chegado ao fim mais completo, de pedir perdão por não ter amado tudo o que acontece e, logo, tudo o que sou, de querer melhorar já amanhã o que hoje não foi meu. Tocar a minha pele, agir internamente, partir completo para um novo dia. Três passos, alguns minutos, uma vida mais autêntica.

2 comentários:

Carolina disse...

"Uma vida mais autêntica!"
De facto, é exactamente isso. Amar tudo o que acontece, amar tudo o que sou e querer melhorar sempre. Essa é a verdadeira autêncidade da vida e realmente deveríamos nos lembrar disso no meio das tribulações e do cansaço.
Mais uma vez, obrigada! :) Um dia cheio de graça para ti. Beijinhos.

Maria Papoila disse...

Magnifico em todos os sentidos.
Os meus pensamentos reencontraram-se por aqui, como tantas vezes.

Um aplauso e uma vénia para ti Antonio,

Papoila

 

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