06 março 2009

O sentido da dor


(sugestão de Helena)

Lembro-me de ter lido, já há vários anos, um livro de François Varillon, onde ele falava deste tema. O episódio passava-se entre ele e uma jovem que estava já em fase terminal de cancro e que lhe dizia: "Não percebo e não consigo aceitar". O padre respondeu: "Eu também não percebo e não consigo aceitar". Foi uma revelação para mim, porque diante de questões tão difíceis, o melhor é estar calado e não fazer discursos fáceis que acabam quase sempre, na minha opinião, por ser um insulto a quem sofre, como se alguém falasse de fora e desse uma solução irreal ao sofrimento.


A pergunta é se a dor é necessária para significar a Vida, ou se é uma necessidade do homem. Sim, é uma necessidade, simplesmente não nos podemos iludir e pensar que a Vida poderia ser perfeita, que estamos livres de todos os perigos e protegidos por uma espécie de mão divina que evita o mal. Não é fácil falar destes temas, sem nos perguntarmos o porquê, se no fundo a criação é má, se Deus abandonou o mundo, se estamos a ser castigados. É o drama que vemos todos os dias nas notícias, o sofrimento causado e a dor que atinge aqueles que não têm culpa. Estamos tão habituados a isso que não nos choca o terremoto nas Filipinas ou a guerra no Congo. É pena que aconteça, mas não podemos fazer nada. Já nos questionamos mais com a doença de alguém conhecido ou um familiar. Finalmente, não suportamos e ficamos aterrorizados com ideia de confrontar a própria dor na primeira pessoa...


A dor e o sofrimento fazem parte da Vida. É inexplicável e causa-nos tristeza e desespero. De onde vem e para que serve? Há um sofrimento causado pelas nossas más escolhas, que nos ferem a nós próprios ou aos outros. Mais cedo ou mais tarde, sabemos que teremos as consequências da nossa falta de verdade e do nosso egoísmo. A um nível mais global, a liberdade de outras pessoas também causa sofrimento, e quem tem mais poder abusa dos mais fracos. E existe o nível da própria natureza, as células e os vírus que destroem o corpo, ou os fenómenos naturais que destroem em grandes dimensões.


Custou-me sempre entender esta frase: a origem do mal e da dor está na nossa liberdade limitada. Em relação a mim próprio e aos outros, consigo perceber o que isso quer dizer. Tenho mais dificuldade em perceber o porquê do sofrimento causado por outras potências, humanas ou naturais, quando há inocentes que sofrem. A ciência, a política, a economia e a sociologia poderão dar muitas justificações. O mal simplesmente acontece e é na minha vida que o terei de enfrentar. Como, com que intenção? Para perder tuda na mesma, quando chegar o fim? Precisamos de outras respostas.


Não falo explicitamente da resposta da fé e da religião. Prefiro dizer aquilo que qualquer pessoa, crente ou não crente, poderá perceber. A resposta da fé é a que toma este mesmo dinamismo e a formula numa linguagem própria.


Frente à dor, como a condição natural e inevitável da Vida, sou desafiado a dar uma resposta. Que pode ser fugir, ficar indiferente, desistir, lutar, aceitar, amar... Na minha vida passei por todas estas respostas. Há uma atitude que me iluminou mais: Diante da dor e da morte, como poderei estar como sou, como posso fazer a minha casa num mundo que não percebo e me custa aceitar? Falei há tempos da imagem do labirinto. A questão não é tentar uma saída frustrante do labirinto onde nos encontramos, mas sim descobrir o modo de o habitar como sou e com o muito ou o pouco que tenho para dar.


Todos os acontecimentos são uma expressão da Vida. Tal como as alegrias mais contagiantes de ter encontrado o que se quer, de poder tocar com as mãos o tesouro procurado, também a dor nos fala da mesma força da Vida. É nos extremos que a Vida se mostra com toda a sua força e potência. É mais fácil perceber isto na alegria, mas a Vida aparece-nos à frente nua e crua, violentamente, quando vemos que a podemos perder e não podemos consentir isso. É o momento de decidir amar com todas as forças o que me é dado viver. É o dom mais precioso que tenho, e quando este é tão frágil, mais o devo amar. É o amor incompreendido, que vai além de si, que é paradoxal, que pode construir a casa no labirinto escuro em que vivo. É este a única fonte de luz.


Na linguagem da fé, Deus não é a origem do mal, nem Aquele que castiga o nosso egoísmo. A liberdade para Deus é tão importante, que Ele não consegue intervir com milagres, seria tirar-nos as possibilidades radicais da existência, a nossa marca divina no mundo. Deus é a força do amor que nos ajuda a viver o que vivemos. E esta força nunca ouvi dizer que algum dia não tivesse sido dada a quem a pediu. Jesus sofreu e morreu de forma muito violenta e injusta. Deus não fez nada para o ajudar. A humana-divindade de Deus teria de estar identificada connosco em tudo. Mas o Amor do Pai acompanhou Jesus e esteve presente com toda a força, até ao fim. Um Deus que não sofresse connosco não teria nada a dizer-nos sobre a Vida.

8 comentários:

Carolina disse...

É engraçado como tenho pensado nisso tudo que escreveste. Ás vezes faz um bocado de confusão pensar que Deus realmente não ajudou directamente o Filho. Perceber isto acaba por desmontar imagens de Deus que trago desde ha mto na bagagem da minha fé. Mas é sobretudo, ao desmontar essa imagem que vejo que é aí que está a maior prova de amor do Senhor: um Deus que sofre connosco para nos ensinar a viver.
Optimo post, gostei mto! :) Obgada! Um grande beijinho e bom fds.

Anónimo disse...

Obrigada pela tua reflexão e pelo blog.

Elsa Picão disse...

A dor, tal como as alegrias, também pode ser portadora da chave para nos orientarmos no labirinto.

Quando a vida escorre entre os dedos como finos grãos de areia ou deixamos que a ampulheta chegue ao fim, ou fechamos firmemente a mão. E cada grão que fica é mais valioso que uma pepita de ouro.

Como diz:"É o momento de decidir amar com todas as forças o que me é dado viver. É o dom mais precioso que tenho, e quando este é tão frágil, mais o devo amar. "

É a certeza de um Amor maior que faz com se olhe para a dor e para as alegrias com a mesma serenidade quando se procuram as pistas para avançar no labirinto.

Parabéns pelo blog. Fantastico.

Anawîm disse...

Olá!

É mesmo difícil falar disto que é uma das coisas que mais nos toca a todos.
Eu não vejo a dor propriamente como uma necessidade, mas como uma consequência... ou talvez mais ainda... faz mesmo parte do que somos, juntamente com muitas outras coisas incompreensíveis que somos.
Nascer, seja de que forma for, é sempre inexplicavelmente causa de alegria... que dói... Penso sempre no jeito com que nascem as crianças de parto natural, como é belíssimo esse milagre da vida, e como é dolorosa essa passagem de um lugar para outro, e como é doloroso fazer funcionar os pulmões que antes não eram necessários, mas depois são indispensáveis.

Realmente... é preciso ter coragem para aceitar entender que não há respostas para tudo, em nós. E o mais importante é o jeito como vivemos nós, e como comungamos com os outros, tanto os bons momentos, como os maus momentos... até "nascer"...

E pensar que nisto tudo o que somos, Deus, porque ama verdadeiramente, afinal não é o todo-poderoso... isso deixa-me num encantamento tal...!
O Deus que se cala na cruz de Jesus porque comunga com as suas decisões e as suas dores e as respeita nos seus tempos, é o mesmo Deus que, depois, o confirma fazendo-o nascer de novo.

ups... escrevi um bocado... desculpa

Um abraço

Anónimo disse...

Qual o sentido da dor se não é uma necessidade do Homem? Ou será necessária a dor para significar a vida?

A oportunidade de amar e dizê-lo com a vida é para cada instante.

E quando a dor chega ao outro e irreversivelmente permanecerá até ao fim, com a vida eterna a aproximar-se, deixar que o amor continue a entregar-se, a fazer sentir-se, a dizer-se, a ser amor cada vez mais na sua expressão de ser e no seu sentido maior, é acreditar que o amor tudo pode e tudo supera. Por isso é que o Amor, quiçá, cresça muito, também, por entre a dor.
Todos os momentos são tempo de comungar e partilhar o Amor com que Deus nos abraça.

O amor é a chave.

Obrigada.

Beijinhos.

Helena

Antonio Valerio, sj disse...

Olá! Obrigado pelas vossas reflexões,estou muito de acordo e ajudam a completar o que escrevi. Anawim, gostei muito da imagem do nascimento, a dor como começo de qualquer coisa nova na Vida. No fundo o Amor esconde-se no fundo de tudo, até ao paradoxo de quase desaparecer. Mas ao tocar o fundo da dor, também se exprimenta como só o Amor salva...

Obrigado pela sugestão, Helena e bem vinda Elsa e Carolina =)... é uma alegria as vossas visitas...

susana disse...

:) é a dor como função reguladora fisiológica certo? Ela tem que existir para sabermos que se continuarmos com a mão por debaixo do ferro de engomar, acabamos sem ela:P :)
Excelente reflexão e excelentes contribuições que por aqui vãos endo feitas!
Um abraço su

Nélson Ramires Faria disse...

O livro de que o António fala de François Varillon chama-se "Alegria de Crer e de Viver" e está publicado em Portugal pela AO.

Li o verão passado e recomendo vivamente. Um livro profundamente catequético. Um "must have" :)

 

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