28 outubro 2009

A minha história

4comentários


Visitar os nossos lugares torna-nos mais conscientes de origens e caminhos percorridos. Teremos força para acreditar que cada espaço é um pedaço de nós, construído por um motivo? E os espaços que ficam fora do puzzle, que parece que foram feitos para permanecer vazios?

A nossa história também tem espaços vazios. E é importante que os tenha, são as coisas que não conseguimos explicar, algo que perdemos, rompemos ou deixámos de cuidar. Ser completo no hoje que me é dado viver passa também por assumir aquilo que ainda não fui capaz de assumir.

A coragem passa por ser humilde. E ser humilde é ser optimista, conseguir deixar andar, partir e continuar. Insistir no vazio pode ter tanto de desafiador, de ser mais completos, como de paralisador, de não sairmos dos mesmos bloqueios. Porque a nossa história também tem um ritmo e uma paciência própria. Importa não ficar parados.

26 outubro 2009

Essencial ou prioridade?

4comentários


Uma das maiores dificuldades que podemos sentir no dia-a-dia é a gestão do nosso tempo. Parece sempre que não tivémos tempo para tudo, e que perdemos imenso tempo com coisas que não interessavam. Por vezes, podemos cair no risco de transformar algo muito importante que temos de fazer, seja a oração, seja uma actividade específica, num ponto a cumprir no calendário. E chamamos a isso prioridade.

Mas uma prioridade está ligada profundamente ao essencial. E o essencial não pode ser reduzido a um tempo ou algo a cumprir. É uma atitude de fundo. Vivo o essencial em tudo, e não só nas coisas importantes. É pouco se vivermos o essencial apenas em momentos privilegiados do dia. Se o essencial é o motor de todas as nossas acções, então é um dinamismo que atravessa o nosso dia.

As prioridades são mais exteriores, toques essenciais mais explícitos da acção. Na gestão do tempo é importante não deixar de os ter e procurar. A dificuldade está em tornar essencial aquilo que não é explícito. Mas aí é que se mostra a qualidade da nossa existência, se estamos todos em tudo.


24 outubro 2009

Gratuidade

5comentários



Qual é o segredo ou o bem de ser gratuito naquilo que fazemos? É difícil dar sem esperar nada em troca, pergunto-me se alguma vez somos capazes de dar assim completamente. Quando fazemos o bem, esperamos pelo menos um gesto de reconhecimento. Sentimo-nos ofendidos ou magoados quando, numa atitude de boa vontade, fazemos algo que não teve nenhum resultado, a não ser indiferença.

Por isso, o que pode mover a gratuidade? Não quero dizer que a única gratuidade que interessa seja aquela que não se importa com o mau resultado da iniciativa. Mas há duas atitudes de fundo que podem fazer pensar na qualidade daquilo que damos:

A primeira é o gostar (amar) desinteressadamente. Fazemos o bem porque amamos aquele a quem fazemos esse bem, mesmo que não o reconheça. Não desistimos, dar é a nossa alegria. A segunda atitude é a alegria de dar. Quando a alegria de fazer o bem move as nossas acções, somos mais livres.

Mesmo que não sejamos completamente livres no dar, ter como fundo amor e alegria constrói-nos por dentro.

22 outubro 2009

Quando a consciência se ilumina

1 comentários
Sugestão de pica

"Quando a luz se apaga é que a consciência se ilumina.
As almas são como os morcegos: vêem melhor às escuras."  
Guerra Junqueiro



O ponto de partida é esta frase. As imagens da luz e da escuridão fazem uma enorme ressonância em nós, vão além daquilo que podemos reflectir. É uma impressão instintiva, percebemos a luz em nós e nos outros, sem saber bem explicar porquê. Fascinam-nos as pessoas de olhar iluminado, e queremos a toda a força conhecer o seu segredo. Um olhar escuro faz-nos desviar o olhar, sem sabermos o que podemos fazer.

Quando nos sentimos iluminados, tudo nos corre bem, temos imensas ideias de coisas bonitas para afaer, crescemos na confiança e na ousadia. O mundo parece pequeno para os nossos desejos. Porém, quando a escuridão é o nosso ambiente, ficamos perdidos, desorientados, o mundo fecha-se até ficar do tamanho do nosso problema, um pequeno canto numa cave, sem grande capacidade para sair dali.

O que quer dizer que a consciência se ilumina quando a luz se apaga? Esta pergunta é um desafio e um confronto com o modo como lidamos com os nossos tempos e situações mais obscuras. Creio não estar errado, se propuser que são exactamente os momentos de escuridão onde encontramos a nossa verdade. Um dos nossos maiores medos é enfrentar a dúvida, a des-esperança e o facto de não nos sentirmos completos.

Querer viver sempre na luz é bom, na medida em que somos continuamente desafiados a alargar os nossos horizontes e a não ficarmos fechados em nós. Mas pode ser um risco, se formos ingénuos ao ponto de querer a toda a força ser iluminados sem aceitar as nossas sombras, e vivemos tantas vezes numa aparência, quando essa luz não passa de iluminação artificial, lâmpadas coloridas e neons publicitários que, no fim de contas, dizem pouco de nós. Fazemos parte do sistema, que evita todo o contacto com a realidade paradoxal da vida.

Nas alturas em que a escuridão é o nosso mundo, temos a oportunidade de partir do que somos: dúvida, incompreensão, fragilidade. A um certo momento da nossa Vida, o confronto com a escuridão é necessário e salutar, poder dizer com toda a simplicidade: "Também sou isto, mas isto não me impede de viver, antes pelo contrário".

A nossa consciência ilumina-se a partir de dentro, e tornamo-nos mais transparentes, olhamos para nós, ao mesmo tempo que uma luz de aceitação vai tornando os limites mais claros, até que percebamos que a fragilidade é a nosso fonte mais autêntica de força. Ser conscientes, não pelo pensamento, mas na intuição, no fundo, amarmos o nosso presente, seja como este for.



19 outubro 2009

Viver com paixão

2comentários


A paixão é violenta, arrebata, arrasta-nos para o que se ama. Nunca tive bem claro se isso é bom ou é mau. Quem está apaixonado normalmente é feliz. Talvez seja a falta de discernimento que faz tomar decisões precipitadas mas, em si mesmo, a paixão é algo positivo.

Paixão também implica sofrimento, vem de passio, em latim, sofrimento. E temos disso experiência, não vale a pena alongar-me nisto.

O que é interessante é que quem está apaixonado por alguém, não olha o outro como algo a possuir, é um dom, uma alegria e uma surpresa. Alargando o olhar, estar apaixonado pela Vida não é exigir dela as coisas que quero, como minha propriedade, mas sim aceitá-la como dom, alegria e surpresa.

Quando se possui o que se ama, perde-se o amor e a novidade. Quando queremos que a Vida seja o que nós queremos ficamos aquém da fronteira da novidade, as coisas entristecem-nos e perdemos a paixão. Viver com paixão é um dom enorme, e um desafio constante à entrega e à liberdade.

16 outubro 2009

As pessoas

4comentários
Hoje perdi algum tempo a ver o que há pela net e encontrei uma série de vídeos que são simplesmente filmagens a pessoas comuns, em várias cidades. Achei mesmo interessante a ideia de realçar o que vemos todos os dias, tantas pessoas em tantas situações. Fica aqui um exemplo e a proposta de fazer uma visita à Vida.






Já me tinha dado conta, quando não faço a asneira de andar a correr pela rua sem olhar à volta, que cada pessoa é uma história. Um tesouro... olhar alguém desconhecido nos olhos dá muito valor a quem olhamos... porque também somos olhados.


15 outubro 2009

Entrevista a um Tuareg

5comentários
Um companheiro jesuíta enviou esta entrevista a um tuareg. Está em espanhol, espero que não haja grandes problemas em perceber =). Vale a pena ler, para pormos em questão o modo como vivemos a nossa vida. Por vezes precisamos de um olhar de longe que nos faça cair na conta de como vivemos com tanta pressa e nos passa completamente ao lado aquilo que é mais importante... um olhar cheio de horizonte.




"TU TIENES EL RELOJ, YO TENGO EL TIEMPO"
entrevista realizada por VÍCTOR M. AMELA a: MOUSSA AG ASSARID

No sé mi edad: nací en el desierto del Sahara, sin papeles...!
Nací en un campamento nómada tuareg entre Tombuctú y Gao, al norte de Mali. He sido pastor de los camellos, cabras, corderos y vacas de mi padre. Hoy estudio Gestión en la Universidad Montpellier. Estoy soltero. Defiendo a los pastores tuareg. Soy musulmán, sin fanatismo

- ¡Qué turbante tan hermoso...!
- Es una fina tela de algodón: permite tapar la cara en el desierto cuando se levanta arena, y a la vez seguir viendo y respirando a su través.

- Es de un azul bellísimo...
- A los tuareg nos llamaban los hombres azules por esto: la tela destiñe algo y nuestra piel toma tintes azulados...

- ¿Cómo elaboran ese intenso azul añil?
- Con una planta llamada índigo, mezclada con otros pigmentos naturales. El azul, para los tuareg, es el color del mundo.

- ¿Por qué?
- Es el color dominante: el del cielo, el techo de nuestra casa.

- ¿Quiénes son los tuareg?
- Tuareg significa "abandonados", porque somos un viejo pueblo nómada del desierto, solitario, orgulloso: "Señores del Desierto", nos llaman. Nuestra etnia es la amazigh (bereber), y nuestro alfabeto, el tifinagh.

- ¿Cuántos son?
- Unos tres millones, y la mayoría todavía nómadas. Pero la población decrece... "¡Hace falta que un pueblo desaparezca para que sepamos que existía!", denunc iaba una vez un sabio: yo lucho por preservar este pueblo.

- ¿A qué se dedican?
- Pastoreamos rebaños de camellos, cabras, corderos, vacas y asnos en un reino de infinito y de silencio...

- ¿De verdad tan silencioso es el desierto?
- Si estás a solas en aquel silencio, oyes el latido de tu propio corazón. No hay mejor lugar para hallarse a uno mismo.

- ¿Qué recuerdos de su niñez en el desierto conserva con mayor nitidez?
- Me despierto con el sol. Ahí están las cabras de mi padre. Ellas nos dan leche y carne, nosotros las llevamos a donde hay agua y hierba... Así hizo mi bisabuelo, y mi abuelo, y mi padre... Y yo. ¡No había otra cosa en el mundo más que eso, y yo era muy feliz en él!


- ¿Sí? No parece muy estimulante. ..
- Mucho. A los siete años ya te dejan alejarte del campamento, para lo que te enseñan las cosas importantes: a olisquear el aire, escuchar, aguzar la vista, orientarte por el sol y las estrellas... Y a dejarte llevar por el camello, si te pierdes: te llevará a donde hay agua.

- Saber eso es valioso, sin duda...
- Allí todo es simple y profundo. Hay muy pocas cosas, ¡y cada una tiene enorme valor!

- Entonces este mundo y aquél son muy diferentes, ¿no?
- Allí, cada pequeña cosa proporciona felicidad. Cada roce es valioso. ¡Sentimos una enorme alegr a por el simple hecho de tocarnos, de estar juntos! Allí nadie sueña con llegar a ser, ¡porque cada uno ya es!

- ¿Qué es lo que más le chocó en su primer viaje a Europa?
- Vi correr a la gente por el aeropuerto.. . ¡En el desierto sólo se corre si viene una tormenta de arena! Me asusté, claro...

- Sólo iban a buscar las maletas, ja, ja...
- Sí, era eso. También vi carteles de chicas desnudas: ¿por qué esa falta de respeto hacia la mujer?, me pregunté... Después, en el hotel Ibis, vi el primer grifo de mi vida: vi correr el agua... y sentí ganas de llorar.

- Qué abundancia, qué derroche, ¿no?
- ¡Todos los días de mi vida habían consistido en buscar agua! Cuando veo las fuentes de adorno aquí y allá, aún sigo sintiendo dentro un dolor tan inmenso...

- ¿Tanto como eso?
- Sí. A principios de los 90 hubo una gran sequía, murieron los animales, caímos enfermos... Yo tendría unos doce años, y mi madre murió... ¡Ella lo era todo para mí! Me contaba historias y me enseñó a contarlas bien. Me enseñó a ser yo mismo.

- ¿Qué pasó con su familia?
- Convencí a mi padre de que me dejase ir a la escuela. Casi cada día yo caminaba quince kilómetros. Hasta que el maestro me dejó una cama para dormir, y una señora me daba de comer al pasar ante su casa... Entendí: mi madre estaba ayudándome...

- ¿De dónde salió esa pasión por la escuela?
- De que un par de años antes había pasado por el campamento el rally París-Dakar, y a una periodista se le cayó un libro de la mochila. Lo recogí y se lo di. Me lo regaló y me habló de aquel libro: El Principito. Y yo me prometí que un día sería capaz de leerlo...

- Y lo logró.
- Sí. Y así fue como logré una beca para estudiar en Francia.

- ¡Un tuareg en la universidad. ..!
- Ah, lo que más añoro aquí es la leche de camella... Y el fuego de leña. Y caminar descalzo sobre la arena cálida. Y las estrellas: allí las miramos cada noche, y cada estrella es distinta de otra, como es distinta cada cabra... Aquí, por la noche, miráis la tele.

- Sí... ¿Qué es lo que peor le parece de aquí?
- Tenéis de todo, pero no os basta. Os quejáis. ¡En Francia se pasan la vida quejándose! Os encadenáis de por vida a un banco, y hay ansia de poseer, frenesí, prisa... En el desierto no hay atascos, ¿y sabe por qué? ¡Porque allí nadie quiere adelantar a nadie!

- Reláteme un momento de felicidad intensa en su lejano desierto.
- Es cada día, dos horas antes de la puesta del sol: baja el calor, y el frío n o ha llegado, y hombres y animales regresan lentamente al campamento y sus perfiles se recortan en un cielo rosa, azul, rojo, amarillo, verde...

- Fascinante, desde luego...
- Es un momento mágico... Entramos todos en la tienda y hervimos té. Sentados, en silencio, escuchamos el hervor... La calma nos invade a todos: los latidos del corazón se acompasan al pot-pot del hervor...

- Qué paz...
- Aquí tenéis reloj, allí tenemos tiempo.



 

Cidade Eterna © 2010

Blogger Templates by Splashy Templates