Visitar os nossos lugares torna-nos mais conscientes de origens e caminhos percorridos. Teremos força para acreditar que cada espaço é um pedaço de nós, construído por um motivo? E os espaços que ficam fora do puzzle, que parece que foram feitos para permanecer vazios?
A nossa história também tem espaços vazios. E é importante que os tenha, são as coisas que não conseguimos explicar, algo que perdemos, rompemos ou deixámos de cuidar. Ser completo no hoje que me é dado viver passa também por assumir aquilo que ainda não fui capaz de assumir.
A coragem passa por ser humilde. E ser humilde é ser optimista, conseguir deixar andar, partir e continuar. Insistir no vazio pode ter tanto de desafiador, de ser mais completos, como de paralisador, de não sairmos dos mesmos bloqueios. Porque a nossa história também tem um ritmo e uma paciência própria. Importa não ficar parados.
Uma das maiores dificuldades que podemos sentir no dia-a-dia é a gestão do nosso tempo. Parece sempre que não tivémos tempo para tudo, e que perdemos imenso tempo com coisas que não interessavam. Por vezes, podemos cair no risco de transformar algo muito importante que temos de fazer, seja a oração, seja uma actividade específica, num ponto a cumprir no calendário. E chamamos a isso prioridade.
Mas uma prioridade está ligada profundamente ao essencial. E o essencial não pode ser reduzido a um tempo ou algo a cumprir. É uma atitude de fundo. Vivo o essencial em tudo, e não só nas coisas importantes. É pouco se vivermos o essencial apenas em momentos privilegiados do dia. Se o essencial é o motor de todas as nossas acções, então é um dinamismo que atravessa o nosso dia.
As prioridades são mais exteriores, toques essenciais mais explícitos da acção. Na gestão do tempo é importante não deixar de os ter e procurar. A dificuldade está em tornar essencial aquilo que não é explícito. Mas aí é que se mostra a qualidade da nossa existência, se estamos todos em tudo.
Qual é o segredo ou o bem de ser gratuito naquilo que fazemos? É difícil dar sem esperar nada em troca, pergunto-me se alguma vez somos capazes de dar assim completamente. Quando fazemos o bem, esperamos pelo menos um gesto de reconhecimento. Sentimo-nos ofendidos ou magoados quando, numa atitude de boa vontade, fazemos algo que não teve nenhum resultado, a não ser indiferença.
Por isso, o que pode mover a gratuidade? Não quero dizer que a única gratuidade que interessa seja aquela que não se importa com o mau resultado da iniciativa. Mas há duas atitudes de fundo que podem fazer pensar na qualidade daquilo que damos:
A primeira é o gostar (amar) desinteressadamente. Fazemos o bem porque amamos aquele a quem fazemos esse bem, mesmo que não o reconheça. Não desistimos, dar é a nossa alegria. A segunda atitude é a alegria de dar. Quando a alegria de fazer o bem move as nossas acções, somos mais livres.
Mesmo que não sejamos completamente livres no dar, ter como fundo amor e alegria constrói-nos por dentro.
"Quando a luz se apaga é que a consciência se ilumina.
As almas são como os morcegos: vêem melhor às escuras."
Guerra Junqueiro
O ponto de partida é esta frase. As imagens da luz e da escuridão fazem uma enorme ressonância em nós, vão além daquilo que podemos reflectir. É uma impressão instintiva, percebemos a luz em nós e nos outros, sem saber bem explicar porquê. Fascinam-nos as pessoas de olhar iluminado, e queremos a toda a força conhecer o seu segredo. Um olhar escuro faz-nos desviar o olhar, sem sabermos o que podemos fazer.
Quando nos sentimos iluminados, tudo nos corre bem, temos imensas ideias de coisas bonitas para afaer, crescemos na confiança e na ousadia. O mundo parece pequeno para os nossos desejos. Porém, quando a escuridão é o nosso ambiente, ficamos perdidos, desorientados, o mundo fecha-se até ficar do tamanho do nosso problema, um pequeno canto numa cave, sem grande capacidade para sair dali.
O que quer dizer que a consciência se ilumina quando a luz se apaga? Esta pergunta é um desafio e um confronto com o modo como lidamos com os nossos tempos e situações mais obscuras. Creio não estar errado, se propuser que são exactamente os momentos de escuridão onde encontramos a nossa verdade. Um dos nossos maiores medos é enfrentar a dúvida, a des-esperança e o facto de não nos sentirmos completos.
Querer viver sempre na luz é bom, na medida em que somos continuamente desafiados a alargar os nossos horizontes e a não ficarmos fechados em nós. Mas pode ser um risco, se formos ingénuos ao ponto de querer a toda a força ser iluminados sem aceitar as nossas sombras, e vivemos tantas vezes numa aparência, quando essa luz não passa de iluminação artificial, lâmpadas coloridas e neons publicitários que, no fim de contas, dizem pouco de nós. Fazemos parte do sistema, que evita todo o contacto com a realidade paradoxal da vida.
Nas alturas em que a escuridão é o nosso mundo, temos a oportunidade de partir do que somos: dúvida, incompreensão, fragilidade. A um certo momento da nossa Vida, o confronto com a escuridão é necessário e salutar, poder dizer com toda a simplicidade: "Também sou isto, mas isto não me impede de viver, antes pelo contrário".
A nossa consciência ilumina-se a partir de dentro, e tornamo-nos mais transparentes, olhamos para nós, ao mesmo tempo que uma luz de aceitação vai tornando os limites mais claros, até que percebamos que a fragilidade é a nosso fonte mais autêntica de força. Ser conscientes, não pelo pensamento, mas na intuição, no fundo, amarmos o nosso presente, seja como este for.
A paixão é violenta, arrebata, arrasta-nos para o que se ama. Nunca tive bem claro se isso é bom ou é mau. Quem está apaixonado normalmente é feliz. Talvez seja a falta de discernimento que faz tomar decisões precipitadas mas, em si mesmo, a paixão é algo positivo.
Paixão também implica sofrimento, vem de passio, em latim, sofrimento. E temos disso experiência, não vale a pena alongar-me nisto.
O que é interessante é que quem está apaixonado por alguém, não olha o outro como algo a possuir, é um dom, uma alegria e uma surpresa. Alargando o olhar, estar apaixonado pela Vida não é exigir dela as coisas que quero, como minha propriedade, mas sim aceitá-la como dom, alegria e surpresa.
Quando se possui o que se ama, perde-se o amor e a novidade. Quando queremos que a Vida seja o que nós queremos ficamos aquém da fronteira da novidade, as coisas entristecem-nos e perdemos a paixão. Viver com paixão é um dom enorme, e um desafio constante à entrega e à liberdade.
Hoje perdi algum tempo a ver o que há pela net e encontrei uma série de vídeos que são simplesmente filmagens a pessoas comuns, em várias cidades. Achei mesmo interessante a ideia de realçar o que vemos todos os dias, tantas pessoas em tantas situações. Fica aqui um exemplo e a proposta de fazer uma visita à Vida.
Já me tinha dado conta, quando não faço a asneira de andar a correr pela rua sem olhar à volta, que cada pessoa é uma história. Um tesouro... olhar alguém desconhecido nos olhos dá muito valor a quem olhamos... porque também somos olhados.
Um companheiro jesuíta enviou esta entrevista a um tuareg. Está em espanhol, espero que não haja grandes problemas em perceber =). Vale a pena ler, para pormos em questão o modo como vivemos a nossa vida. Por vezes precisamos de um olhar de longe que nos faça cair na conta de como vivemos com tanta pressa e nos passa completamente ao lado aquilo que é mais importante... um olhar cheio de horizonte.
"TU TIENES EL RELOJ, YO TENGO EL TIEMPO"
entrevista realizada por VÍCTOR M. AMELA a: MOUSSA AG ASSARID
No sé mi edad: nací en el desierto del Sahara, sin papeles...! Nací en un campamento nómada tuareg entre Tombuctú y Gao, al norte de Mali. He sido pastor de los camellos, cabras, corderos y vacas de mi padre. Hoy estudio Gestión en la Universidad Montpellier. Estoy soltero. Defiendo a los pastores tuareg. Soy musulmán, sin fanatismo
- ¡Qué turbante tan hermoso...!
- Es una fina tela de algodón: permite tapar la cara en el desierto cuando se levanta arena, y a la vez seguir viendo y respirando a su través.
- Es de un azul bellísimo...
- A los tuareg nos llamaban los hombres azules por esto: la tela destiñe algo y nuestra piel toma tintes azulados...
- ¿Cómo elaboran ese intenso azul añil?
- Con una planta llamada índigo, mezclada con otros pigmentos naturales. El azul, para los tuareg, es el color del mundo.
- ¿Por qué?
- Es el color dominante: el del cielo, el techo de nuestra casa.
- ¿Quiénes son los tuareg?
- Tuareg significa "abandonados", porque somos un viejo pueblo nómada del desierto, solitario, orgulloso: "Señores del Desierto", nos llaman. Nuestra etnia es la amazigh (bereber), y nuestro alfabeto, el tifinagh.
- ¿Cuántos son?
- Unos tres millones, y la mayoría todavía nómadas. Pero la población decrece... "¡Hace falta que un pueblo desaparezca para que sepamos que existía!", denunc iaba una vez un sabio: yo lucho por preservar este pueblo.
- ¿A qué se dedican?
- Pastoreamos rebaños de camellos, cabras, corderos, vacas y asnos en un reino de infinito y de silencio...
- ¿De verdad tan silencioso es el desierto?
- Si estás a solas en aquel silencio, oyes el latido de tu propio corazón. No hay mejor lugar para hallarse a uno mismo.
- ¿Qué recuerdos de su niñez en el desierto conserva con mayor nitidez?
- Me despierto con el sol. Ahí están las cabras de mi padre. Ellas nos dan leche y carne, nosotros las llevamos a donde hay agua y hierba... Así hizo mi bisabuelo, y mi abuelo, y mi padre... Y yo. ¡No había otra cosa en el mundo más que eso, y yo era muy feliz en él!
- ¿Sí? No parece muy estimulante. ..
- Mucho. A los siete años ya te dejan alejarte del campamento, para lo que te enseñan las cosas importantes: a olisquear el aire, escuchar, aguzar la vista, orientarte por el sol y las estrellas... Y a dejarte llevar por el camello, si te pierdes: te llevará a donde hay agua.
- Saber eso es valioso, sin duda...
- Allí todo es simple y profundo. Hay muy pocas cosas, ¡y cada una tiene enorme valor!
- Entonces este mundo y aquél son muy diferentes, ¿no?
- Allí, cada pequeña cosa proporciona felicidad. Cada roce es valioso. ¡Sentimos una enorme alegr a por el simple hecho de tocarnos, de estar juntos! Allí nadie sueña con llegar a ser, ¡porque cada uno ya es!
- ¿Qué es lo que más le chocó en su primer viaje a Europa?
- Vi correr a la gente por el aeropuerto.. . ¡En el desierto sólo se corre si viene una tormenta de arena! Me asusté, claro...
- Sólo iban a buscar las maletas, ja, ja...
- Sí, era eso. También vi carteles de chicas desnudas: ¿por qué esa falta de respeto hacia la mujer?, me pregunté... Después, en el hotel Ibis, vi el primer grifo de mi vida: vi correr el agua... y sentí ganas de llorar.
- Qué abundancia, qué derroche, ¿no?
- ¡Todos los días de mi vida habían consistido en buscar agua! Cuando veo las fuentes de adorno aquí y allá, aún sigo sintiendo dentro un dolor tan inmenso...
- ¿Tanto como eso?
- Sí. A principios de los 90 hubo una gran sequía, murieron los animales, caímos enfermos... Yo tendría unos doce años, y mi madre murió... ¡Ella lo era todo para mí! Me contaba historias y me enseñó a contarlas bien. Me enseñó a ser yo mismo.
- ¿Qué pasó con su familia?
- Convencí a mi padre de que me dejase ir a la escuela. Casi cada día yo caminaba quince kilómetros. Hasta que el maestro me dejó una cama para dormir, y una señora me daba de comer al pasar ante su casa... Entendí: mi madre estaba ayudándome...
- ¿De dónde salió esa pasión por la escuela?
- De que un par de años antes había pasado por el campamento el rally París-Dakar, y a una periodista se le cayó un libro de la mochila. Lo recogí y se lo di. Me lo regaló y me habló de aquel libro: El Principito. Y yo me prometí que un día sería capaz de leerlo...
- Y lo logró.
- Sí. Y así fue como logré una beca para estudiar en Francia.
- ¡Un tuareg en la universidad. ..!
- Ah, lo que más añoro aquí es la leche de camella... Y el fuego de leña. Y caminar descalzo sobre la arena cálida. Y las estrellas: allí las miramos cada noche, y cada estrella es distinta de otra, como es distinta cada cabra... Aquí, por la noche, miráis la tele.
- Sí... ¿Qué es lo que peor le parece de aquí?
- Tenéis de todo, pero no os basta. Os quejáis. ¡En Francia se pasan la vida quejándose! Os encadenáis de por vida a un banco, y hay ansia de poseer, frenesí, prisa... En el desierto no hay atascos, ¿y sabe por qué? ¡Porque allí nadie quiere adelantar a nadie!
- Reláteme un momento de felicidad intensa en su lejano desierto.
- Es cada día, dos horas antes de la puesta del sol: baja el calor, y el frío n o ha llegado, y hombres y animales regresan lentamente al campamento y sus perfiles se recortan en un cielo rosa, azul, rojo, amarillo, verde...
- Fascinante, desde luego...
- Es un momento mágico... Entramos todos en la tienda y hervimos té. Sentados, en silencio, escuchamos el hervor... La calma nos invade a todos: los latidos del corazón se acompasan al pot-pot del hervor...
A Cidade leva-nos para fora e faz-nos entrar na velocidade. Surgem os espaços onde os sentidos se prendem e chegamos a lugares onde nos podemos encontrar, ou nos podemos perder. Há uma viagem capaz de ser levada por um Olhar, que abraça e dá sentido ao que acontece. Um Eterno arrancado de cada momento do presente. A Cidade Eterna é este meu próprio mundo, onde posso tocar algo novo todos os dias... E crescer como capacidade de me maravilhar.
Sou padre jesuíta.
Vivo em Braga, numa comunidade de jovens jesuítas estudantes de filosofia. Trabalho com universitários e no Apostolado da Oração. Procuro ir percebendo a bondade de tudo o que nos acontece e viver na felicidade de hoje.
Durante quatro anos, escrevi muitas reflexões sobre vários assuntos. Para as tornar mais acessíveis, coloquei uma lista de temas, onde poderão ser encontradas facilmente. Espero que ajude e bom proveito! =)