15 abril 2009

Regresso

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Ontem foi a ordenação diaconal dos meus companheiros de comunidade, aqui na Igreja do Gesù. Foi também ordenado o Afonso, que é o jesuíta que viveu mais anos comigo na mesma comunidade, o que acrescentou muito a minha alegria! =)


Desta vez, eu não estava nos bancos da frente, mas do outro lado do altar, a celebrar como diácono. É inevitável que não viajasse um ano atrás, ao dia da minha ordenação e não recordasse aquilo que vivi e rezei, como sonho e promessa cumprida. Ao mesmo tempo, dei-me conta dos poucos progressos que fiz, mas sobretudo do muito que Deus fez em mim.


O momento mais importante, para além da emoção de os ver a serem ordenados, foi quando desci com o bispo para dar um abraço aos novos diáconos, como sinal de boas-vindas à ordem. É um gesto de acolhimento numa história que ultrapassa os séculos e que se faz presente ali. Somos pequenos e ao mesmo tempo tão privilegiados! São os nossos dons que entram ao serviço dos outros, e isso desafia-nos a ser melhores e mais eternos. Parabéns! =)




Foto dos neo-diáconos. Atrás, da esquerda para a direita: P. Joseph Daoust (Delegado das Casas Romanas), Marjan (Eslovénia), Petr (República Checa), Sebastian (Alemanha), Mons. Piero Marini (Bispo), P. Janez (Reitor da comunidade), Flavio (Itália) e Afonso (Portugal). À frente, da esq para a direita: Léonard (Madagascar), Paul (Estados Unidos), Oleksiy (Ucrânia), Rogério (Brasil), Gabriele (Italia) e Joachin (Madagascar).



E, já agora, também eu! ;)

12 abril 2009

Vida Nova

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Qual é a certeza que temos da ressurreição? Há uns anos atrás, era esta a minha questão principal. Às vezes, é bom pormos em questão as coisas que nos habituamos a acreditar sem nos termos perguntado o porquê. De facto, a ressurreição de Jesus não teve testemunhas, para além do grupo dos discípulos que depois tiveram algumas experiências de O terem visto vivo. Mas isso poderia ter sido qualquer ilusão...



Mas olhando a história simplesmente, dá-se conta que não houve nenhum movimento religioso que, no espaço de 50 anos, se tivesse espalhado por todo o mundo conhecido da altura. O que teria acontecido para que um grupo de homens e mulheres judeus, de baixa condição social, tivessem anunciado que alguém com quem contactaram fisicamente tinha ressuscitado e este era o Filho de Deus? Na mentalidade judaica, isto era impensável. Além disso, este anúncio era feito no meio de perseguições e quase todos os apóstolos morreram mártires por causa disso. Deveria ter sido uma experiência de tal modo forte, que os obrigava a não estar calados, mesmo à custa da própria vida. Esta para mim é uma prova muito grande da ressurreição.



Mas o que isso poderá dizer-me hoje? Faz-me crescer num optimismo sem fim, acreditar que serei feliz e completo, apesar de tudo. A ressurreição não é uma espécie de momento mágico que apaga a dor e a tristeza. O corpo de Jesus ressuscitado tem as marcas da paixão. É toda a nossa história, e a história de cada dia que pode ser hoje, já, transformada em Vida Nova, com criatividade, entrega e desejo de nos superarmos. São estes os sinais mais claros que podemos viver já como ressuscitados.


10 abril 2009

Mistério da paixão

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É inevitável que esta semana santa, aqui em Itália, esteja marcada pela tragédia que aconteceu no dia 6, em Aquila, Abruzzo. Tenho seguido muito o que vai acontecendo, não tanto por ter sentido o tremor de terra aqui em Roma, que não teve consequências para além do susto normal destas situações, mas por saber que a poucos quilómetros daqui vivem-se momentos de dor e sofrimento muito grandes.


O mistério da morte de Jesus não é, de modo nenhum, um acontecimento longínquo, que celebramos de forma mais ou menos tradicional. É algo que está muito presente em cada dia. Simplesmente, não há explicações para dar nestas alturas. Vive-se um silêncio de incompreensão, de tristeza, de não conseguir perceber o porquê. O que tenho rezado, para além de rezar pelas vítimas deste terremoto, é o modo como Jesus se torna presente.


Acredito num Deus que assumiu a nossa condição humana. Que levou até ao limite a nossa existência. É muito óbvio ver Jesus nos rostos de quem perdeu a família, a casa e todos os seus bens. Jesus morreu abandonado pelos seus amigos, foi despojado da sua dignidade, sofreu um julgamento injusto e uma morte atroz. Porque Ele quis que fosse assim. Para que percebesse e experimentasse na pele os meus pequeninos dramas e os dramas imensos de quem sofre, como estas pessoas de Aquila.


É isto que me fascina mais na minha fé. Um Deus totalmente próximo, que me percebe e acompanha em tudo o que me possa acontecer. Nisto há uma misteriosa fonte de esperança e Vida. Vendo as centenas de voluntários civis, não so os bombeiros ou a protecção civil, que trabalham e escavam, até com as próprias mãos, na tentativa desesperada de ainda encontrar alguém vivo... não é este um sinal de que a Vida e o Amor vence a morte? De como somos capazes de coisas grandiosas e que nos poêm tão fora de nós?

06 abril 2009

Porquê confessar-se?

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(Sugestão de Caramela)

Se bem que ainda tenho outros dois temas para falar, e penso fazê-lo estes dias, resolvi responder a este último desafio, por ser na semana santa, que é um momento em que muitos cristãos se aproximam da confissão. Poderia falar muitas coisas sobre o sacramento da confissão, ou da reconciliação - pessoalmente prefiro esta designação -, das suas origens, o desenvolvimento porque foi passando ao longo da história até à forma em que chegou a nós hoje, ou como se desenvolve esta celebração. Mas acho mais importante focar o ponto principal, porque nos confessamos?


É, de todos os sacramentos, provavelmente o mais difícil de entender e o mais criticado. Acho que também, infelizmente, más experiências com alguns confessores ajudam muito a isso. Com coisas que tenho ouvido, não me espanta que haja pessoas que ficam 20 anos sem se confessar! Num momento que já de si é de fragilidade e manifestação da própria vida, ser sujeito a críticas condenatórias ou interrogatórios morais é muito triste. Neste caso, acho que devia ser mais claro que as pessoas deveriam saber que têm o direito de parar a confissão e fazer queixa desse sacerdote a um seu superior. Talvez nisto apresente um tom mais duro, mas acredito muito que a reconciliação é um momento de acolhimento, paz e perdão, e que esta atitude se deve manter sempre, mesmo nos casos particulares em que o confessor achar que, para bem da pessoa, deve ser mais exigente com ela.


Um outro aspecto que normalmente vem apontado à confissão é o facto de ser suficiente confessar directamente a Deus os próprios pecados e assim ter o seu perdão. Estou de acordo, porque também acredito que Deus ouve e atende as orações e os pedidos que lhe fazemos e, se lhe pedimos perdão, Deus perdoa-nos, como é próprio do seu modo de ser e agir connosco. Mas concordar com isto não quer dizer que seja suficiente, e explico porquê.


O pecado não é ter faltado a uma regra do catálogo das nossas virtudes e do nosso bom comportamento. É falta de amor, que é o egoísmo: sempre que não amamos, que fomos egoístas, que fizemos de alguém objecto do nosso interesse, que não respeitámos a beleza de nós próprios e do mundo, no fundo, quando fomos mais pequenos do que os gestos amorosos nos pedem. E quando em todas estas coisas temos consciência de que somos responsáveis pela falta de qualidade de qualquer acto, palavra ou pensamento. Quando amamos menos, ou quando pecamos, não é só a minha própria consciência que fica mal, mas alguém ou alguma coisa do mundo perdeu algo com a minha falta de amor. As primeiras comunidades cristãs tinham este aspecto muito presente e, por isso, a confissão e o perdão eram públicos, porque o pecado de um afectava a todos. Entretanto, a confissão foi-se tornando algo mais privado até chegar ao que temos hoje, em que o padre é o representante da comunidade e das pessoas a quem directa ou indirectamente, como expliquei, deixamos de dar o nosso amor. Por isso, em relação a este primeiro aspecto, é muito mais forte o facto de ter alguém concreto a quem expor os pecados.


Ligado a isto, o facto de ter de exprimir verbalmente os aspectos mais "escuros" da nossa vida, obriga-nos a um exercicio de verdade connosco mesmos e reconhecer que há coisas em nós que não nos fazem bem e não nos libertam. E essa verdade faz-nos estar arrependidos e querer mudar. Não há verdadeira mudança na nossa vida se um dia não temos a coragem de enfrentar aquilo que não gostamos em nós. E podemos arrastar-nos meses e anos com angústias que poderíamos ter entregue e abandonado mais cedo. A verdade liberta.


Deixo para o fim aquilo que acredito ser o aspecto mais rico e central da confissão. Não é fazer e dizer uma lista de pecados, mas é sobretudo receber o perdão e a paz. Creio que há poucos dons que desejemos com tanta intensidade. Perdoar-nos a nós próprios e aos outros, ser perdoado por alguém é das experiências que mais nos constroem como pessoas. E a paz, no nosso coração, na nossa consciência, nas nossas relações. E sendo dons que Deus nos dá, então são-nos dados em modo superabundante. O sacerdote ouve os nossos pecados e faz de instrumento visível do acolhimento, do perdão e da paz que Deus dá.


Continuo sempre a insistir no facto de que não somos só pensamento. Somos palavras, gestos, toques, sons. Confessar-se só a Deus não nos ajuda a viver o perdão em modo completo e abençoado. Uma palavra de compreensão, ajuda e salvação pode ser muito forte no reconstruir e recomeçar a nossa Vida. Recomeçar, mais livres, mais perfeitos, é por isso que nos confessamos.

05 abril 2009

Semana Santa

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Hoje, Domingo de Ramos, começa a semana santa, na qual se celebram os acontecimentos centrais da fé cristã, a morte e a ressurreição de Jesus. É um tempo particular e forte, que tenho sempre a sensação que não vivo com a intensidade que deveria viver. Ao menos, este ano é muito desejo meu que possa ser um tempo de uma interioridade grande e proximidade de um mistério que me diz muito mais do que posso imaginar.


Acompanhar Jesus na dor, na entrega, na morte e na alegria da Vida é fazer uma viagem pelos meus espaços ausentes, onde não sou capaz de encontrar um rumo certo dos desejos que tenho de ser mais santo e mais perfeito. Sinto-me longe disso e quase me assusta tocar a perfeição de Deus, sabendo que isso implica mudar muitas coisas em mim.


Talvez o grande segredo seja um silencioso caminhar através de incompreensões, solidões e derrotas. Aquelas que assombram o nosso presente e o nosso futuro. Viver com isto presente faz tocar a terra na sua dureza e na sua beleza. Mas assim a Vida tem capacidade de ser verdadeiramente transformadora, sem limites, sem medos, sem egoísmos. Desejo muito ter uma Páscoa assim.


Boa Semana Santa!

03 abril 2009

Perdoar

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A experiência do perdão é algo que na nossa Vida experimentamos como uma das maiores oportunidades de começar algo novo. Vivemos sempre muito presos às coisas que nos entristecem, em nós e nos outros. E tantas vezes nos habituamos a considerar isto já um estado habitual. Impressiona-me como podemos conviver dias, meses, ou anos a fio com sentimentos que bloqueiam relações e não nos libertam.

Perdoar não é esquecer e é muito difícil recomeçar a unir laços que se romperam. Talvez pensemos que é ingénuo da nossa parte fazer tudo como se aquilo que ontem nos fez sofrer, não existisse mais. Contudo, o chamamento do perdão leva-nos a qualquer coisa parecida com isto.


Creio que uma história, quer individual, quer relacional que, a certo momento, vem tocada pelo perdão, não significa recomeçar do zero, mas agarrar no momento presente e fazê-lo semente de uma vida mais iluminada. Não podemos ignorar o mal que fazemos a nós ou aos outros. Mas chega um dia em percebemos que não vale a pena insistir na tristeza. Afinal a Vida merece muito mais, e nós merecemos muito mais.

02 abril 2009

Silêncios

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São tantos os momentos em que ansiamos poder parar, descansar, reflectir sobre o que andamos a fazer, tocar a profundidade da vida. Contudo, se bem que as correrias normalmente não ajudam a ter tempo para isso, quando temos essa possibilidade assustamo-nos.


Porque é que o silêncio atrai e assusta? Não há nada mais desejado do que querermos ter a vida entre mãos. Talvez a nossa grande tentação seja estar à altura de todos os acontecimentos. Por isso, sabemos todas as notícias e estamos na crista da onda nas novas tecnologias de informação. Mas é tudo ruídos, e a vida corre à nossa frente, sem termos sequer a capacidade de levantar os olhos e as mãos e lhe acenar um olá.


Se tivessemos pela frente três ou quatro dias, uma semana ou um mês desligados de tudo, não saberíamos o que fazer. Até arranjar pensamentos profundos para fazer durante uma hora não é fácil. Já estaríamos a programar coisas ou a pensar em acontecimentos passados. E o presente? Onde posso estar e como me posso encontrar? Desejo tanto poder ter um espaço em que respire ar puro sem me perguntar de onde sopra o vento. E não posso ter medo desse espaço.
 

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