
(sugestão de Helena)
Lembro-me de ter lido, já há vários anos, um livro de François Varillon, onde ele falava deste tema. O episódio passava-se entre ele e uma jovem que estava já em fase terminal de cancro e que lhe dizia: "Não percebo e não consigo aceitar". O padre respondeu: "Eu também não percebo e não consigo aceitar". Foi uma revelação para mim, porque diante de questões tão difíceis, o melhor é estar calado e não fazer discursos fáceis que acabam quase sempre, na minha opinião, por ser um insulto a quem sofre, como se alguém falasse de fora e desse uma solução irreal ao sofrimento.
A pergunta é se a dor é necessária para significar a Vida, ou se é uma necessidade do homem. Sim, é uma necessidade, simplesmente não nos podemos iludir e pensar que a Vida poderia ser perfeita, que estamos livres de todos os perigos e protegidos por uma espécie de mão divina que evita o mal. Não é fácil falar destes temas, sem nos perguntarmos o porquê, se no fundo a criação é má, se Deus abandonou o mundo, se estamos a ser castigados. É o drama que vemos todos os dias nas notícias, o sofrimento causado e a dor que atinge aqueles que não têm culpa. Estamos tão habituados a isso que não nos choca o terremoto nas Filipinas ou a guerra no Congo. É pena que aconteça, mas não podemos fazer nada. Já nos questionamos mais com a doença de alguém conhecido ou um familiar. Finalmente, não suportamos e ficamos aterrorizados com ideia de confrontar a própria dor na primeira pessoa...
A dor e o sofrimento fazem parte da Vida. É inexplicável e causa-nos tristeza e desespero. De onde vem e para que serve? Há um sofrimento causado pelas nossas más escolhas, que nos ferem a nós próprios ou aos outros. Mais cedo ou mais tarde, sabemos que teremos as consequências da nossa falta de verdade e do nosso egoísmo. A um nível mais global, a liberdade de outras pessoas também causa sofrimento, e quem tem mais poder abusa dos mais fracos. E existe o nível da própria natureza, as células e os vírus que destroem o corpo, ou os fenómenos naturais que destroem em grandes dimensões.
Custou-me sempre entender esta frase: a origem do mal e da dor está na nossa liberdade limitada. Em relação a mim próprio e aos outros, consigo perceber o que isso quer dizer. Tenho mais dificuldade em perceber o porquê do sofrimento causado por outras potências, humanas ou naturais, quando há inocentes que sofrem. A ciência, a política, a economia e a sociologia poderão dar muitas justificações. O mal simplesmente acontece e é na minha vida que o terei de enfrentar. Como, com que intenção? Para perder tuda na mesma, quando chegar o fim? Precisamos de outras respostas.
Não falo explicitamente da resposta da fé e da religião. Prefiro dizer aquilo que qualquer pessoa, crente ou não crente, poderá perceber. A resposta da fé é a que toma este mesmo dinamismo e a formula numa linguagem própria.
Frente à dor, como a condição natural e inevitável da Vida, sou desafiado a dar uma resposta. Que pode ser fugir, ficar indiferente, desistir, lutar, aceitar, amar... Na minha vida passei por todas estas respostas. Há uma atitude que me iluminou mais: Diante da dor e da morte, como poderei estar como sou, como posso fazer a minha casa num mundo que não percebo e me custa aceitar? Falei há tempos da imagem do labirinto. A questão não é tentar uma saída frustrante do labirinto onde nos encontramos, mas sim descobrir o modo de o habitar como sou e com o muito ou o pouco que tenho para dar.
Todos os acontecimentos são uma expressão da Vida. Tal como as alegrias mais contagiantes de ter encontrado o que se quer, de poder tocar com as mãos o tesouro procurado, também a dor nos fala da mesma força da Vida. É nos extremos que a Vida se mostra com toda a sua força e potência. É mais fácil perceber isto na alegria, mas a Vida aparece-nos à frente nua e crua, violentamente, quando vemos que a podemos perder e não podemos consentir isso. É o momento de decidir amar com todas as forças o que me é dado viver. É o dom mais precioso que tenho, e quando este é tão frágil, mais o devo amar. É o amor incompreendido, que vai além de si, que é paradoxal, que pode construir a casa no labirinto escuro em que vivo. É este a única fonte de luz.
Na linguagem da fé, Deus não é a origem do mal, nem Aquele que castiga o nosso egoísmo. A liberdade para Deus é tão importante, que Ele não consegue intervir com milagres, seria tirar-nos as possibilidades radicais da existência, a nossa marca divina no mundo. Deus é a força do amor que nos ajuda a viver o que vivemos. E esta força nunca ouvi dizer que algum dia não tivesse sido dada a quem a pediu. Jesus sofreu e morreu de forma muito violenta e injusta. Deus não fez nada para o ajudar. A humana-divindade de Deus teria de estar identificada connosco em tudo. Mas o Amor do Pai acompanhou Jesus e esteve presente com toda a força, até ao fim. Um Deus que não sofresse connosco não teria nada a dizer-nos sobre a Vida.