11 março 2009

Mudanças

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Já não é pouco pensarmos que em determinados momentos da Vida somos desafiados a mudar coisas importantes, quem em nós próprios, quer nos ritmos de vida, lugares e relações. É um abrir de um mundo novo, alegria e esperanças misturadas com medos e sensação de estar perdido. Somos obrigados a certas ansiedades, fazem parte da vida, se não queremos ficar sempre iguais e adormecidos.


Contudo, existem mudanças que podem preparar o coração para coisas maiores. Cada dia é um dom enorme, em que posso escolher acrescentar algo de bom ao mundo, dar uma cor diferente à minha paisagem, nem que seja uma flor pequena e escondida no meio de uma planície cheia de pedras. Mas é a que chama mais a atenção a quem passe por ela. Fizémos algo bonito hoje e isso não é indiferente, pode até mudar tudo!


É uma mudança suave, passos pequenos e simples, que toquem a profundidade do dom que é ser eu próprio. Rezo sempre descalço, porque é o momento em que decido caminhar em terreno sagrado, transformo o mundo, deixo-me ser transformado. Mudo por dentro e faço mudar por fora.

09 março 2009

Dócil

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Hoje numa conversa que tive, surgiu a palavra docilidade acerca do modo de estar na Vida. A pessoa que a referiu falava disso como a coisa com que mais se identificava. Fiquei a pensar nisso. Talvez porque tenha mexido mais comigo, e tocado num dos meus medos principais, uma daquelas coisas que nos assustamos só de pensar que possa vir a acontecer connosco.


Ter a docilidade como modo principal de estar na Vida desperta em nós a sensação de simplicidade, aceitação e acolhimento. Os doces são a alegria de uma refeição, dá a nota de festa, surpreende e causa elogios e bem-estar. Uma pessoa dócil tem esta mesma alegria como ponto de referência. E não quer dizer que seja ingénua, ou afastada da realidade, ou alguém que esteja continuamente a ser ultrapassada. Tem uma força especial... e fascinante.


O contrário do doce é o amargo. Uma pessoa amarga está continuamente desiludida, critica tudo e todos, nada está bem. E alguém que critica continuamente não ajuda a construir, parece que é o único que tem todas as soluções e, no fundo, é um incompreendido. Acredito que isso deve ser uma enorme fonte de tensão. Mais tarde ou mais cedo, acaba por não ser levado a sério. Já se sabe o discurso que virá... Uma pessoa dócil, pelo contrário, dá mais importância ao que a vida oferece, para a fazer própria e bonita, não destrói presentes logo à partida. E para isso é preciso coragem, coração e olhar grandes e alegria.

06 março 2009

O sentido da dor

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(sugestão de Helena)

Lembro-me de ter lido, já há vários anos, um livro de François Varillon, onde ele falava deste tema. O episódio passava-se entre ele e uma jovem que estava já em fase terminal de cancro e que lhe dizia: "Não percebo e não consigo aceitar". O padre respondeu: "Eu também não percebo e não consigo aceitar". Foi uma revelação para mim, porque diante de questões tão difíceis, o melhor é estar calado e não fazer discursos fáceis que acabam quase sempre, na minha opinião, por ser um insulto a quem sofre, como se alguém falasse de fora e desse uma solução irreal ao sofrimento.


A pergunta é se a dor é necessária para significar a Vida, ou se é uma necessidade do homem. Sim, é uma necessidade, simplesmente não nos podemos iludir e pensar que a Vida poderia ser perfeita, que estamos livres de todos os perigos e protegidos por uma espécie de mão divina que evita o mal. Não é fácil falar destes temas, sem nos perguntarmos o porquê, se no fundo a criação é má, se Deus abandonou o mundo, se estamos a ser castigados. É o drama que vemos todos os dias nas notícias, o sofrimento causado e a dor que atinge aqueles que não têm culpa. Estamos tão habituados a isso que não nos choca o terremoto nas Filipinas ou a guerra no Congo. É pena que aconteça, mas não podemos fazer nada. Já nos questionamos mais com a doença de alguém conhecido ou um familiar. Finalmente, não suportamos e ficamos aterrorizados com ideia de confrontar a própria dor na primeira pessoa...


A dor e o sofrimento fazem parte da Vida. É inexplicável e causa-nos tristeza e desespero. De onde vem e para que serve? Há um sofrimento causado pelas nossas más escolhas, que nos ferem a nós próprios ou aos outros. Mais cedo ou mais tarde, sabemos que teremos as consequências da nossa falta de verdade e do nosso egoísmo. A um nível mais global, a liberdade de outras pessoas também causa sofrimento, e quem tem mais poder abusa dos mais fracos. E existe o nível da própria natureza, as células e os vírus que destroem o corpo, ou os fenómenos naturais que destroem em grandes dimensões.


Custou-me sempre entender esta frase: a origem do mal e da dor está na nossa liberdade limitada. Em relação a mim próprio e aos outros, consigo perceber o que isso quer dizer. Tenho mais dificuldade em perceber o porquê do sofrimento causado por outras potências, humanas ou naturais, quando há inocentes que sofrem. A ciência, a política, a economia e a sociologia poderão dar muitas justificações. O mal simplesmente acontece e é na minha vida que o terei de enfrentar. Como, com que intenção? Para perder tuda na mesma, quando chegar o fim? Precisamos de outras respostas.


Não falo explicitamente da resposta da fé e da religião. Prefiro dizer aquilo que qualquer pessoa, crente ou não crente, poderá perceber. A resposta da fé é a que toma este mesmo dinamismo e a formula numa linguagem própria.


Frente à dor, como a condição natural e inevitável da Vida, sou desafiado a dar uma resposta. Que pode ser fugir, ficar indiferente, desistir, lutar, aceitar, amar... Na minha vida passei por todas estas respostas. Há uma atitude que me iluminou mais: Diante da dor e da morte, como poderei estar como sou, como posso fazer a minha casa num mundo que não percebo e me custa aceitar? Falei há tempos da imagem do labirinto. A questão não é tentar uma saída frustrante do labirinto onde nos encontramos, mas sim descobrir o modo de o habitar como sou e com o muito ou o pouco que tenho para dar.


Todos os acontecimentos são uma expressão da Vida. Tal como as alegrias mais contagiantes de ter encontrado o que se quer, de poder tocar com as mãos o tesouro procurado, também a dor nos fala da mesma força da Vida. É nos extremos que a Vida se mostra com toda a sua força e potência. É mais fácil perceber isto na alegria, mas a Vida aparece-nos à frente nua e crua, violentamente, quando vemos que a podemos perder e não podemos consentir isso. É o momento de decidir amar com todas as forças o que me é dado viver. É o dom mais precioso que tenho, e quando este é tão frágil, mais o devo amar. É o amor incompreendido, que vai além de si, que é paradoxal, que pode construir a casa no labirinto escuro em que vivo. É este a única fonte de luz.


Na linguagem da fé, Deus não é a origem do mal, nem Aquele que castiga o nosso egoísmo. A liberdade para Deus é tão importante, que Ele não consegue intervir com milagres, seria tirar-nos as possibilidades radicais da existência, a nossa marca divina no mundo. Deus é a força do amor que nos ajuda a viver o que vivemos. E esta força nunca ouvi dizer que algum dia não tivesse sido dada a quem a pediu. Jesus sofreu e morreu de forma muito violenta e injusta. Deus não fez nada para o ajudar. A humana-divindade de Deus teria de estar identificada connosco em tudo. Mas o Amor do Pai acompanhou Jesus e esteve presente com toda a força, até ao fim. Um Deus que não sofresse connosco não teria nada a dizer-nos sobre a Vida.

04 março 2009

161 - 5

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Resolvi aceitar mais um desafio e mesmo engraçado...! A menina bem comportada passou-me o seguinte desafio:

1 - Agarrar o livro mais próximo
2 - Abrir na pág. 161
3 - Procurar a quinta frase completa
4 - Colocar a frase no blog
5 - Indicar 5 pessoas para continuar a tarefa

Peguei no livro que tenho na mesinha de cabeceira, página 161, quinta frase completa:


"He was gifted the naive vision of the lovelorn and experiencied a simplified view whereby the only significant measure in the world was the straight line between lover and loved."


O livro é um romance de Niall Williams, "The fall of light".

Ainda não tinha chegado a esta página, mas fiquei impressionado. Que a única medida sifgnificativa do mundo é a linha entre o amante e o amado. Como, de facto, o Amor é a nossa medida, e funcionamos em referência a quem amamos e a como somos amados...gostei mesmo de ler isto!


E passo o desafio à Nônô, ao Nelson, à Kita, à Marta e à Ana.


Até ja! =)



03 março 2009

Dizer sim

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Quando aceitamos um pedido que alguém nos fez, ou quando assumimos um compromisso em relação a nós próprios, mesmo em coisas pequenas, dizemos sim. O sim é uma palavra poderosa. Fica-nos mal voltar atrás, significa um imprevisto ou uma incoerência. O sim implica-nos, a nossa Vida passa a contar com uma nova paisagem, que passamos a habitar e transformar.


O motor das nossas acções são as decisões. O agir ou o não-agir parte sempre de um sim, afirmado ou renunciado. É por isso que mesmo o não tem como referência o sim, tal como a sombra tem referência à luz, e o mal tem referência ao bem.


A minha questão tem sempre a ver com a qualidade do meu sim, porque também o podemos dizer ao mal ou à sombra. E ficamos menores. Mais tarde ou mais cedo nos damos conta se o sim que dissemos nos criou algo novo, que tenha a ver com o nossos sonhos de realização e felicidade, ou se ficou apenas por um momento imediato. Passou e tudo ficou na mesma, não acrescentei nada e, por isso, não cresci.

02 março 2009

O que precisamos

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Hoje tive uma aula impressionante sobre o tema Literatura e Teologia. Fiquei com a sensação que o mundo da escrita é extraordinariamente potente. E fiquei ainda mais preso à necessidade que tenho de escrever e finalmente pôr em palavras, imagens e sons tantos sentimentos do que acredito ser a Vida e o que ela nos pede.


Dizia este professor que um texto literário nos pôe a viver mundos e situações que nunca viveríamos... talvez nunca venha a estar preso, ou perder-me no deserto, ou amar até à morte. Mas a verdade é que, lendo estas coisas, acabo por as viver, nas mesmas alegrias e nas mesmas angústias. O meu mundo e a minha experiência é ampliada até ao impossível, ao que é ficção, imaginário, mas que se torna real. Numa hora posso viajar a sítios que nunca iria.


O fascinante das palavras é que nos transportam além do quotidiano, sem nos arrancar do momento presente. Explicam de maneira palpável o que sinto, sem o conseguir expressar. E maravilho-me com a capacidade de o Homem se transcender assim, não há abismo nem céu que resista ao poder da imaginação. E como esta é o espaço de certezas e acolhimento daquilo que não conseguimos explicar e daquilo que não queremos ver em nós.


01 março 2009

Amor próprio vs Egoísmo

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(sugestão de Tiago)

É um tema muito sugestivo. Normalmente, penso que o amor-próprio é uma versão do egoísmo, relacionado com o orgulho. Quando nas nossas relações algo nos fere, é o nosso amor-próprio que se revolta com a injustiça ou a falta de respeito. Atacaram a nossa dignidade, fizeram-nos sentir menores. E isso é desconfortável e faz-nos reagir. Tenho sempre a impressão que as motivações que nascem de sensações desagradáveis não são boas, e as acções que pomos em movimento através delas acabam por magoar e romper qualquer coisa.

Pode-se também pensar em amor-próprio como uma versão da auto-estima (um amigo meu disse-me um dia que esta palavra lhe causa arrepios e eu, pensando melhor sobre isso, também concordo com ele). Este amor-próprio nasce do desejo de nos afirmarmos naquilo que somos, de termos uma palavra a dizer, de nos sentirmos úteis. E quando isto não acontece, quando não somos reconhecidos, surgem de novo feridas e reacções desagradáveis.

Creio que pode haver um ponto de equilíbrio entre todas estas sensações. O amor-próprio está ligado a algo natural em nós, uma espécie de instinto de sobrevivência, para não desaparecer no mundo das relações. O grande segredo está no modo em como usamos esta nossa energia, em que somos felizes com aquilo que somos, temos e fazemos. No fundo como gostamos de nós e nos mostramos aos outros, como nos fazemos reconhecer e amar.

O egoísmo não é bom, o centro do mundo sou eu, e isso é uma fonte de tensão e desolação, porque simplemente a Vida e as suas circunstâncias, as minhas relações, não funcionam com interesses de ilhas isoladas, de querer controlar tudo e todos, mas segundo modos de comunicação e partilha, de ganhar e perder. Fico doente, os outros não fazem o que quero, o patrão não reconhece o meu valor, não tenho tempo para o que quero... e tudo isto estraga o meu mundo imaginário. Terei de viver o que sou de outra maneira.

A energia do amor-próprio deveria ser usada num dinamismo de humildade e simplicidade. Ser humilde não é apagar-se, mas é reconhecer a própria bondade e beleza, que é algo fundamental em cada um de nós e que nunca desaparece. E comunicar o que sou com simplicidade, com vontade de ser melhor e estar disponível. Um professor meu usa muitas vezes uma frase de Shakespeare que gosto muito: "Readiness is all". Estar pronto para tudo, para o que acontecer, sabendo que a minha capacidade de fazer o bem em todas as circunstâncias não desaparece.

Isto implica uma coragem gigantesca, que vive em perfeita harmonia com a humildade de saber que não posso dominar tudo, e a simplicidade de aceitar a Vida como oportunidade de me questionar e ver que coisas estou pronto para fazer. Este amor-próprio é extremamente criativo e corajoso, forte, e pode trazer muitos frutos àquilo que vivo com os outros.
 

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