17 janeiro 2009

Ainda sobre o amor

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Tentar falar do amor é sempre uma experiência forte, toca aquilo que em nós gurdamos num santuário próprio, é uma exploração de paisagens demasiado belas para as perdermos na linguagem, que sempre tira algo da sua verdade para nós.

Há dois aspectos que ligo a esta experiência de amar e ser amado. Um deles é o alto e o baixo, o outro é o dentro e o fora. De facto, no amor acontece a maior superação de nós mesmos, quando a nossa vida é de tal forma iluminada por outra pessoa, que identificamos os nossos dias e as nossas acções com uma entrega feliz a esta promessa realizada de que não estamos sozinhos. Por ser assim tão sublime, realizamo-nos no mais alto de nós mesmos, aquilo que sentimos, julgamos e decidimos tem uma referência intocável.

Mas o amor, por ser essencialmente estar-fora, é público, faz-me sair de mim, manifesto-me aos outros como presença realizada de algo conseguido. As pessoas que amam autenticamente são verdadeiros exemplos. Todo o amor que se esconde, que é privado, que não se assume, poderá ser uma experiência forte, mas se não espalha dom à sua volta, é porque algo não funciona. Por isso o amor verdadeiro nos faz tão transparentes e autênticos.

16 janeiro 2009

Estar apaixonado

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Li estes dias um artigo sobre o amor que me deixou estarrecido. Amor e violência. A grande questão que aparece é como até que ponto fazemos uma imagem do amor demasiado perfeita, quando este é vivido entre os nossos limites e fragilidades quotidianas. Por sermos de tal maneira inseridos em dinamismos de bem e outros de mal, entre doação e egoísmo, entre promessa e desilusão, o amor tem estes dois lados, e sendo um sentimento que arrasta tanto da nossa personalidade e existência, tem efeitos tão grandiosos como devastadores.

Se uma relação com outro, que chamo amor, começa com um fascínio total que prende cada olhar, cada gesto e pensamento, sendo que a vida de um se refere quase exclusivamente à vida do outro, acontece também que esta promessa luminosa se torne com o passar do tempo um querer limitar o outro ao meu mundo, mesmo naquilo que entendo serem os sentimentos perfeitos. Até que o outro poderá ser o meu objecto, e eu o objecto do outro, conhecido no mais íntimo, explorado em cada detalhe de mim. Até que tal situação se torna impossível, intolerável, e começa a desconfiança, a acusação, a violência...

Muitas histórias pessoais e talvez as nossas próprias histórias nos façam ver que algo disto acontece. E que fazer? Amar é um risco, é ser igual, é ter tudo e não ter nada, um olhar todos os dias novo e cheio de surpresas. Precisamos tanto cuidar o nosso olhar quendo vemos quem amamos...


PS: Tenho apenas a referência da tradução italiana do artigo: SALMANN, E. – “Amore e violenza”, in : Presenza di spirito, il cristianesimo come gesto e pensiero. Padova, Messaggero di S. Antonio, 2000, p. 466.

14 janeiro 2009

Decisão

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Hoje numa aula ouvi algo que me fez pensar e me marcou muito. Creio que nisto está muito daquilo que se pode dizer e, mais que isso, fazer, na nossa Vida. Que uma decisão parte da nossa liberdade que é interpelada por qualquer coisa exterior. Essa coisa é algo que nos é oferecido como dom e através do qual percebemos, julgamos e decidimos o nosso agir.


O que é mais central na decisão é que esta é situada num momento da nossa história muito preciso. E este momento não pode ser repetido da mesma exacta maneira. Mesmo que determinada decisão acabe por não ter consequências, eu próprio já me pus como presente a esse momento e algo nasceu, cresceu ou morreu em mim.


Numa decisão, por mais pequena que seja, joga-se a minha liberdade de modo completo, mesmo que seja em coisas comuns. Esta é a raiz da seriedade - e seriedade neste sentido, não é o oposto de alegria - que ponho em todas as minhas acções. Sobretudo se o dom que me interpela for beleza, amizade, disponibilidade, aí posso dar ao meu dia uma cor minha mais autêntica.

12 janeiro 2009

Ajuizar

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O juízo tem a ver com a verdade. Ajuizamos normalmente para dizer se uma coisa é assim ou não, se existe ou não existe, se determinada pessoa tem esta ou aquela característica ou atitude. É mais do que um dar-se conta do que é, vai além do que me apercebo, implica já qualquer coisa da minha parte, uma leitura ou uma opinião sobre o mundo e as pessoas. Ajuizar segundo a verdade não significa dizer sempre bem, por vezes implica criticar, que pode fazer doer.

Há algumas coisas que normalmente criticamos nos juízos, e sempre estamos a cair nisso: a pressa e a injustiça. Fazer um juízo correcto, que diga a verdade das coisas, que as manifeste como são, implica paciência e maturação, considerar várias perspectivas, não só a minha, mas também - e às vezes, sobretudo - a do outro.

Um juízo apressado muitas vezes é cheio de preconceitos, acabamos por dizer aquilo que todos dizem, sem dizer nada de próprio. E podemos ser injustos por causa disso, primeiro em relação a nós, porque não fomos autênticos e depois em relação aos outros, porque não lhe demos oportunidade de ser o que são.

11 janeiro 2009

Inteligência

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Normalmente associamos inteligência e cultura. Também é verdade que o saber muito de vários assuntos ajuda a esclarecer e conhecer diversas perspectivas e a pensar as coisas de outra forma. Porém, conheço muitas pessoas que não estudaram muito e, contudo, considero-as muito inteligentes.

A inteligência tem a ver com o modo como tornamos nosso o mundo que está à nossa volta. O que nos acontece é que, durante o dia, somos quase submergidos por cores, sons, temperaturas, cheiros e superfícies. Por vezes de forma tão intensa que acabamos por não sentir nada, e não temos em nós qualquer espécie de eco. Por outro lado, um som ou uma cor pode fazer parar o tempo e deixar-nos ficar suspensos no ar sem podermos acreditar no que nos aconteceu.

Ser inteligente é perceber que aquilo que me acontece, aquilo que ouço, vejo, toco com as mãos e os pés, é o meu mundo hoje, o espaço onde estou e sou. Por isso, nada do que acontece é indiferente, tudo esconde de alguma maneira perguntas e respostas. Saber fazê-las é uma arte...

10 janeiro 2009

À nossa volta

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Aqui apresento uma pequena parte de um filme italiano que vi há tempos e que gostei muito e aconselho vivamente: Il postino, de Michael Radford. Esta cena faz-me cair na conta de como aquilo que está à nossa volta torna as nossas histórias de cada dia cheias de vida, movimento e poesia.





No fundo, aquilo que muitas vezes nos traz insatisfação é não poder ter o tempo para assinalar a eternidade do que somos e do que nos acontece. Seria tão bom podemos escutar o mundo e deixar que ele nos diga os seus sentimentos.

07 janeiro 2009

Encanto

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É uma pena que um dia possamos deixar de estar encantados com a nossa Vida. Também é verdade que há alturas em que as coisas simplesmente não nos correm como desejaríamos, muitas vezes sem termos feito nada por isso. Na teoria, sabemos bem que a bonança sucede a tempestade, e como tantos momentos de crise acabaram por ser essenciais para o nosso crescimento.

Olhar com encanto uma contrariedade parece quase uma utopia. Ou uma ingenuidade acima de toda a razoabilidade. Porém, na nossa própria história e na história de tantas pessoas sabemos que é possível acontecer assim.

Precisamos muitas vezes de ser gigantes no nosso olhar, com um enorme esforço, quando os nossos horizontes são diminutos. Mas este olhar reduzido, sabemos bem, não é o nosso modo preferido de olhar.

 

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