12 fevereiro 2008

Ver como por um espelho

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Esta é uma expressão do hino da Caridade, da 1a Carta aos Coríntios, que expressa aquela que é a nossa condição presente, de termos uma imagem de nós e de Deus que é marcada pela falta de certeza do conhecimento.

Por ser falta de certeza, não quer dizer que não haja nenhum tipo de conhecimento, mas sim uma intuição que se leva por companheira de viagem. Que tende a ser esclarecida ou escondida. A riqueza da Vida está no progresso que fazemos ou, ao menos, no desejo de progredir para uma luz mais total sobre nós próprios. Talvez seja este o grande desafio da Quaresma.

É inevitável olhar a Quaresma como um tempo incompleto, às vezes cinzento... porque também somos assim. Mas pergunto-me tantas vezes quando serei capaz de me entregar completamente à luz de Deus sobre mim... de deixar que seja Ele a dizer-me a minha imagem... porque Ele pode dizê-la, e só Ele.

Se for assim, um salto no escuro de um conhecimento que fala de mim, quando não percebo tudo o que sou... encho o desejo de algumas certezas e ainda maiores surpresas, e isso é muito iluminador.

11 fevereiro 2008

As imagens de mim

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O que poderia pôr como modelo de mim mesmo, para o qual olhasse quando me quisesse construir ou mostrar ao meu futuro?

O que tenho já presente daria para pintar um mundo inteiro... de facto, somos complexos e não paramos de nos associar com tantas histórias e lugares. Sobretudo com pessoas, aí novos mundos às vezes tão impossíveis de alcançar. Não dominamos o que somos, a nossa história é muito vasta.

Isto acontece se fizer uma paragem séria no meu presente e olho para o que sou... cores bonitas, acima de tudo... e agradeço. Para a frente ainda é mais complicado. Se sou capaz de prever muito dos meus programas, não tenho certezas absolutas do minuto que vem já a seguir. Há um tempo futuro que faço, mas outro, o mais importante, é-me dado, com todas as suas circunstâncias... a esse posso reagir, ferido, admirado. agradecido, revoltado...

O tempo não cabe nas minhas medidas... porque tem um outro Senhor que assiste de sempre e para sempre... se alguma programação há na minha Vida, faz todo o sentido que seja pensada amorosamente... as provas depois de tudo o que acontece fazem-me viver nessa esperança.

10 fevereiro 2008

Tentação

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Tentação é uma palavra que nos traz sempre algum medo... talvez por ser a nossa experiência de fragilidade e saber que tantas vezes fazemos e sentimos aquilo que não queremos. Tem a ver com o facto de sermos incoerentes com os ideais e isso por vezes cansa-nos e desgasta-nos.

Mas não nos devemos desanimar, aliás, por sermos frágeis é que podemos buscar as oportunidades de sermos fortes até ao limite de nós próprios. E porque somos feitos assim, temos de viver com isso de uma forma transformada.

Classicamente, também a partir do Evangelho, há três fundos de tentação: o ter, o ser e o poder. Talvez a história da criação seja o reflexo dos nossos gestos, de estender a mão e querer apanhar um fruto que não nos pertence: e tentamos ser outros diferentes de nós, tentamos ter aquilo que não precisamos e não nos completa, e tentamos ter poder e dominar sobre os outros e as situações.

Mas devemos aprender a ser simples, a ter confiança e a poder servir. Isso é o que mais está ao nosso alcance. Desenvolver num sentido positivo o impulso da tentação, realiza-nos mais do que tentar completar-se com ilusões e frustrações de curto, médio, ou longo prazo.

07 fevereiro 2008

Fazer com alegria

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É bom rodear-nos de coisas bonitas e alegres... que não servem para esquecer sombras, mas para lembrar que estas não são tudo.

Hoje pensei em últimas palavras, e nas coisas que posso dizer que tenho como definitivas... são muito poucas, ou talvez nenhumas... Há uma parte da nossa experiência de ser completos, de verdadeiras formas de amar e ser amado, de certezas de caminhos a percorrer. Mas isto tem qualquer coisa de tão definitivo como sentir o vento.

É uma experiência de liberdade e confiança. É belo sentir o vento no alto da montanha, cheguei ao topo das minhas considerações e à resolução dos grandes dilemas da Vida. Mas passa depressa, fica o regressar de coração cheio as coisas de sempre, com uma nostalgia de ter voado para longe.

Porque o meu definitivo tem uma parte eterna, que nunca posso considerar minha... alguns chamam sorte, fado ou destino... Prefiro dizer que é uma eternidade presente. Vivo no meio de cores que atravessam transparências, e com as quais vivo feliz.

06 fevereiro 2008

Quaresma

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A Quaresma começa com uma celebração bastante particular, que é a imposição de cinzas, como sinal de conversão e penitência. É um gesto muito antigo, que vem já da tradição judaica e que se fazia em momentos de dor ou de arrependimento.

O sentido da cinza hoje tem a ver sobretudo com a humildade. De reconhecer que, no meio de todas as nossas possibilidades, por vezes fazemos coisas que não nos deixam bem e reconhecemos que acabamos por não ser completos.

As cinzas fazem-nos ter consciência de que somos criaturas feitas de terra, mas que isso não significa um humilhar-se gratuito. Aprendemos sobretudo a perceber que é a terra que Deus tomou nas mãos e nos fez. Se é sinal de humildade, é necessariamente também sinal de uma predilecção especial de Deus por nós, que nos faz como sua obra-prima.

Daí que começa hoje um caminho desde a nossa origem, sabendo o que somos, terra, mas em direcção ao que já somos e seremos completamente, Luz.

05 fevereiro 2008

Gratuidade

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Hoje um agradecimento cansado... de ter chegado a casa e ter encontrado conforto. Não um espaço habitual, mas qualquer coisa de novo e ao mesmo tempo esperado. Os caminhos de cada dia vão-nos revelando surpresas, gestos de um rosto que imaginamos ser a nossa mais perfeita beleza.

Há dentro de nós uma sede própria do deserto, mas não aquele que nos leva à solidão. É esta irresistível paisagem de poder estar entre pequenas flores e regatos de água, entre paisagens impossíveis. Para quem deseja unir o que vive com aquilo que realmente quer, faz acontecer um milagre.

Que muitas vezes, de tão grande e conseguido, nos parece gigante para os nossos pequenos abraços. Talvez por isso estamos aconchegados em abraços bem maiores....

02 fevereiro 2008

O que me pertence

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Quando espero alguma coisa ou alguém, vivo o tempo de uma forma muito particular. De certa maneira, não sou dono do meu tempo. Porque está dependente de uma hora marcada, de uma chegada ou de uma partida. Tem a ver com qualquer coisa fora de mim. E isso ocupa-me por dentro.

A esperança cristã tem esta característica de me fazer viver um tempo que me ultrapassa, mas que não deixa de ser aquele que tenho. De algum modo, é esperar uma presença que conheço, mas que não possuo.

Seria uma fonte de tensão pretender marcar corações segundo a minha medida... porque não está em mim decidir a chegada dos outros na minha Vida. Mas aquilo que me pertence é ter o melhor lugar e as melhores flores para dar, quando o que espero se torna Presença e me bate à porta de casa.
 

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