08 dezembro 2006

Roma

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Hoje escrevo sobre a cidade que me acolhe. Onde vou chegando cada vez mais dentro. Passo pelas ruas cheias de pessoas de todo o mundo. O ruído dos carros, das vozes, das motas... uma Vida em movimento constante, dia e noite.

Viver e morar numa cidade de catálogo turístico tem uma beleza especial. Por saber que não se passam aqui apenas alguns dias de sonho, mas alguns anos que vão contruindo o meu sonho.

E sinto-me diminuto nos milhares de anos destas pedras, pisadas por imperadores e soldados, peregerinos de todos os tempos, por Pedro, Paulo, Inácio de Loiola, Xavier... Sinto-me esmagado com a força da história dos homens, que aqui conheceu tanto do que hoje é. Um antigo centro de um Império, hoje o centro da Igreja a que sou chamado. Tremenda na sua grandeza.

E a luz cada vez mais impossível, uma cidade que todos os dias é ouro, prata, diamante, pedras preciosas, espelho... Que até dói de tanta beleza!

Chegar a esta Cidade para aqui ficar é um dom, um privilégio que agradeço constantemente. Porque passa por mim de forma inexplicável toda uma Vida passada, que me faz viver um presente cada vez mais intenso e entregue.

07 dezembro 2006

O meu espelho

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Não fujo à minha imagem. Porque gosto dela assim.

Fazemos tantas coisas pelos outros, quando somos movidos por grandes ideais, ou mesmo pelos laços naturais que se vão criando entre nós. Sabemos ser verdadeiramente amigos, quando somos criativos numa amizade e descobrimos o tanto que podemos fazer na vida uns dos outros. Isso é muito especial.

Os outros são sempre espelho daquilo que somos e fazemos e a qualidade e verdade das nossas relações dependem de como encaramos o nosso próprio modo de estar perante a Vida. O coração exprime-se como é, quando não há defesas nem barreiras à nossa autenticidade.

Cultivar a minha liberdade leva-me a poder olhar para mim mesmo a partir do que faço. E vou percebendo que o que faço parte do que sou. E se faço coisas bonitas, é porque tenho algo de bonito.

E dou tempo a mim mesmo, para me olhar e admirar. Sem vaidade, mas também sem falsa modéstia. Amo o que sou, gosto de me olhar, gosto de me ter como o meu maior amigo. Se todos os dias tiver um gesto criativo comigo mesmo, é impossível não ser melhor pessoa. =)

06 dezembro 2006

Estupefacto

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Alguns dias é mais complicado lidar com os limites. Primeiro os meus, por aquilo que, por mais que pense e me esforce, não consigo atingir na plenitude que desejo. Caminho para lá, e só o desejo de olhar para a meta me leva como essa mão invísivel que sabe melhor que eu mesmo para que coisas sou criado.

Há depois estes limites da rua. Aqui por Roma é tão comum ver imagens de crianças assim. E não se pode fazer muito, nem sequer entendo o seu mundo, o que está por detrás das histórias familiares. E depois, mais fundo, o que está por detrás da História da Humanidade, perfeita e criada para ser plena no Amor. Mas à nossa volta tudo parece ser tão impossível...

Estes olhos que contemplo, como tantos outros, de todos os dias, são verdadeiramente os olhos de Deus que vem até nós, e que celebramos neste tempo de Advento. Mas parece tão fácil este discurso... Porque é que preparo uma Vi(n)da que salvará tudo, quando, depois do Natal, não vou deixar de ser confrontado com os mesmos olhares?

Acredito que seja um convite à minha não-tentativa-de-tentar-perceber. À minha humildade. No fundo, existe o mistério de Deus, nascido, morto e ressuscitado por mim. Apesar de tudo. Estes olhares são o mistério mais profundo de Deus-no-mundo. Apesar de tudo.

05 dezembro 2006

Procuro

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No fim da tarde. Quando a luz é mais do que cor e se vai transformando nos passos que regressam a casa. Ainda não há luzes na rua, só trago comigo os quadros pintados ao longo do dia, distraídos nos mil pensamentos de um coração que precisa descansar.

Abro a porta e não me atrevo a entrar. As escadas da porta são o trono, o chão, o tapete mágico... de onde vejo o mundo e o que a vida me fez. Um mundo no qual viajo e não consigo trazer a mim, foge-me em cada porta que atravesso, tento levar-me no desejo inexprimível de voar sem fim e sem destino.

Ficaria eternamente nesta espera de perceber o meu destino, de saber porque entro e saio das casas. De perceber o que procuro quando paro e quando penso que sei voar. Quando acredito que já soube voar.

Acende-se a luz dos candeeiros. E volto ao mundo das portas, das casas e das cadeiras confortáveis. Acabei de passar pelo Mundo Antigo, aquele Eterno que me sonhou desde sempre. E existo... persisto... resisto... consisto neste Amor que me criou.

04 dezembro 2006

Luz

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Encanto-me com a luz. Sem olhar a mais nada do que maravilhar-me com este poder indecifrável de tornar visíveis a meus olhos todas as coisas.

Se há algo que está ligado com a minha própria percepção dos acontecimentos da Vida, esse algo é a luz. Às vezes tão suave e encantadora que não se pode fazer mais nada que contemplá-la. Outras vezes tão esclarecedora, de me apresentar diante dos meus próprios mistérios. Não se vêem corações e rostos às escuras.

E todos os momentos são iluminados, às vezes de forma tão dolorosa, mas a luz é verdadeira. Se há algo que une o bem e o mal, é a luz que permite ter este mesmo olhar. Para mim, gosto desta luz que abraça o bem e o mal, para fazer de tudo um só Bem.

E há pessoas que me falam desta luz. Que são para elas mesmas, que me permitem sê-la para elas, que são também para mim. Porque me descobrem em coisas tão essenciais, em que se fica sem defesas e só no desejo de ser mais verdadeiro.

O Amor de Deus na vida das pessoas tem algo a ver com isto.

02 dezembro 2006

O Bem e o Mal

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Às vezes é mesmo um cansaço... fazemos uma opção clara pelo Bem, aquilo que de bom queremos para nós e para os de quem gostamos. E somos craitivos nos modos de amar, vamo-nos realizando como pessoas entregues a coisas muito positivas da Vida.

Apesar de não chegarmos a tudo e a todos. É um facto que o mundo continua a girar, apesar dos nossos esforços, às vezes pensados tão pequenos e inúteis. No fundo, é o suficiente para mudar qualquer coisa à minha volta. Mas não chega.

Apesar de não querermos ver para além da Beleza. Há pessoas que, de facto, não vale a pena, não iriam perceber o meu amor. E aquelas que não gostam de mim, não aceitariam nenhum dos meus tesouros. Sou bom para quem gosta de mim. Mas não chega.

Apesar de não querermos ver o bem para além do estar, e gostar de estar bem, reunir com o suor do rosto aquilo que mereço por ter feito por isso. Mas não chega.

E continuo cegamente agarrado ao bem... Mas não chega. Porque é que me custa ver algum tipo de mal nos limites do meu bem? Porque é que sinto esta atracção irresistível a querer atingir um Bem maior que o meu? Porque é que nunca digo que já é suficiente?

O Bem transcende-nos completamente. Ser fiel ao meu Bem só me faz querer sair da minha casa quente e aconchegada e abrir a porta, enfrentar o vento e a chuva. Se conseguir sair de casa, acho que quer dizer que o meu Bem é verdadeiro.

01 dezembro 2006

Escrita

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Encontrei um livro de frases soltas. Sem nexo aparente, algumas frases sublimes, outras incompreensíveis, outras apenas se resumiam a uma palavra. Umas tinham datas precisas, e outras parecia que permaneciam durante semanas... e até meses.

Não foi preciso pensar nem investigar muito, era a história de uma Vida. Também a minha própria história.

Passar para o papel as impressões digitais da Vida, para que nunca se apaguem, para que sejam públicas a meus olhos e aos olhos de quem as puder vir a ler. São sempre palavras de terra, pedra, mar, nuvens e sol. Tocadas com abraço, com lágrimas ou simplesmente deixadas no abandono de não darem nehuma resposta.

Escrever é para mim o mistério de deixar marcado o instinto de perceber a minha Viagem mais profunda. Percebo o que me move, o caminho que quero fazer, e vivo nesta certeza insegura de não saber o que amanhã será escrito na página seguinte. Não interessa muito.

Daqui a um tempo, a muito tempo, saberei ler o que escrevi, daquilo que a Vida me fez e foi ensinando. E é isso que me faz pensar que nada é banal, quando se exprime em profundidade.
 

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