Mostrar mensagens com a etiqueta oração. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta oração. Mostrar todas as mensagens

20 março 2010

A paz de Cristo

8comentários

Sugestão de anónimo

Como discernir a paz de Cristo? Este tema necessariamente será dirigido a quem já tem uma vida de fé e oração e pretende encontrar modos e critérios para descobrir esta paz que vem do encontro com Jesus.

Especialmente na oração, não há receitas infalíveis. Tal como, com os nossos amigos, temos um modo específico e particular de nos relacionarmos com cada pessoa, do mesmo modo, o encontro com Deus na oração é extremamente pessoal. Cada um terá de encontrar o seu próprio modo de rezar, de acordo com a sua sensibilidade, carácter, estilo de vida e circunstâncias. Há pessoas que rezam a partir dos acontecimentos da vida, ou a partir das leituras do dia, outras que preferem silêncio sem grandes palavras, outras que pedem luz para algumas decisões que têm que tomar.

Em todas estas circunstâncias, há algo comum que é importante ter em conta. O primeiro aspecto é que a oração consiste num encontro com Alguém que quer estar connosco numa relação de transparência, verdade, intimidade e amor. Não estamos diante de um juiz ou de um mago, mas de alguém que acolhe e ajuda a transformar, orienta tudo aquilo que temos de bom para um horizonte maior. O segundo aspecto é que a boa oração é uma graça que não depende só de nós. O desejo e o tempo que temos à disposição para a oração é essencial, mas os resultados da oração partem de Deus. E Deus tem os seus tempos e modos de se comunicar, que muitas vezes estão além das nossas expectativas. Esperar que a oração nos traga aquilo que queremos corre o risco de transformar o encontro numa espécie de mercado e retribuição, o que tira a gratuidade e a surpresa. A oração, por isso, é um encontro de disponibilidade para aquilo que for, um exercício completo de liberdade.

Um dos frutos da oração é a paz. E como fruto que é, devemos pedi-la constantemente. Não como um direito que temos, mas como disposição total de abertura a recebê-la. Receber a paz de Cristo não é criar um espaço de tranquilidade psicológica, que nos poderia fazer ficar numa ilha desligada da vida, mas receber a paz como dom que transforma o nosso ser e o nosso agir.

Vejo muitas vezes a necessidade que as pessoas têm de um espaço de paz e existem imensos locais que a propõem, do tipo da meditação transcendental baseada em métodos orientais. E isto é bom. Porém, também tenho visto que estas experiências correm o risco de criar o efeito de uma ilha de tempo e espaço desligada do resto. É um processo psicológico mais que um encontro. E quando se sai desta ilha, evita-se a todo o custo confrontar-se com as "más energias" dos outros, quando o óbvio seria que a paz que se tem fosse motor para afrontar tudo e todos num desejo de curar feridas e estabelecer relações de verdade.

A paz que vem de Jesus pode ser encontrada também num tipo de meditação com métodos orientais. É também o meu preferido, mas importa perceber antes que não é uma paz conseguida, mas uma paz recebida.  Quais são então os critérios que nos permitem discernir a paz que vem de Cristo?

É uma paz que cura as nossas feridas, porque é voz de perdão e acolhimento total da nossa pessoa. Quem se sente amado sem condições sai transformado, deixa para trás os bloqueios e acredita na própria vida como caminho concreto de bem. Quem tem esta paz não se isola do mundo, mas quer fazer aos outros a mesma experiência de perdão. Não condena facilmente, mas ajuda com verdade. A paz faz-nos estar centrados que as coisas que nos acontecem, por piores que sejam, não nos distraem do essencial, aprendemos a relativizar tudo e colocar cada coisa num projecto de crescimento.

É uma distância que aproxima e faz agir. Perante cada coisa, pergunto-me: e agora? Que possibilidade de amar me é dada? São as pessoas de paz que não desesperam, mas têm a força de encontrar soluções. Isto é um dom enorme, e o centro da qualidade da nossa Vida.

05 novembro 2009

Transformação

10comentários


Tenho andado há dias com uma pergunta que li. Porque será que, mesmo mantendo uma vida regular de oração, vamos percebendo que esta não nos transforma? Em muitas coisas não nos faz mais pacíficos, mais humildes ou mais tolerantes. E mais felizes.

Acredito que a questão do passar a oração para a vida não é nada linear. Talvez porque não acertamos com o mais importante e pensamos que a oração é um espaço de pensar coisas sobre Deus e sobre as nossas decisões. Parece que é importante falarmos de nós, pensarmos e rezarmos a vida. Isso também faz parte, mas falta algo.

O tempo de oração é também a possibilidade de Deus se dar exclusivamente. É um espaço aberto à confiança e a deixar que Ele faça o que entender. Não são os nossos desejos e os nossos objectivos, mas deixar que aconteçam os desejos e os objectivos de Deus. Oração é silêncio, e este é o que mais transforma, desde dentro, sem muitas palavras.


29 outubro 2009

Devoções populares

6comentários


Sugestão de Nise

Quando falamos, ao menos em Portugal, de devoções populares, imediatamente nos vêm à cabeça imagens dos peregrinos em Fátima, sobretudo os que cumprem promessas de joelhos, ou então procissões com música e bandeiras, ou santos com muitas velas à frente. Imaginamos sempre pessoas de mais idade, ou com pouca cultura. E é quase irresistível dizermos: esta é uma Igreja muito diferente daquela que penso ser a correcta!

Isto em Portugal, mas um bocado por todo o mundo, da Polónia até ao México, vemos multidões que celebram a fé à volta de um santuário, uma imagem, ou uma determinada data. O que é um facto é que as devoções populares, mesmo que actualmente tenham tendência a estar mais ligadas a pessoas mais velhas, são uma expressão da fé de um enorme número de cristãos.


Em tudo isto, há dois aspectos menos positivos ligados às devoções populares: um é a falta de conhecimento teológico catequético, ou seja, uma fé pouco esclarecida e muito ligada a ritos exteriores e cumprimento de determinados preceitos. O outro aspecto, que vem ligado a isto, é a superstição, que é a parte mais "perigosa" de uma fé pouco esclarecida: estas devoções podem assumir um carácter comercial, de pagar favores a Deus ou fazer coisas para obter o seu favor. Como se fosse necessário recordar a Deus que Ele deve amar-nos.

Um aspecto que poderia fazer reflectir, principalmente a quem está mais responsável pelos centros onde tais devoções têm mais força, é se a quantidade de fiéis justifica o deixar passar sem grande problema uma série de hábitos que, no fim de contas, significam pouco para uma vida autenticamente cristã. Pode correr-se o risco de cumprir algo diante de Deus, fazer as contas com Ele e, depois, isso não se reflectir muito na vida concreta, a nível de opções de fundo. Faltaria um maior acompanhamento e envolvimento espiritual das devoções.

Pessoalmente, mesmo tendo consciência destes limites das devoções populares, dou-lhes muito valor , pois também têm muitas coisas que são extremamente positivas:

A devoção é uma expressão da fé muito mais existencial que racional. É um meio, entre muitos, de entrar em oração e relação com Jesus, mesmo através de Nossa Senhora ou de algum Santo. Por consistir normalmente em coisas muito práticas ( uma determinada oração, um gesto)  faz usar na oração o próprio corpo e a própria sensibilidade, podendo rezar de forma mais integral. Uma oração reflexiva e simplesmente meditativa, se tem a vantagem de poder ser mais esclarecida e aplicada à vida concreta, tem também os seus limites. É importante falar, sentir, cheirar e tocar, pois o nosso corpo também entra na oração.

Em segundo lugar, a devoção é também uma expressão simples do coração, sem complicar muito as coisas. Estabelece-se entre o devoto e Deus uma relação afectiva, de súplica, louvor ou agradecimento. Tem uma ingenuidade própria que é muito frontal e transparente na relação com Deus. De coração a coração. Quando esta experiência de encontro pessoal com Deus é forte, seria então necessário o poder acompanhar o seu desenvolvimento, em direcção a uma vida mais cristã a partir de dentro.

Por isso, acredito que as devoções populares podem estar ao alcance de todos, mesmo de quem está mais "avançado" na catequese. A experiência alimenta a fé, e uma fé esclarecida também dá sentido à devoção. No fim de contas, na expressão da própria fé é bastante difícil tirar a devoção, pois faltaria uma parte muito importante da nossa vida espiritual: sermos mais carne e mais coração na nossa oração.


22 junho 2009

Construídos na verdade

5comentários

Regressei hoje dos Exercícios Espirituais, e ainda estou a aterrar, como é normal nestas ocasiões. Passeava hoje à tarde pela cidade para comprar algumas coisas que precisava e já não estava habituado ao ruído. Voltar ao dia-a-dia é sempre um momento de cair na realidade.


Faz bem poder ter distância dos nossos cansaços, porque ajuda a cairmos na conta do valor que tem cada um dos nossos esforços. Ficámos sempre muito aquém de nós próprios quando não temos nem o tempo nem o espaço para perguntarmos o porquê daquilo que fazemos.


E assim, fazemos as coisas porque têm de ser feitas e estamos longe e tantas vezes alienados da nossa actividade. O nosso esforço merece mais de nós, e nós merecemos também a recompensa do nosso esforço. Aquilo que fazemos serve à nossa construção. E essa construção mostra-nos a nossa verdade.


Verdade que estes dias descobri em cores de simplicidade e em perfumes de floresta. Verdade pacífica nascida de tempestades interiores. Verdade reconciliada com histórias passadas que somos desafiados a amar, por serem as nossas. O facto de sermos amados, porque vivemos aquilo que vivemos oferece-nos a possibilidade de termos consciência do quanto possuímos quando damos valor à Vida. Ela merece todo o nosso respeito e adoração, porque é preciosa, é de Deus, é o próprio Deus.


14 junho 2009

Algumas coisas

11comentários

Tenho andado muito ausente de escrever aqui como é habitual. Tenho tudo para dizer e ao mesmo tempo, tenho dificuldade em traduzir aquilo que sinto. A cabeça cheia de coisas, agora que chega o final do ano e estou a menos de um mês da minha ordenação sacerdotal. Coisas práticas de organização, muitíssimas, mas coisas interiores de me ir dando conta, pouco a pouco, do grande milagre que está para acontecer!

Amanhã vou sair de Roma para fazer uma semana de Exercícios Espirituais, um retiro em silêncio, para poder arrumar a casa por dentro e alargar os espaços que sinto necessários. Para isso, agradeço muito a oração nestes dias. =) Um retiro é sempre o tempo privilegiado do ano, em que o silêncio fala de um modo tão poderoso que não me deixa indiferente. A transformação interior naquilo que Deus quer da nossa Vida exige uma enorme liberdade, que neste caso é significado de querer aquilo que me é dado e sinto que nunca poderei merecer devidamente. Mas enfim... é bom ser acreditado.

Por fim, verão que do lado esquerdo, pus uma imagem com um link para a pagina do AfterPaul, que é um encontro realizado pelos jesuítas portugueses, para jovens do 11ºano aos 30 anos, de 4 a 6 de Setembro, no colégio perto de Coimbra. Celebra-se o final deste ano sobre a figura de S. Paulo e o programa apresenta momentos de oração, reflexão, workshops, espectáculos e várias actividades. Aconselho vivamente!

Até breve! Depois vou mantendo a regularidade possível, mas prometo que conto como foram estes Exercícios. Para me acompanharem mais vivamente, vou estar estes dias por aqui. =)


20 março 2009

Contemplação na vida de hoje

4comentários

(sugestão de Bento Oliveira)

O nosso dia-a-dia é demasiado cheio e o tempo não chega para aquilo que queremos. Estamos sempre a queixar-nos disso, porque é que o dia não tem mais horas. O grande problema da contemplação está na consideração de uma série de pressupostos que é essencial termos em conta. Há muitos conselhos práticos sobre modos de fazer oração, escrevem-se todos os anos imensos livros sobre isso. Mas há aspectos que devemos ter presentes antes de colocar essa questão, e aos quais me vou referir:



- Temos uma concepção utilitarista do tempo. O tempo serve para fazer qualquer coisa, obter um resultado. A velocidade das nossas acções e das nossas expectativas exigem uma resposta rápida e imediata. Mas o tempo de Deus é diferente. Ele é infinitamente mais paciente que nós, e nós não somos pacientes. Uma imagem do tempo de Deus vem expressa, como há tempos ouvi um professor dizer - que me abriu imensos horizontes - numa expressão de S. Paulo. Ele escreve assim: "Digo-vos,porém, irmãos, que o tempo é breve" (1Cor 7,29). A expressão "é breve" no original grego, não quer dizer que demore pouco tempo, ou faltem algumas horas ou dias para algum acontecimento. S. Paulo usa um verbo utilizado na navegação, que significa amainar ou recolher as velas de um barco. Quer dizer que o tempo se recolhe, se dobra sobre si mesmo, e a eternidade de Deus, como uma vela infinita, condensa-se no momento presente. O tempo de Deus no nosso tempo é esta eternidade oferecida à nossa contemplação. Este é o tempo da oração, segundo o tempo de Deus.


- Por isso, a oração não é um tempo contado, tirado a ferros à nossa disponibilidade, mas é o tempo entregue. É estarmos presentes em profundidade, indo além de nós próprios. Não é regatear minutos e esperar paz de espírito ou comunhão com o mundo e os outros. É um momento de verdade, em que a eternidade está presente com uma força ao mesmo tempo doce e devastadora. Não se encara este tempo com um relógio a servir de escudo, mas de peito aberto a todos os ventos que surgirem. Deus joga-se todo em cada momento do nosso dia, mas na contemplação é quando estamos totalmente disponíveis a perceber isso.


- A contemplação não é uma coisa exclusiva de padres e freiras. Aliás, todas as religiões, e o cristianismo não foge à regra, privilegiam o tempo de contacto com a divindade. Em orações e momentos do dia mais ou menos estruturados, mas que é uma espécie de respiração vital da própria religião. Não existe um cristão no sentido mais forte da palavra, se não tem este contacto único e pessoal com Deus. Rezar a partir da Bíblia, ou ir à Missa, são partes essenciais da fé, mas estou a falar do nível mais profundo, a minha Vida diante da Vida de Deus.


- Por isso, querer contemplar, em qualquer estado de vida, solteiro, casado, ou religioso, é uma opção de fundo. Acredito que é a opção mais autêntica e que expressa mais a nossa força de vontade e o querer alargar os nossos horizontes além do impossível. A base da contemplação é a convicção que Deus está e trabalha em nós, independentemente se rezamos meia-hora ou cinco horas. O tempo de Deus, como disse, é muito diferente do nosso. A Deus basta tocar, na sua eternidade, um minuto do nosso tempo para mudar toda a nossa Vida. Não sei até que ponto acreditamos nisto... Jesus diz no Evangelho que a fé move montanhas. Porque não havemos de acreditar nisto?


- A contemplação, finalmente, não pode ser um tempo para esquecer o mundo e os seus problemas. É, pelo contrário, o momento por excelência para os tornar presentes. É o desafio de não buscar raciocínios e desculpas, classificar-me a mim e aos outros e não chegar a nenhuma conclusão existencial que seja capaz de transformar. Quem vê a sua verdade, pode amá-la, percebendo como esta é amada. E amando,aceitamos e perdoamos. E aceitando e perdoando, temos um coração capaz de coisas muitos grandes. O outro lado da oração é a acção do amor. E Jesus diz, mais uma vez, que pela árvore se conhecem os frutos. Aquilo que fazemos fora, mostra a qualidade das nossas raízes. Sem a contemplação, nunca teremos a possibilidade de amar radicalmente. Ficaríamos ao nível de uma filantropia de circunstância - o que em si é bom - mas não estaríamos todos naquilo que estamos a fazer.


Para resumir. O que tenho reflectido e vivido acerca da contemplação é que é um tempo que não me pertence, que não posso dominar. Que tenho que escolher ter isto como o modo de estar na Vida, aquilo que me define radicalmente. Sem uma profunda vida interior, corremos o risco de tudo ser mais um número, um obstáculo, ou um prazer efémero. Não me transformo, nem transformo. E isto está ao alcance de todos.


Finalmente, depois de ter todos estes aspectos presentes, é o tempo de começar a realizar isto concretamente. A atitude de confiança e disponibilidade inicial é o mais importante. Então, com o realismo das minhas possibilidades escolho um tempo do meu dia para esta eternidade. Quinze minutos, meia-hora, uma hora. Pessoalmente, aconselharia pelo menos meia-hora, que, sinceramente, acho muito difícil que não se tenha durante o dia. Temos sempre tempo para o que verdadeiramente queremos.


E o que fazer este tempo? Simplesmente estar, ou repassar o meu dia e o que foi acontecendo, ou meditar alguma passagem da Bíblia, ou de um livro que me ajude. Nesta altura, um bom livro sobre oração pode dar muitos bons conselhos e cada um poderá encontrar o seu modo próprio. Todos os modos de rezar são bons. Mas o que é mais fundamental é o estar presente. E certamente a nossa Vida muda, de forma imperceptível, com avanços e recuos. Mas aí está... o tempo de Deus não é o nosso tempo e os resultados d'Ele não são os nossos resultados. Estaremos toda a Vida a perceber isto e a entusiasmarmo-nos cada vez mais.


11 fevereiro 2009

Trabalho contínuo

4comentários

(sugestão de antrópico)


Falar do modo como rezo. É sempre um modo de me expor, mas acredito não ser suficientemente íntimo para o não partilhar. Falar da nossa vida interior, para além de uma prudência necessária,por vezes é algo que nos devíamos sentir quase obrigados. O trabalho que Deus faz em nós é luz, e essa não se pode esconder. Transparece em gestos e modos de estar, mas também na forma e no conteúdo daquilo que podemos dizer. E assim, poder ser luz para alguém é colaborar com o desejo de Deus de estar com cada um.


Há diversos tipos de oração, que faço conforme as circunstâncias, mas um deles é o mais habitual. Todos os dias rezo a Liturgia da Horas, a oração oficial da Igreja, de manhã e à tarde, que consiste sobretudo na leitura orante de alguns salmos, um pequeno excerto da bíblia e rezar pelas intenções do mundo, juntamente pelas pessoas e intenções que tenho presentes no meu dia. Mas não é só isto.


Sinto que sou sempre pouco merecedor do que Deus faz em mim e por mim. E como o Amor dele por mim me supera infinitamente e não tenho realmente consciência do que isso é. Com o passar do tempo, fui descobrindo que o Espírito trabalha em nós continuamente. É a minha frase espiritual que me define: "O meu Pai trabalha continuamente, e eu também", no Evangelho de João. E tenho disso a certeza mais absoluta. O que fica da minha parte é abrir a porta do tempo, do espaço e do coração para que Ele esteja e trabalhe, como Ele quiser.


Faço uma oração de presença, sem palavras e sem pensamentos, durante pelo menos meia hora, em que dirijo as minhas energias para Deus, dispondo-me à sua vontade. Ponho aquilo que sou diante dele, sabendo que Ele sabe o que preciso para o momento que vivo e esperando e confiando que me dará a graça para o fazer. Não espero milagres, nem visões místicas, quero apenas estar e preciso de estar assim. O que tenho de mais precioso é a Vida, e é isso que procuro oferecer em liberdade todos os dias. Se eu ofereço e me confio, Deus não pode deixar de aceitar, e assim me vai transformando, iluminando aquilo que sou e aquilo que faço.


É apenas isto... continuo a ser teimoso e a não deixar mudar muitas coisas em mim. Mas o amor é paciente, e esta paciência de Deus é também exigente, não gosto de ficar sempre igual ao dia anterior. =)

10 fevereiro 2009

Tempo de Deus

4comentários


Partindo da base que escrevi no post anterior, que penso ser uma forma bastante visível de perceber a minha relação com o mundo e a forma como faço parte dele, gostaria ainda de dedicar alguns pensamentos ao modo concreto como poderei no meio de um tempo ocupado, encontrar tempo para olhar a Vida com Deus.

O tempo de oração não é apenas um momento de paragem e dedicação exclusiva à meditação. É sobretudo uma atitude que posso - e devo - transportar nos momentos do dia a dia. Especialmente os seus frutos. Porém, temos necessidade de um tempo exclusivo para a oração, como o corpo precisa de respirar a plenos pulmões para se encher de maior vida e energia. E sabemos bem como é importante respirar profundamente.

Às vezes, chego a ser duro comigo mesmo, dizendo que para aquilo que realmente quero, encontro sempre tempo. De facto é assim, coisas urgentes podem esperar quando aparece improvisamente aquilo que mais quero fazer no momento. Se o que mais quero é estar no silêncio, eu e Deus, então consigo estar. Se quero mais ou menos, ou só alguns dias, então raramente estarei.

Cada pessoa encontrará no seu dia o tempo e o modo de rezar. É essencial que o queira e que precise dele como de ar para viver. O exercício que propus no post anterior é um bom início, partir do dia concreto, e amar-me enquanto o amo, perdoar-me enquanto o perdoo, ser melhor amanhã. Os frutos da constância vão surgindo e, da mesma maneira, a vontade de continuar e aperfeiçoar. Um ciclo virtuoso, rezar bem, faz querer rezar melhor. Mas só experimentando cada dia se poderá verificar como isto acontece.


PS: Este é um dos muitos modos de rezar, amanhã falarei de outro, que pessoalmente sigo, como me foi sugerido! Por hoje ficam estes conselhos, espero que ajudem. =)

09 fevereiro 2009

Interno e Externo

2comentários

(sugestão de Cláudia Pinto)


Temos uma vida agitadíssima, cheia de compromissos com a família, os amigos, o trabalho. E pensamos que não há tempo para pensar nas coisas, saboreá-las e rezá-las. Ficamos à espera de dias mais tranquilos, das férias, ou do tempo oportuno em que finalmente arrumo a casa por dentro. Quando chega o momento de parar, é tanta a aceleração interior e os problemas são tão vivos no pensamento, e o corpo não consegue estar quieto. Não foi o tempo que afinal tinha desejado, descansei, mas o meu interior ficou igual.


Creio que muitas vezes temos tendência a pensar que uma coisa é a vida do dia-a-dia e os seus acontecimentos, e outra é a minha vida interior e as suas necessidades incompletas. Todos dizemos que o tempo do dualismo alma-corpo já é passado, mas continuamos a viver isto como pressuposto e a criar uma divisão em nós que não devia existir. Uma forma nova de falar de alma-corpo seria interno e externo. Mas com uma diferença fundamental. O interno e o externo não são duas dimensões separadas com as quais tenho que combater para dar espaço uma à outra, mas são eu próprio, completo. O interno é minha memória, inteligência, sensibilidade, emoção, vontade e liberdade.O externo é a minha pele, que faz parte de mim e me acompanha para onde quer que vá. Na pele estabelece-se o contacto com o mundo, as carícias e os golpes, o frio e o calor, a água e o sangue. Todo eu sou interno e externo, que se comunica, tal como a pele precisa do vasos e dos nervos para comunicar com o corpo e ter a sua função de toque e defesa.


A vida e as suas ocupações tocam-me do exterior e fazem parte de mim. Sou o que me acontece, tal como sou aquilo que sinto e penso, exactamente da mesma forma. Por isso, a vida acontece quando eu estou presente nela e levo à vida aquilo que tenho em mim. Seria preciso amar tudo, como me amo a mim próprio.


Se cada dia for capaz de ter um tempo para estar atento à vida tocada na pele, dar-me-ia conta de que não posso fazer outra coisa que agradecer por ter chegado ao fim mais completo, de pedir perdão por não ter amado tudo o que acontece e, logo, tudo o que sou, de querer melhorar já amanhã o que hoje não foi meu. Tocar a minha pele, agir internamente, partir completo para um novo dia. Três passos, alguns minutos, uma vida mais autêntica.

06 novembro 2008

Oração

1 comentários


Normalmente não falo muitas vezes de oração. Mas hoje sinto-me movido a isso. Acaba por ser o nascimento do registo de um dia, de uma experiência, de toda uma vida. A oração é tempo gratuito e talvez seja isso o motivo mais significativo do mistério que normalmente envolve esta experiência.


É um encontro de duas vontades, uma delas é abertura plena e desejo, a outra é tentativas de sair de si e do ritmo dos probelmas e das alegrias. É entrar num mundo sem horas, nem agendas, nem programações. Tem muito de eternidade, um gesto trazido a coisas pequenas, um silêncio muitas vezes que é respiração e abandono.


Sim, o mais difícil na oração é pressentir que se pode perder o pé num oceano imenso. No fundo é a luta com as nossas seguranças e com aquilo que queremos, às vezes de forma egoísta. Mas uma experiência profunda e constante de estar diante de Deus como sou, todo e ao mesmo tempo partido, é inevitável para quem ousar confiar desta maneira. E pouco a pouco, tudo se tranforma.

12 março 2008

De partida

7comentários

Hoje saio para fazer Exercícios Espirituais, durante 8 dias. Regresso a Roma dia 21. É um retiro de preparação para a minha ordenação diaconal, que será aqui em Roma, dia 25 de Março.

É uma experiência forte, de continuação de um caminho sonhado e conseguido, que vai assumindo compromissos mais definitivos. Como todos os momentos importantes, este precisa de um coração aberto e seguro de tudo o que é oferecido e confiado.

A minha vocação parte desta intimidade com Deus, que me pede uma resposta. Não seria autêntico se não desse tudo a quem dá tudo. Inclusivamente as fragilidades e os medos. Por isso, chego ao caminho de mãos abertas e peito confiante, iluminado, atingido de paisagens fortes.

Fico a rezar por todos e peço especialmente a vossa oração e amizade. É bonito ver que neste espaço se chegam a construir laços que não têm rosto, mas sustentam sentimentos. Obrigado e até breve! =)

25 fevereiro 2008

O que perguntas?

6comentários


Pergunto o que queres hoje... se pudesse dar-te o que mais precisas. É sempre difícil acertar com os estados de alma... às vezes acerta-se em cheio e outras ficam surpresas em corpos vazios.

Há uma gratuidade no querer bem, e inventam-se mil viagens de palavras para dizer um mundo de coisas bonitas... é bom completar-se com poesia e pincéis de muitas cores. E depois, há algo de nós que parte para outro lado, alguém fica mais completo.

A vida oferecida a quem se gosta é bonita. Ainda mais se é recebida por quem é capaz de guardar certos quadros em lugares especiais. E perguntas...

Dirias palavras assim a um vento que traz nuvens cinzentas e desperdiça a beleza que pões nas coisas? Gostaria de o fazer mais vezes... trago gestos que só existem para quem acho que não tem direito... e esses são mesmo grandiosos.

11 janeiro 2008

Entrego

0comentários

Hoje proponho um pequeno exercício de oração. Ao som deste cântico de Taizé, entregar a Deus o meu espírito. In manus tuas Pater commendo spiritum meum - Nas tuas mãos, Pai, entrego o meu espírito.

Sabendo que o Espírito é a minha vida profunda, onde se jogam as minhas alegrias e tristezas, os meus sonhos e desilusões, os meus medos e as minhas esperanças. Que tudo faça parte de um mesmo movimento de entrega, a Quem sabe amar como eu gostaria.

Se cada dia fizéssemos uma oferta assim do que somos e do que fazemos, poderíamos sem dúvida viver a partir do que é mais eterno em nós: o dom de dar a Vida para a fazer mais plena, em mim, nos outros e no mundo.

10 In Manus Tuas, ...

24 dezembro 2007

Feliz Natal! =)

4comentários

Temos um corpo. Somos imagem de eternidade. Divinahumanidade. Tudo por nos ter sido dada uma promessa realizada.

Se houver um sol que nos consola, depois de um dia de viagem fatigante, uma montanha dourada entre nuvens. Onde adormeço e me deixo ficar na quietude.

Onde encontrar uma árvore com raízes que cheguem ao outro lado do Mundo. Onde perceba no vento as vozes que me construíram nos desejos. Onde me molhe com a chuva dos meus erros e perceba que o deserto se transforma em jardim.

Não há caminho tão pleno como a aceitação do que somos. E a nossa imagem é uma carne desenhada por uma Palavra que é o dom perfeito. Para mim e para o que vier de hoje em diante. Deus fica entre nós para sempre e os nossos olhos viram-nO, as nossas mãos O tocaram. Ficámos d'Ele.

18 dezembro 2007

O meu espaço

2comentários

Ontem perdi muito tempo a arranjar um espaço de oração no meu quarto. E ainda não acabei mas, pouco a pouco, vai ficando completo. Estou a gostar do que vai sendo construído.

Há um santuário dentro de cada um de nós, o espaço inacessível a todos, mesmo os amigos mais íntimos. Ao qual só Deus tem acesso. Mas isso acontece quando deixamos abrir a porta e surgir uma palavra completa que signifique esperança, paz... e às vezes verdade que faz mover montanhas e muralhas dentro de nós.

Um espaço de oração devia ser obrigatório na casa de cada pessoa que reza. É um tornar visível a disposição que temos para encontrar Deus. Os olhos, o tacto, os ouvidos precisam de saber que estamos dispostos a viajar algum tempo até a um desconhecido infinito. E a conseguir acreditar que é possível mudar cansaços e rotinas em ondas do mar.

13 outubro 2007

Flores amarelas

2comentários

Para ti...

Enquanto escreves por linhas correntes e te vais deixando levar pelo que acontece. Toma nas tuas mãos a simplicidade gigante da criação. Um desejo de fundo do mar. Totalidade, grandeza, plenitude... em momentos de fugaz fragilidade.

E percebe o quanto o Amor transforma o que sentes. Muda o que tocas, ouve um sinal de que tudo é diferente ao olhar. Uma espécie de gratuidade existencial, uma forma agradecida de se dar sempre e a todos. Em dias de céu azul ou nuvens cinzentas.

Uma planície semeada de alegria leva-te aos teus lugares interiores. Uma casa nunca deixada para trás, onde chegas, te sentas, e dormes abraçado... em luz de fim de dia.


Get this widget Track details eSnips Social DNA

17 junho 2007

Vem

0comentários

Quando há medos da verdade... a resposta é um encontro autêntico. O que vem antes de algo fundamental é sempre tão desviado do que fica depois de ter estado ali.

A imaginação leva-me até uma capela, bonita e cheia de luz. Onde se ouve ao longe os rumores da Cidade. E onde a vida passa através das memórias, e através de compromissos de agenda. Tão fácil perder-se em divagações.

E há um momento, às vezes, alguns segundos, em que se tem a graça de poder parar a velocidade do passado e do futuro e se fica num momento simples e vazio. E ao mesmo tempo, cheio de luz e verdade.

-Vem, ouço dizer... Fica comigo e traz o que tens contigo, não as coisas feitas ou os sonhos bem programados. Apenas o desejo. E este desejo é uma praia cheia de mar, onde se voa a grande altura... sem se perder com o "fundamental" daquilo que não é, mas viver de um sopro que leva a uma experiência de Amor pleno e gratuito.

Que transforma e torna livre, que faz ser simples... Saio da capela com um sorriso de alma... Nem é preciso ficar à espera de sensações "quentinhas", às vezes o que acontece é duro, mas é verdadeiro...

30 maio 2007

Humildade

3comentários

Para rezar é preciso ser-se humilde. Até com a atitude exterior, é impossível rezar como quem vai fazer grandes discursos. Rezar é ouvir, é deixar ser-se guiado.

É sentir-se olhado, e observado. É saber-se conhecido nos mais íntimos segredos. É ter a certeza de que quem está do outro lado sabe muito mais de mim que eu próprio. Que me vai dizer coisas que não percebo, ou que me vai custar perceber.

Quando rezo, sou terra. A mesma que se aquece com o sol e se sente sozinha à noite, sob as estrelas. A mesma que espera a chuva e a que chega a desaparecer, porque alimenta uma floresta de árvores e flores com todas as cores do mundo.

Porque se deixa ser mexida e revolvida, porque se deixa rasgar em caminhos por onde passem sonhos e pessoas que ficam ali para morar, e outras que passam, sem ficarem indiferentes. Porque ela própria se faz sonho, porque amar e ser amado é o seu modo de ser.

20 maio 2007

Tão próximos

0comentários

Pensei em ti, quando achei que nada seria mais importante que esta entrega. Numa existência sem confusões e sem opções, quando estou contigo, olhos nos olhos.

Sem os medos de achar que um dia estaremos tão longe de nós. Vivo esta certeza tão completa e tão impossível de ter chegado a algum tipo de plenitude.

O que é mais bonito é que a plenitude é impossível de abraçar só de única uma vez. Porque abraço na humanidade, com dor, saudade, e insatisfação.

Mas tenho em mim qualquer coisa que me fala desta presença, que esteve sempre comigo, que nunca me deixará, que viverá em cada respiro e em cada gesto meu. Para sempre.

E a minha humanidade vai-se tornando forte, e mais certa, por estarmos assim, tão próximos.

22 março 2007

De sombra e de Luz

2comentários

Escuta... depois de correr à chuva, com os cabelos molhados, cansado. Ouve-se o respirar ofegante que abre a porta. - Entra!

Dão-lhe uma toalha para se secar. - Está tão quente aqui, é bom voltar a casa. - Onde estavas? - Por aí... longe de mim, às vezes... - É bom encontrar-Te.

- E é bom estar à tua espera! Senta-te aqui. Conversas de música e fotografias... tanto do que a Vida fez de nós. Estás bem? - Sim, agora estou... Se te quisesse dizer porquê, não saberia. É como se estivesse a andar de carro por uma estrada no meio de planícies. Onde tudo é igual, mas de repente, há um sítio escolhido.

Onde vi o pôr do sol ou um céu de estrelas... Não escolhi o momento em que tudo pode acontecer. Consola tanto como faz doer... abrir os braços e fechar os olhos, deixar-se levar no vento...

Com grandes certezas, com maior vontade de ser a luz da minha sombra. Gosto de te ver aqui... Tens razão, és o meu lugar...
 

Cidade Eterna © 2010

Blogger Templates by Splashy Templates