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20 outubro 2006

Estar

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Hoje tive uma conversa engraçada. Foi um amigo que vi numa situação na qual às vezes me encontro, e o que ele me disse tinha a ver comigo. Até foi mais para além disso, fez-me pensar nisso de uma forma que nunca tinha considerado.

No meio da confusão de muitas pessoas, conseguir estar. Mas não é um estar ausente, é mais um acompanhar que observa a realidade, desde fora, mas sem ser por fora. O pensamento não sai daquele lugar, vêem-se as pessoas e ouvem-se as conversas.

E ele dizia-me que estar assim não é estar distraído, nem é estar triste. É estar de outra maneira, acompanhando com o coração o que vai ocorrendo na Vida. Que há alguns que dizem que na Vida não devemos fazer nada, só deixar que o fluxo dos acontecimentos nos conduza.

Não sei até que ponto isto será verdade. Se observar a Vida e deixar-se levar é um caminho possível. Talvez. Mas deixa de fora as nossas mãos e o nosso andar. E sobretudo a vontade e a liberdade.

É bom observar a Vida, e deixar-se levar paciente e confiadamente pelo que nos acontece, sobretudo quando não percebemos ou não podemos fazer nada. Mas o tesouro da Vida está no gesto que podemos fazer dela, para nós e para os outros. Aí ganha um sentido muito forte.

15 outubro 2006

Medos ancestrais

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Ontem vivi algo estranho. Um momento pleno, mas que não consigo caracterizar, de grandeza e pequenez, de horizonte e angústia. Não sabia que se podiam experimentar duas coisas opostas ao mesmo tempo.

Por uma série de circunstâncias, dei por mim a cerca de 3000 de altura, com o sol a inundar-me e uma paisagem de montanhas e nuvens abaixo de onde eu estava, sem nenhuma presença humana, pessoas ou casas, para além de mim.

É um privilégio de Beleza e Imensidão. Não é que estivesse em perigo eminente de cair, mas a altura e os declives faziam sentir a sua força. E senti-me tão pequeno, a pensar que se algo corresse mal, a paisagem mais bonita que vi até hoje, seria ao mesmo tempo a última.

E hoje aindo estou a tentar perceber isto... que a Vida é tão grande como esta paisagem, ainda maior, até... e que na nossa humanidade somos também tão frágeis e tão pequenos.

Senti um medo que não era perigo e vertigem, era um medo mais fundo, de cair na existência sem sentido, de desaparecer simplesmente sem deixar marcas... de não ser mais que um minúsculo ponto no alto da Montanha.

E tenho a certeza que nenhum homem e nenhuma mulher é chamado a ser só esse ponto.

02 outubro 2006

A Praça

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Num dia de sol, calor de Verão, tinha acabado de sair do carro para poder beber alguma coisa fresca. A viagem durava já algumas horas e vinha mesmo a calhar um pequeno intervalo. Tinha chegado a uma daquelas aldeias que parece que só existem no cinema, na hora de maior calor, não estava ninguém na rua, apenas se levantava, em direcção a um céu azul muito intenso, uma poeira fina e alaranjada no jardim da praça onde me encontrava.

Algures, por entre as árvores do jardim, vi algo que me chamou a atenção. Numa pequena fonte cantava um pássaro que não reconheci, apesar dos meus estudos e da suposta ciência que enchia os meus dias, no meu trabalho.

Este momento criou em mim algo que eu não esperava, que acabou por mudar muitas coisas na minha vida, e ainda hoje, enquanto escrevo estas coisas, me surpreende, ao pensar que um pequeno instante pode trazer em si o fundo da vida, a cor do mar, o sorriso e o olhar que eu sempre procurei. Foi isto que aconteceu:

Ali me deixei ficar, a ouvir cantar aquele pássaro. Procurei uma sombra sentei-me no chão de poeira, que o vento levantava em círculos para o alto. Aos poucos deixei-me levar por todas as sensações que me rodeavam e embalavam. Afinal, aquela paragem no meio da corrida da minha viagem estava a fazer-me reencontrar coisas pequenas que eu há muito tinha deixado de olhar. Pensava nos meus olhos infantis e na magia das primeiras surpresas, no encanto que enchia o coração, apesar de serem as coisas mais simples da vida: a primeira vez que vi um céu a explodir de estrelas, um pintainho a sair do ovo, o homem que colhia a fruta na árvore. Notas soltas de uma existência já esquecida e que agora, em torrentes de cores, cheiros e sabores saltavam à minha volta.

A vida que hoje levo é uma conquista minha, procurei o que hoje tenho e sou, e sinto-me feliz por isso. Mas aquela tarde de sol e calor fez-me cair na conta de que todas estas coisas continuam a existir: as estrelas estão por cima de mim, mas há quanto tempo não levantava os olhos do chão? A vida surge continuamente, mas quando é que reparo nisso? O que visto, o que como, aparece-me em casa... quando é que penso por onde todas estas coisas passaram para chegar até mim?

Naquela tarde dei-me conta de que tudo o que sou não é fruto apenas do meu esforço. Sou também uma parte de todo um universo de gente, corações e energias; sou fruto do vento, do sol, da água, das árvores... Venho também d’Aquele por quem todas estas coisas são. Foi esse o instante que me mudou: em tudo encontrei o dedo de Deus, que transforma o meu existir em pequenos toques de eternidade.

Voltei à minha vida normal, mas tudo a partir daí era diferente: as pessoas, a natureza, tudo o que faço faz parte de um projecto que é sonhado para mim e realizado por mim. Encontro na vida o desafio de me dar conta deste momento e desta presença: Não estou sozinho.

Com isto, regressei à praça, depois de não sei quanto tempo nestas considerações. Estava a pôr-se o sol, e à minha frente uma criança estendia-me um copo de água fresquinha...

02 setembro 2006

De novo...

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Estava sentado na sala. O sol começava a por-se e as paredes iam-se tornando amarelo poente, à medida que a luz do fogo ia dando vida às sombras das coisas. O tempo tinha parado por instantes, naquela melancolia própria dos dias de alma parada.

O seus olhos iam-se detendo nas mudanças de luz, sem grandes pensamentos, como que deixasse que as coisas existissem independentemente de as perceber.

E a nostalgia foi-se tornando cada vez mais pesada, com os braços cansados em cima do sofá. Passeava por entre os móveis da sala, tornando-se dona de tudo.

E ele sentiu que ali não era o seu espaço. Levantou-se e encaminhou-se para o quarto. Entrou sem acender a luz nessa sombra conhecida e foi buscar sem hesitação aquele objecto que estava em cima da mesa das coisas preciosas. Uma pedra recolhida do mar, no dia mais importante da sua vida.

E saiu. Frente à casa, percorreu descalço a areia, ate molhar os pés no mar. Olhou as estrelas, suspirou, e atirou longe, longe, aquela pedra.

Voltou a casa, pegou na guitarra e cantou. Chorava de felicidade... começou uma nova etapa.
 

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