
Num dia de sol, calor de Verão, tinha acabado de sair do carro para poder beber alguma coisa fresca. A viagem durava já algumas horas e vinha mesmo a calhar um pequeno intervalo. Tinha chegado a uma daquelas aldeias que parece que só existem no cinema, na hora de maior calor, não estava ninguém na rua, apenas se levantava, em direcção a um céu azul muito intenso, uma poeira fina e alaranjada no jardim da praça onde me encontrava.
Algures, por entre as árvores do jardim, vi algo que me chamou a atenção. Numa pequena fonte cantava um pássaro que não reconheci, apesar dos meus estudos e da suposta ciência que enchia os meus dias, no meu trabalho.
Este momento criou em mim algo que eu não esperava, que acabou por mudar muitas coisas na minha vida, e ainda hoje, enquanto escrevo estas coisas, me surpreende, ao pensar que um pequeno instante pode trazer em si o fundo da vida, a cor do mar, o sorriso e o olhar que eu sempre procurei. Foi isto que aconteceu:
Ali me deixei ficar, a ouvir cantar aquele pássaro. Procurei uma sombra sentei-me no chão de poeira, que o vento levantava em círculos para o alto. Aos poucos deixei-me levar por todas as sensações que me rodeavam e embalavam. Afinal, aquela paragem no meio da corrida da minha viagem estava a fazer-me reencontrar coisas pequenas que eu há muito tinha deixado de olhar. Pensava nos meus olhos infantis e na magia das primeiras surpresas, no encanto que enchia o coração, apesar de serem as coisas mais simples da vida: a primeira vez que vi um céu a explodir de estrelas, um pintainho a sair do ovo, o homem que colhia a fruta na árvore. Notas soltas de uma existência já esquecida e que agora, em torrentes de cores, cheiros e sabores saltavam à minha volta.
A vida que hoje levo é uma conquista minha, procurei o que hoje tenho e sou, e sinto-me feliz por isso. Mas aquela tarde de sol e calor fez-me cair na conta de que todas estas coisas continuam a existir: as estrelas estão por cima de mim, mas há quanto tempo não levantava os olhos do chão? A vida surge continuamente, mas quando é que reparo nisso? O que visto, o que como, aparece-me em casa... quando é que penso por onde todas estas coisas passaram para chegar até mim?
Naquela tarde dei-me conta de que tudo o que sou não é fruto apenas do meu esforço. Sou também uma parte de todo um universo de gente, corações e energias; sou fruto do vento, do sol, da água, das árvores... Venho também d’Aquele por quem todas estas coisas são. Foi esse o instante que me mudou: em tudo encontrei o dedo de Deus, que transforma o meu existir em pequenos toques de eternidade.
Voltei à minha vida normal, mas tudo a partir daí era diferente: as pessoas, a natureza, tudo o que faço faz parte de um projecto que é sonhado para mim e realizado por mim. Encontro na vida o desafio de me dar conta deste momento e desta presença: Não estou sozinho.
Com isto, regressei à praça, depois de não sei quanto tempo nestas considerações. Estava a pôr-se o sol, e à minha frente uma criança estendia-me um copo de água fresquinha...