27 dezembro 2006

Cultivar a alegria

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Tenho vindo a pensar no que me é dado viver nos dias depois do Natal. Sempre se pensa no Natal como um ponto de chegada, depois de uma preparação mais ou menos cuidada, mais interior ou mais exterior...

Mas chega o dia de Natal, faz-se toda a festa e começa-se já a pensar na passagem de ano. Rapidamente se esquece, fez parte de mais um acontecimento bonito no calendário do fim do ano. Mas quero viver o Natal como um ponto de partida, onde o novo Ano acaba por aparecer, por estar, este sim, no calendário.

É um desafio muito bonito à alegria mais profunda, de ter a certeza que Deus nunca desiste de nós e que está sempre connosco em tudo. Estas dias até ao Ano Novo, é uma espécie de adornar o início de um caminho mais entregue à Vida mais completa. Talvez aí se possa pôr o início do Ano como o primeiro passo, mas já com as metas estabelecidas. Boa viagem até 2007!


PS: Vou estar fora até dia 3 de Janeiro, pelo que desejo desde já um primeiro passo em 2007 cheio de confiança e a caminho da realização de sonhos tocados com as mãos e contemplados no coração, cada dia.

25 dezembro 2006

Natal

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o consigo imaginar um Deus cansado. A minha imagem do Céu é ver o Pai a correr durante todos os dias da eternidade para que nada falte aos seus filhos. Desde sempre Ele foi assim, até é excessivamente preocupado, uma milésima parte do que ele já fez seria tudo o que nós precisamos para ser felizes. Nasce o sol, surgem as estrelas, chove, e os campos pintam-se com as flores. Criam-se vidas e obras, ganham-se laços, é tudo tão cheio de perfeição.


E os homens fecham os seus braços… estão ocupados a olhar para as próprias estradas e o coração fica do tamanho de uma casa ou de um escritório. Vive-se numa só rua, ou num único número de telefone. São as coisas essenciais? No tempo dos homens, parece que sim.

E este Deus a correr na eternidade não quis esperar mais… Fez as malas, apanhou o primeiro comboio. Destino: Belém. E chorava durante a viagem, alargava já no coração o abraço gigante que não podia suportar mais que não pudesse dar. Contou os milénios, os séculos, os anos, os meses, os dias… as horas...


Chegou. Fechou os olhos e abriu os braços, para fechar neles todos os homens de todos os tempos. Abriu os olhos. Estava frio e começou a chorar. Uma jovem mãe acariciou-lhe a face. Era muito bonita e tinha os olhos brilhantes com lágrimas. Adormeceu no seu regaço.

PS: Desejo um Natal vivido neste abraço de Deus com o Homem. Rezo por todos os que me acompanham neste Blog e agradeço todo o apoio e entusiasmo manifestado. Feliz Natal! =)

24 dezembro 2006

Antes do momento

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A véspera de um acontecimento importante é preparada com uma série de preparativos que transformam a rotina e dão sentido àquilo que vai acontecer.

Para mim, felizmente, a Véspera de Natal é sempre um dia de muita calma, talvez por não saber cozinhar e não ter que passar o dia na cozinha a preparar a consoada. Mas multiplico os meus gestos e o meu agir para fazer que à minha volta tudo se prepare para um momento de simplicidade. Que não é uma festa mais ou menos arranjada que faz com que o Natal seja mais bonito.

É tentar fazer do Mistério que prepararo um exemplo para a minha Vida, que passa mais por acolher e iluminar. O modo para mim mais bonito de preparar o Natal é deixar o espaço vazio para o Encontro. Para me deixar abraçar nos abraços que dou, para me fazer pequeno para receber a grandeza. Para ter um olhar simples.

22 dezembro 2006

Quase

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Estar a viver as vésperas do Natal como um pressentimento.

De tentar isolar-me dos lugares comuns dos embrulhos e dos meus inevitáveis e desconfortáveis mails colectivos. Pensar nas músicas que iremos cantar dia 25, nos telefonemas que deverei fazer e encontrar o tempo para poder estar nas comemorações marcadas.

Mudam os lugares de Natal na minha vida, com outros olhares à minha volta e outras cidades. Mas o mecanismo das ruas de sacos de compras é universal. É certo que vou ter um Natal muito bonito, e farei por isso.

Esta tarde, enquanto fazia de guia turístico nos quartos de Sto Inácio aqui no Colégio, a única pessoa que apareceu durante a tarde, numa conversa bem engraçada, perguntava-me o que diria Sto Inácio se visse as transformações do espaço que envolve a simplicidade dos locais onde viveu. Pois... não sei... acho que não ficaria chateado, mas diria um desinstalador: porquê?... ou mais... para quê?

E olho agora para o meu programa das festas de Natal, muito bonito. E porquê?...Para quê? O mundo gira de um modo diferente porque nasceu um Menino. Mas até este girar diferente é o mesmo de sempre, ou pode vir a ser.

Talvez a novidade não esteja tanto nos programas, que servem de abraço ao Mistério. Voltar a ouvir o primeiro choro de Jesus, o mais original, a primeira voz humana de Deus. Pressinto este Mistério...

21 dezembro 2006

Atraído

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Neste modo de alargar as nossas fronteiras, somos percorridos por um entusiasmo vestido de ousadia, coragem, auto-confiança. Que nasce da nossa casa, do que nos rodeia intimamente e nos faz acreditar que podemos mudar muitas coisas no mundo e nos outros.

É perceber que somos feitos de uma força eterna e veloz, que quer ser sempre nova e original. E não precisamos de nos defender, sabemos a certeza a que fomos chamados, que a História tem um final feliz. E caminhamos, corremos, viajamos, voamos para longe, para tão longe...

Até que me encontrei sozinho num outro planeta, o da minha impossibilidade. Tantas coisas feitas, parecia hoje que a maioria estava perdida. Tantos gritos de aclamação, ouve-se agora o rumor do desalento. Um deserto de areia escura e um sol escurecido por nuvens tristes. Os vestidos da força estavam gastos e sem cor.

E só me restou aproveitar o último reduto da minha força original e eterna para me pôr de joelhos e esquecer-me. E não tentar encontrar motivos, só deixar-me estar a navegar no desejo de me perder num destino incerto. Num mar sem fim que se foi abrindo pouco a pouco em ondas de confiança.

Senti-me levantado por aquela mão que um dia tocou a Terra e fez o Homem. Que finalmente me alcançou na mais pequena humanidade, quando não pude fazer mais nada, quando não pude pensar mais nada, quando não pude amar mais nada.

E agora os passos cansados retornavam no olhar de quem contempla e adora, e nas mãos de quem cura e sustenta. Como o olhar e as mãos que agora iam comigo, agora para sempre, agora até ao Céu.

20 dezembro 2006

É assim...simples

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"Estou muito contente por preparar-me para a primeira Comunhão,
porque depois finalmente serei uma boa discípula de Jesus".


Ontem deram-me a revista do Colégio dos Jesuítas de Roma, onde preparo um grupo de meninos e meninas de 9 anos para a primeira comunhão. Alguns deles escreveram pequenos testemunhos sobre o facto de estarem neste ano de catequese.

É emocionante ver todas as semanas a Giorgia nas lições que dou e depois ler isto escrito por ela. As crianças têm o dom de dizerem coisas muito profundas com toda a simplicidade. Não é tanto pelo que entendem ser um bom discípulo de Jesus e a alegria que sentem em o desejarem ser. Nós grandes é que pensamos muito nisso.

O que é mais fundamental é o facto de a experiência de estar perto de Jesus, de o querer receber, ser uma alegria muito espontânea. Isto faz todo o sentido. Com estes pequeninos tenho aprendido tanto sobre o que é a felicidade do Reino.

19 dezembro 2006

Possibilidades

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As nossas mãos são o espelho das nossas possibilidades. O que leva o que o nosso coração tem, o que abraça a novidade da Vida. E depende dos dias o modo de olhar as nossas mãos.

Um dia são bonitas, criativas, capazes de segurar. Outros dias são egoístas, ferem, abandonam. Confio em pleno nas possibilidades de umas mãos abertas. Se eu experimentasse um dia inteiro estar com assim, passaria por um conjunto enorme de situações, desde as surpresas do que lá me colocam, ou o medo que me tirem o que lá tenho. Não me importo.

Acredito nas possibilidades das mãos, e de muitas que toquei, suaves, cuidadas, sujas, rugosas, àsperas, de várias cores... Aprendo com elas que as mãos exprimem as pessoas... e posso falar tanto de mim, não tanto pelo modo como as apresento, mas segundo a atitude com que as disponho.

18 dezembro 2006

Não tenhas medo

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Dei-me conta no outro dia que esta é uma das frases mais repetidas por Deus na Bíblia, quer no Antigo Testamento, quer no Novo Testamento. E é curioso que mudam as personagens, mas o estilo é mais ou menos o mesmo. Esta frase aparece antes da argumentação, antes do pedido e antes da resposta. É quase como o modo divino de dizer: Olá!

Para mim, isto significa muito. Que quando Deus fala, pede coisas que parecem à partida difíceis. E vem já com intenção de as propor. Não quer deixar de ser criador e eu criatura criativa. E mais... que já sabe que eu vou ter medo com o que vai pedir... às vezes somos mesmo preguiçosos por dentro. E o que é mais extraordinário, é que ninguém lhe disse que não, e normalmente a explicação do pedido não é muito descansativa.

Talvez o sim seja a confiança, e depois um enorme agradecimento por se saber confiado. É impossível resistir a quem ama... Deus deve ser algo mesmo fascinante! =)

17 dezembro 2006

Tatuagens

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Nunca estamos sós =)

16 dezembro 2006

Poucas coisas

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É importante, na busca do nosso equilíbrio interior, encontrar algumas pedras que nos sirvam de fundamento, uma espécie de linha espiritual que guie o nosso dia e a nossa acção. Pode ser uma palavra, um sentimento, algo que seja o fundo e a base daquilo que colorimos.

E quando as coisas caem na monotonia, independentemente de serem bons ou maus momentos, a reacção mais provável é tentarmos novas coisas, encontrar mais lugares onde caminhar, porque parece que estes não funcionam ou já deram tudo o que tinham a dar.

E lembrei-me de duas expressões dos Exercícios Espirituais de Santo Inácio: "Em tempo de desolação não fazer mudança" e "saborear internamente". Nos momentos menos bons, procurar novos pontos de apoio, pode ser uma precipitação, se não partirem de bens já adquiridos e solidificados. Quando se está bem e se procura novidade pela novidade, é bom ver antes se o que se percorreu até agora deu todos os frutos que tinha a dar.

A pressa não é boa amiga da paz de espírito. Nem sequer por bons motivos. Se o coração encontrou paz numa paisagem, também alí se deve contruir uma morada, escrever menos linhas, mas viver mais a fundo a Vida.

15 dezembro 2006

Vento

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"Não sabes de onde vem nem para onde vai"

Recordações de uma tarde de chuva, junto ao mar. Nada de comum das paisagens habituais, frio, vento, humidade, sem guarda-chuva. Olhos fechados, o bater das ondas é forte, ajudado pelos gritos das gaivotas. Um mundo de sensações.

Quando o vento é tão forte que o ouvimos passar nos ouvidos continuamente, perdemos o equilíbrio, deixamos de estar com os pés no chão e viajamos para dentro de nós, à procura do nosso lugar de abrigo.

A sensação de desagrado é sensível. Por dentro, a alma procura-se apenas no esforço de não se perder no meio dos ventos.

O vento passa, não sei de onde vem, nem para onde vai. Levou-me para dentro, para o sonho, para a fé, para a vontade de apenas ser.

14 dezembro 2006

Construção

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A experiência comum com pessoas que conhecemos bem leva-nos a fazer coisas muito bonitas. Ontem ajudei a fazer uma oração. E iam saindo ideias misturadas com experiências de Deus e recordações. Mais as novidades e os apartes de quem tem sempre muito para contar.

E pouco a pouco foi nascendo um projecto simples de um caminho. Que parte de um mesmo Deus, por dois corações diferentes, e que leva ao mesmo Deus.

Ser verdadeiramente tocado pela missão de "levar os meninos a Jesus" torna natural um tipo de conversa que não é fácil ter numa mesa de café, ou durante os ruídos do dia. É descer a uma sala com lume aceso e preparada para um encontro futuro. É apenas uma passagem tão simples, uma pausa antes da viagem. Feita por nós, pelos outros.

As amizades que tenho o dom de ter como jesuíta são estes espaços de intimidade e distância. Parece um equilíbrio difícil. Mas para quem confia nas marcas de Deus na Vida, é tão espontâneo como consolador.

Avisos =)

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Era um compromisso meu. Escrever quase diariamente, sai-me com naturalidade transmitir espaços da alma, mas algumas vezes demora... Não é um pedido de desculpas, e hoje até tenho uma: pus-me a ver blogs uns atrás de outros e pus uma selecção deles na coluna da direita. Aconselho a visita, são também Vidas bonitas e partilhas que nos aproximam.

É bonito ir conhecendo pessoas através da blogosfera, e descobrir outras profundidades, que falam do mesmo Deus de uma forma tão própria de cada um.

E pronto, escrevo eu agora! =)

12 dezembro 2006

Departure place

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Vivemos tantas vezes nesta fronteira do Essencial, na dificuldade de encontrar o chão seguro para por os nossos pés antes de voar. E encontramo-nos a saltar entre opções e momentos de Vida bonita, na avidez de que nada nos escape, há sempre tanto para mudar à nossa volta.

E em tantos compromissos que assumimos, nenhum acaba por ser o nosso único. Ou, explicando melhor, o compromisso definitivo no qual tudo se vive, não como mais um acrescento, mas como uma consequência.

E é tão fácil enchermo-nos de vazios coloridos e musicais... que nos fazem voar na fantasia, mas longe das raízes da alma.

Se no meu tempo tão disperso tiver lugar para encontrar todos os dias o meu ponto de origem, é sinal que os meus compromissos partem do meu rosto e não de uma pintura minha. E o meu rosto mais autêntico é compromisso com a Vida, e compromisso fiel às outras vidas... descobrir a verdade no Mundo.

10 dezembro 2006

Landing-place

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Há dias assisti a uma ópera-concerto de encerramento do ano centenário de Xavier. Trouxe comigo as letras e tenho-as estado a ler várias vezes. Com Xavier tenho embarcado também na minha Viagem e fazendo funcionar as mesmas cordas dos movimentos da alma de quem tem o mar como horizonte.

E passa-se por dúvidas, em que não se sabe, nas grandes e nas pequenas coisas, quais os melhores caminhos. Sobretudo quando as escolhas por um ou por outro não nos levam a coisas más ou coisas boas, mas a coisas boas ou coisas melhores. Nos sonhos de ser grande sem limite sonhado, o óptimo é uma fronteira irresistível.

Os campos de aterragem do nosso sonho comportam dúvidas. Pôr os pés no chão é já arriscar uma direcção. Com um mapa cheio de sinais passados em paisagens tão novas como presentes. Os sinais são guias que confirmam e que desviam, quando não se sabem ler com o olhar mais acertado.

A meio do concerto, ouço a frase: "Help me to doubt, oh my Lord, help me to love, oh my Love".

Não faltam respostas... =)

09 dezembro 2006

O Mundo meu

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Vou tornar o meu mundo bonito. Em silêncio, sentado no espaço mais bonito do eu coração, com todas as coisas diante da minha mesa.

Trago a música, as paisagens, a poesia, os quadros, a luz que brilha em todos os acontecimentos. E vou colorindo os sons, escrevendo casas e pessoas, cantando os caminhos. Ouvir bater o coração ao ritmo de um Absoluto quase impossível de descobrir no tempo em que tudo corre a grande velocidade.

Na calma e na paz construo um sim gigantesco, de entregas e mãos abertas, de abraços recebidos mais que dados. Com humildade na minha inteligência e descoberta dos desejos mais bonitos da existência.

E faço castelos de chegada e partida, sempre abertos e em festa. Com lume aceso e mesas preparadas para o banquete.

Como Maria, que num sim mudou a sua vida e a Vida dos homens. E a minha própria Vida. O Advento é o tempo da construção mais bonita dos meus passos e da minha espera. O tempo do Sim e da fidelidade, o tempo do abraço que me espera desde sempre.

08 dezembro 2006

Roma

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Hoje escrevo sobre a cidade que me acolhe. Onde vou chegando cada vez mais dentro. Passo pelas ruas cheias de pessoas de todo o mundo. O ruído dos carros, das vozes, das motas... uma Vida em movimento constante, dia e noite.

Viver e morar numa cidade de catálogo turístico tem uma beleza especial. Por saber que não se passam aqui apenas alguns dias de sonho, mas alguns anos que vão contruindo o meu sonho.

E sinto-me diminuto nos milhares de anos destas pedras, pisadas por imperadores e soldados, peregerinos de todos os tempos, por Pedro, Paulo, Inácio de Loiola, Xavier... Sinto-me esmagado com a força da história dos homens, que aqui conheceu tanto do que hoje é. Um antigo centro de um Império, hoje o centro da Igreja a que sou chamado. Tremenda na sua grandeza.

E a luz cada vez mais impossível, uma cidade que todos os dias é ouro, prata, diamante, pedras preciosas, espelho... Que até dói de tanta beleza!

Chegar a esta Cidade para aqui ficar é um dom, um privilégio que agradeço constantemente. Porque passa por mim de forma inexplicável toda uma Vida passada, que me faz viver um presente cada vez mais intenso e entregue.

07 dezembro 2006

O meu espelho

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Não fujo à minha imagem. Porque gosto dela assim.

Fazemos tantas coisas pelos outros, quando somos movidos por grandes ideais, ou mesmo pelos laços naturais que se vão criando entre nós. Sabemos ser verdadeiramente amigos, quando somos criativos numa amizade e descobrimos o tanto que podemos fazer na vida uns dos outros. Isso é muito especial.

Os outros são sempre espelho daquilo que somos e fazemos e a qualidade e verdade das nossas relações dependem de como encaramos o nosso próprio modo de estar perante a Vida. O coração exprime-se como é, quando não há defesas nem barreiras à nossa autenticidade.

Cultivar a minha liberdade leva-me a poder olhar para mim mesmo a partir do que faço. E vou percebendo que o que faço parte do que sou. E se faço coisas bonitas, é porque tenho algo de bonito.

E dou tempo a mim mesmo, para me olhar e admirar. Sem vaidade, mas também sem falsa modéstia. Amo o que sou, gosto de me olhar, gosto de me ter como o meu maior amigo. Se todos os dias tiver um gesto criativo comigo mesmo, é impossível não ser melhor pessoa. =)

06 dezembro 2006

Estupefacto

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Alguns dias é mais complicado lidar com os limites. Primeiro os meus, por aquilo que, por mais que pense e me esforce, não consigo atingir na plenitude que desejo. Caminho para lá, e só o desejo de olhar para a meta me leva como essa mão invísivel que sabe melhor que eu mesmo para que coisas sou criado.

Há depois estes limites da rua. Aqui por Roma é tão comum ver imagens de crianças assim. E não se pode fazer muito, nem sequer entendo o seu mundo, o que está por detrás das histórias familiares. E depois, mais fundo, o que está por detrás da História da Humanidade, perfeita e criada para ser plena no Amor. Mas à nossa volta tudo parece ser tão impossível...

Estes olhos que contemplo, como tantos outros, de todos os dias, são verdadeiramente os olhos de Deus que vem até nós, e que celebramos neste tempo de Advento. Mas parece tão fácil este discurso... Porque é que preparo uma Vi(n)da que salvará tudo, quando, depois do Natal, não vou deixar de ser confrontado com os mesmos olhares?

Acredito que seja um convite à minha não-tentativa-de-tentar-perceber. À minha humildade. No fundo, existe o mistério de Deus, nascido, morto e ressuscitado por mim. Apesar de tudo. Estes olhares são o mistério mais profundo de Deus-no-mundo. Apesar de tudo.

05 dezembro 2006

Procuro

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No fim da tarde. Quando a luz é mais do que cor e se vai transformando nos passos que regressam a casa. Ainda não há luzes na rua, só trago comigo os quadros pintados ao longo do dia, distraídos nos mil pensamentos de um coração que precisa descansar.

Abro a porta e não me atrevo a entrar. As escadas da porta são o trono, o chão, o tapete mágico... de onde vejo o mundo e o que a vida me fez. Um mundo no qual viajo e não consigo trazer a mim, foge-me em cada porta que atravesso, tento levar-me no desejo inexprimível de voar sem fim e sem destino.

Ficaria eternamente nesta espera de perceber o meu destino, de saber porque entro e saio das casas. De perceber o que procuro quando paro e quando penso que sei voar. Quando acredito que já soube voar.

Acende-se a luz dos candeeiros. E volto ao mundo das portas, das casas e das cadeiras confortáveis. Acabei de passar pelo Mundo Antigo, aquele Eterno que me sonhou desde sempre. E existo... persisto... resisto... consisto neste Amor que me criou.

04 dezembro 2006

Luz

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Encanto-me com a luz. Sem olhar a mais nada do que maravilhar-me com este poder indecifrável de tornar visíveis a meus olhos todas as coisas.

Se há algo que está ligado com a minha própria percepção dos acontecimentos da Vida, esse algo é a luz. Às vezes tão suave e encantadora que não se pode fazer mais nada que contemplá-la. Outras vezes tão esclarecedora, de me apresentar diante dos meus próprios mistérios. Não se vêem corações e rostos às escuras.

E todos os momentos são iluminados, às vezes de forma tão dolorosa, mas a luz é verdadeira. Se há algo que une o bem e o mal, é a luz que permite ter este mesmo olhar. Para mim, gosto desta luz que abraça o bem e o mal, para fazer de tudo um só Bem.

E há pessoas que me falam desta luz. Que são para elas mesmas, que me permitem sê-la para elas, que são também para mim. Porque me descobrem em coisas tão essenciais, em que se fica sem defesas e só no desejo de ser mais verdadeiro.

O Amor de Deus na vida das pessoas tem algo a ver com isto.

02 dezembro 2006

O Bem e o Mal

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Às vezes é mesmo um cansaço... fazemos uma opção clara pelo Bem, aquilo que de bom queremos para nós e para os de quem gostamos. E somos craitivos nos modos de amar, vamo-nos realizando como pessoas entregues a coisas muito positivas da Vida.

Apesar de não chegarmos a tudo e a todos. É um facto que o mundo continua a girar, apesar dos nossos esforços, às vezes pensados tão pequenos e inúteis. No fundo, é o suficiente para mudar qualquer coisa à minha volta. Mas não chega.

Apesar de não querermos ver para além da Beleza. Há pessoas que, de facto, não vale a pena, não iriam perceber o meu amor. E aquelas que não gostam de mim, não aceitariam nenhum dos meus tesouros. Sou bom para quem gosta de mim. Mas não chega.

Apesar de não querermos ver o bem para além do estar, e gostar de estar bem, reunir com o suor do rosto aquilo que mereço por ter feito por isso. Mas não chega.

E continuo cegamente agarrado ao bem... Mas não chega. Porque é que me custa ver algum tipo de mal nos limites do meu bem? Porque é que sinto esta atracção irresistível a querer atingir um Bem maior que o meu? Porque é que nunca digo que já é suficiente?

O Bem transcende-nos completamente. Ser fiel ao meu Bem só me faz querer sair da minha casa quente e aconchegada e abrir a porta, enfrentar o vento e a chuva. Se conseguir sair de casa, acho que quer dizer que o meu Bem é verdadeiro.

01 dezembro 2006

Escrita

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Encontrei um livro de frases soltas. Sem nexo aparente, algumas frases sublimes, outras incompreensíveis, outras apenas se resumiam a uma palavra. Umas tinham datas precisas, e outras parecia que permaneciam durante semanas... e até meses.

Não foi preciso pensar nem investigar muito, era a história de uma Vida. Também a minha própria história.

Passar para o papel as impressões digitais da Vida, para que nunca se apaguem, para que sejam públicas a meus olhos e aos olhos de quem as puder vir a ler. São sempre palavras de terra, pedra, mar, nuvens e sol. Tocadas com abraço, com lágrimas ou simplesmente deixadas no abandono de não darem nehuma resposta.

Escrever é para mim o mistério de deixar marcado o instinto de perceber a minha Viagem mais profunda. Percebo o que me move, o caminho que quero fazer, e vivo nesta certeza insegura de não saber o que amanhã será escrito na página seguinte. Não interessa muito.

Daqui a um tempo, a muito tempo, saberei ler o que escrevi, daquilo que a Vida me fez e foi ensinando. E é isso que me faz pensar que nada é banal, quando se exprime em profundidade.
 

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