31 outubro 2006

Silêncio?

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Será que temos sempre mais medo do silêncio quanto mais pensamos na sua necessidade? Tenho estado a pensar nisso estes dias, também a partir de alguma conversas. Que é tão fácil dizer que é tão importante parar, nem que fosse quinze minutos por dia... que estava mesmo agora a precisar de um retiro...

O silêncio é um espaço de encontro muito fundamental. E talvez o desejo de que esse momento seja total e possa mudar coisas na nossa vida, nos faça perder o tempo. Porque o coração tem de estar preparado, tenho que saber que coisas devo pensar, que objectivos estabeleço para estes momentos.

E assim vão passando as horas, esperando pelo sopro e pela inspiração de que agora é o momento.

E não me dou conta de que não sou dono do meu silêncio, quando deixo que o deserto seja o meu lugar e que seja ele a falar e não eu. Isso deixa-me sozinho, ao sol e à chuva, dependente do que vier a acontecer. Sentir-me pequeno por ter a possibilidade de ser chamado a coisas tão grandes, talvez por não querer ter capacidade para elas!?

Mas o desejo do deserto já é a certeza de que Alguém ali me espera. Ao encontrá-lo, não poderei fazer muito mais que ficar sentado e escutar....

29 outubro 2006

Ante(s)ver

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Bem... acabei de torcer o pé no jogo de futebol... Espero que não tenha acabado a minha época, mas não me parece ser muito sério...

E regressei ao quarto a coxear, mais triste com o facto de ter deixado o jogo que preocupado com o que se passa no tornozelo... Ainda são as minhas coisas de criança, gosto de jogar à bola.

E ser obrigado pelas circunstancias a fazer o que não apetece é uma boa lição. Depois de descansar um pouco, ver que hoje devo ter uma noite mais calminha, ir ao cinema, ter algumas boas conversas.

Deixar pressentir os Mistérios da Vida, o que se me oferece de forma tão gratuita e tão pacífica. Nunca pedi para ver um por do sol bonito, só me coube a admiração e a consolação de me ter sido dada essa visão.

Por isso, hoje, sinto-me tão chamado, amorosamente chamado, a antever, ver antes que aconteça o Mistério. Sem perder a surpresa, não deixar de ter o coração vestido para o que vier. Às vezes, tempos vazios... quase sempre completos... mas sempre capazes de plenitude.

28 outubro 2006

Desde o alto

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O tempo de Outono aqui em Roma é qualquer coisa indescritível. Ontem tive a oportunidade de contemplar duas paisagens. O nascer do sol e a luz dourada sobre edifícios e monumentos e, à tarde, o mar.

São os grandes acontecimentos do tempo que envolvem o nosso espaço e os nossos passos quotidianos. E temos tantas vezes o previlégio de perceber a grandiosidade do que nos cerca, quando temos a coragem de olhar para além do comum e deixar-se levar e surpreender por coisas tão presentes como inacessíveis.

Apenas pressentir palavras trazidas pelo vento aos nossos desejos mais profundos.

E ouvir aquela voz, que Alguém me diz e que me chama a dizer a outros:

"És precioso. Olho-te do alto, para as tuas grandezas. Para aquilo que és e que ninguém pode ser por ti. Contemplo-te na força de poder mudar coisas em ti e poder chegar a criar um mundo cheio das tuas cores e dos teus sons, onde os teus laços não prendem, mas aconchegam, onde os teus sonhos não te isolam, mas te comprometem. Onde a tua beleza brilha mais que as estrelas do céu."

26 outubro 2006

Caminho autêntico

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Conhecer-me a mim mesmo. Sempre se diz que é muito importante e que não é fácil. Mais, diz-se que até pode ser um caminho às vezes doloroso. Porque entrar dentro de si é também estar face a face com coisas que nos incomodam. Os erros sempre repetidos e sempre conhecidos. E ver que tudo vai tendo uma razão de ser, que faz parte de nós, e devemos ir-nos aperfeiçoando.

E isto é verdade. Mas tantas vezes me esqueço que o ponto de partida tem de ser outro. O primeiro olhar sobre mim mesmo tem de ser um olhar de misericórdia e simplicidade. É verdade que nos complicamos tanto tantas vezes. Porque quero ser melhor a partir do que ainda não tenho... mas que espero vir a ter.

Sem perder o horizonte de um futuro positivo, tenho sentido que a minha maior coragem é olhar-me com simplicidade. De estar ligado à terra que sou. De me descalçar e fazer caminho. Estar descalço diante do meu mistério é muito bonito... e pressentir um Mistério profundo, sagrado e amado acima de tudo.

Quando se toca com os pés no nosso chão e se fica feliz com o terreno que pisamos, então, o caminho para coisas maiores não é uma viagem tão difícil, é mais uma consequência do que se é no mais fundo. E o que somos no mais fundo é inacreditavelmente bonito... e tantas pessoas já nos disseram isso e custa-nos mesmo assim aceitá-lo! =)

25 outubro 2006

Distâncias e memórias

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Quando o tempo e o destino nos leva para longe, nos afasta de lugares conhecidos e de corações que nos fizeram completos. São histórias de momentos plenos e outros vazios, que nos vão enchendo o coração de suavidade e, às vezes, descontentamento.

Ver de longe o que a vida nos foi fazendo é também uma oportunidade de optar. Seguir a Vida naquilo que foi fazendo de nós, não com um olhar triste, mas com um abraço cheio de esperança e aprendizagem.

Tenho para mim que viver a memória na distância é um salto para a consolação, às vezes por caminhos poucos seguros, mas que não são estreitos. São caminhos feitos entre paisagens amplas, e onde se cruzam constantemente outras viagens de outros sonhos, de longe e de perto.

Por isso, sorri na memória, ama a distância, como caminho de Vida nova e Futura, com laços livres do passado, mas que são tesouros que nunca deixarão de nos pertencer. São tesouros abertos a um encontro mais total, quando de novo surgir um abraço de re-encontro. E são tesouros que nos abrem a outros tesouros, cada vez mais profundos e essenciais.

Não conhecer os tesouros futuros, mas esperá-los na consolação dos antigos.

23 outubro 2006

Limites de entrega

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Quando falta tão pouco para ser infinito...
viver neste desejo aproxima-nos de tantos espaços essenciais.


"Most Angels Fall More Than Once". Título e fotografia de Nokas.


Oportunidade

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Um coração aberto é algo tão grande na Vida. Acho que não há muitas receitas para isso... tenho descoberto que vemos pessoas assim, com as quais é possível contar e desafiar. Sem fazer publicidade, sem dizer que se é bom a fazer qualquer coisa, simplesmente estar aberto.

E a Vida vai-nos fazendo coisas, aproximando pessoas, cruzando destinos. Coisas novas e insuspeitadas. Talvez porque se descobrem paisagens nos outros onde é possível fazer também morada e construir projectos de Vida, para nós e para os outros.

Nos últimos tempos tem-me surgido várias oportunidades novas de projectos simples e grandes. E isso tem-me feito pensar. Que posso ter uma coração aberto, isso ajuda. Que me sinto pequeno quando sou chamado às coisas da Vida, também.

Mas tudo isto concretiza os sonhos de ser Grande e Feliz. Na minha terra humilde, deixar crescer sementes da vontade de Deus e esperar momentos de muita consolação, ser mais completo.

21 outubro 2006

Recordação

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"Soprou devagarinho uma estrela que se acendeu na sua mão. Disse-me: podes sempre vê-la se souberes soprá-la no teu coração."

Ouvindo hoje algumas músicas, deparei com o "Menino do piano", da Mafalda Veiga. Já não a ouvia há meses. Lembrei-me de muitas coisas, do dia em que a ouvi pela primeira vez e que pensei usá-la para um momento na Serra da Estrela. De a ter ouvido num concerto... de rostos e pessoas que a cantavam e ouviam.

É uma música infantil e profunda. Como tudo o que é criança e pequeno. Não precisa de muitas explicações, fala-se com cores e ouve-se com imagens. Por ser um mundo mais simples, não é preciso deixar que cada sentido busque a sua correspondência, é apenas deixar-se levar pelo que acontece è volta, surpreender-se e amar com alegria.

É isto que vejo em corações simples, aqueles que não crescem, apesar de tudo. Que o sonho é uma coisa presente, uma estrela na palma da mão, que se sopra sempre que se quiser. Não se perde porque se dá em cada momento, não se perde porque é sempre meu, e um sonho meu é sempre oferta. Pode chegar tão longe e mudar a corrente dos acontecimentos, mesmo a um nível que não é fácil atingir.

Há dias ensinei um menino a chutar a bola num pontapé de baliza. Não era difícil, parecia até que nem era importante. Mas ele chutou e conseguiu. Só por aquele sorriso, mereci entrar no mundo dele, e fiquei mesmo feliz.

20 outubro 2006

Estar

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Hoje tive uma conversa engraçada. Foi um amigo que vi numa situação na qual às vezes me encontro, e o que ele me disse tinha a ver comigo. Até foi mais para além disso, fez-me pensar nisso de uma forma que nunca tinha considerado.

No meio da confusão de muitas pessoas, conseguir estar. Mas não é um estar ausente, é mais um acompanhar que observa a realidade, desde fora, mas sem ser por fora. O pensamento não sai daquele lugar, vêem-se as pessoas e ouvem-se as conversas.

E ele dizia-me que estar assim não é estar distraído, nem é estar triste. É estar de outra maneira, acompanhando com o coração o que vai ocorrendo na Vida. Que há alguns que dizem que na Vida não devemos fazer nada, só deixar que o fluxo dos acontecimentos nos conduza.

Não sei até que ponto isto será verdade. Se observar a Vida e deixar-se levar é um caminho possível. Talvez. Mas deixa de fora as nossas mãos e o nosso andar. E sobretudo a vontade e a liberdade.

É bom observar a Vida, e deixar-se levar paciente e confiadamente pelo que nos acontece, sobretudo quando não percebemos ou não podemos fazer nada. Mas o tesouro da Vida está no gesto que podemos fazer dela, para nós e para os outros. Aí ganha um sentido muito forte.

19 outubro 2006

Fantasias

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Ver o dia-a-dia com cores diferentes. Mesmo quando o céu tem nuvens, e se adivinha uma chuva desconfortável, pensar que saio à rua para apanhar sol.

Um olhar azul sobre pedras cinzentas, tocar suavemente com os pés caminhos pedregosos. Abraçar sem agarrar, ser capaz de voar, mesmo na humildade da existência.

Um dia-a-dia normal pode fazer-nos cair tão facilmente em gestos comuns, em pensamentos repetidos e palavras de um mundo conhecido. Que é o meu mundo, no qual sou chamado a viver.

É ter o desafio e a coragem de mudar o olhar e toque das coisas banais. Esta é a grande força da fantasia e do espectáculo. Não nos diz nada que seja fora daquilo que vivemos.

Reconhecemo-nos em imagens pouco comuns, que por fora são novas, mas por dentro falam-nos de lugares interiores que já os alcançamos e que estão à nossa espera para nos acolher.

Deixar que o coração chegue, descanse, crie e renove os espaços mais bonitos que tem, uma criação anterior, antiga e eterna, capaz de crescer sem limite a partir de um pequeno gesto e uma nova atitude.

Pequenos abraços da alma aquilo que se oferece cada dia à inteligencia e à memória. Juntar tudo num mesmo abraço e deixar-se levar para longe.

17 outubro 2006

Ser a nossa Coragem

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Tantas vezes nos damos conta que os medos e resistências estão sempre ao nosso lado. E como nos vão condicionando, e nos fazem ter um coração preguiçoso.

Talvez porque as coisas que não nos correm bem, como queremos, exigem um esforço sempre maior para superá-las. Acredito que a Vida cresce em espiral, onde se vão retomando a nível mais profundo alegrias conhecidas e medos repetidos.

E passam-nos pelas mãos sonhos e quedas, e o coração vai-se agarrando às memórias, algumas para as saudar com alegria, outras com pena de terem chegado outra vez. São as linhas do que nos constitui como pessoas únicas, preciosas e, ao mesmo tempo, frágeis.

Somos ao mesmo tempo campos conhecidos, paisagens insubstituíveis, mas chamados a uma novidade constante. E às vezes a novidade pesa, porque é mais confortável ficar no quentinho ou não ter coragem de se expor a novos dilemas.

Hoje senti-me chamado a ser a minha coragem. De alentar suavemente o coração para a Vida, mesmo quando ele está cansado de querer chegar sempre mais alto e mais longe.

Talvez acertar com o ritmo da minha Vida, que não me pertence em tantas coisas. Ser a minha Coragem, de agarrar um voo conhecido, para um destino desconhecido, tão meu e tão eterno.

16 outubro 2006

Verdade

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Há sempre aquela frase conhecida... "Se eu não gostar de mim, quem gostará?" Não me iludo frente a momentos pessoais e alheios em que, de facto, a solidão nos faz parecer tão pouco integrados. Na Vida, nossa e do mundo.

Mas tantas vezes me dou conta que se pode chegar a não ter estima própria, por circunstâncias que não escapam assim tanto ao próprio controlo. Explico:

Às vezes, acho que não gostam de mim, porque algumas pessoas (que são concretas, o "ninguém" é uma idealização, e o que mais nos marca é quando o não gostar tem um rosto e uma expressão que o diz) não gostam de mim da maneira que eu quero. Ou porque quero que gostem de uma forma que não responde a uma relação mais autêntica, com mais verdade.

Acho que o gostar ou não gostar, está sempre ligado a rostos, que não são sombras nem reflexos... são verdades minhas e alheias, surpreendentes e incómodas, fascinantes e atrevidas.

Rostos de verdade. Por isso, faz-me mais sentido outra frase: "Não se ama o que não se conhece".

15 outubro 2006

Medos ancestrais

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Ontem vivi algo estranho. Um momento pleno, mas que não consigo caracterizar, de grandeza e pequenez, de horizonte e angústia. Não sabia que se podiam experimentar duas coisas opostas ao mesmo tempo.

Por uma série de circunstâncias, dei por mim a cerca de 3000 de altura, com o sol a inundar-me e uma paisagem de montanhas e nuvens abaixo de onde eu estava, sem nenhuma presença humana, pessoas ou casas, para além de mim.

É um privilégio de Beleza e Imensidão. Não é que estivesse em perigo eminente de cair, mas a altura e os declives faziam sentir a sua força. E senti-me tão pequeno, a pensar que se algo corresse mal, a paisagem mais bonita que vi até hoje, seria ao mesmo tempo a última.

E hoje aindo estou a tentar perceber isto... que a Vida é tão grande como esta paisagem, ainda maior, até... e que na nossa humanidade somos também tão frágeis e tão pequenos.

Senti um medo que não era perigo e vertigem, era um medo mais fundo, de cair na existência sem sentido, de desaparecer simplesmente sem deixar marcas... de não ser mais que um minúsculo ponto no alto da Montanha.

E tenho a certeza que nenhum homem e nenhuma mulher é chamado a ser só esse ponto.

12 outubro 2006

Ao contrário

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Longa se torna a espera... daquele golpe de asa que faz voltar às coisas antigas, quando tudo era perfeito.

E a vida vai-nos trazendo coisas inesperadas, preparadas por nós sem o sabermos, até que temos entre mãos coisas que desejaríamos não ter.

Se tudo fosse ao contrário, se as memórias belas da Vida não fossem sempre imagens passadas, e tudo o que agora nos perturba não passasse de palavras vazias levadas pelo vento, para longe e para sempre.

Mas colam-se a nós, fazem parte de nós estes momentos vazios, tais como as imagens bonitas. E o vazio não se enche com a nossa Beleza... E se tudo fosse ao contrário...

E se eu pudesse fazer o contrário, de encher o vazio passado com memórias que são promessas, que continuam também o mesmo caminho com o qual estou Vivo. Porque sou tudo aquilo que vivi, mas ainda mais o que vivo e o Desejo de viver mais pleno.

Não é facil olhar mãos vazias, talvez enche-las de lágrimas consoladas de um Desejo que nos vai completando, pouco a pouco, até onde for o limite do impossível... e ir pressentindo já o Possível deste meu Impossível.

10 outubro 2006

Este olhar

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Acho mesmo que nos conhecemos bem. Mesmo se não pensamos assim, pode ser uma boa ajuda ir vendo, pouco a pouco, tirando o pó do tempo de cima das fotografias da Vida.

E vamos vendo momentos de grande alegria e realização, outros de tristeza e desilusão. E a maior parte deles, os comuns, nem sequer temos imagens significativas.

E juntamos por ordem as imagens bonitas por um lado e as menos bonitas por outro. E vamos ordenando-as no tempo. E sempre, sempre, há algo que as vai conduzindo. E percebemos que fotografias bonitas e fotografias menos bonitas não se separam, e que têm imenso a ver connosco. Somos luz e sombra, mas brilhamos sempre mais que escurecemos. E brilhamos a ponto de limpar as trevas.

Porque a Vida nos ensina a ter um coração capaz de iluminar, e capaz de se iluminar. Entre um olhar limpo e amoroso sobre mim e um que obscurece o que penso de mim e da Vida, acho que a escolha é obvia...

09 outubro 2006

A Hora

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Qual será a hora do dia ideal? A hora em que se põe o sol, hora de cores e descanso, de encontro com a “casa” de cada um… a hora da noite, com as estrelas, a casa imensa do céu e do sonho, a grandeza que não põe limites… a hora da tarde, e a hora da manhã, que são afinal as horas do dia, das pessoas, dos trabalhos, das alegrias e tristezas correntes… as horas da madrugada, de sono e de sonho, de festa e de solidão…

Este homem olhava o relógio há uma semana e ia tomando nota da casa de cada hora, como um horário, mais do que com coisas a fazer, com momentos a viver… e todos eram importantes! Mas porque é que nenhum era a Hora do dia?

E então decidiu… vinte e quatro horas non stop, de caderninho na mão, a tomar nota de tudo. Levantou-se à hora do costume e começou a escrever o dia. Chegou atrasado a primeira aula da manhã, mas não havia problema, estava a fazer os seus exercícios… Nas aulas nem sequer olhava para os professores, na mesa do almoço, não ria com as piadas e despertava olhares incrédulos por parte dos colegas: este hoje não está bem… larga o caderno! E ia escrevendo, de tarde, ao por do sol, sozinho na varanda de casa, não prestou atenção ao filme que dava essa noite e que um amigo tinha até vindo de propósito para ver com ele, e a meio se foi embora confundido. Saiu para a rua e foi para um lugar solitário onde ia escrevendo o seu dia, o que sentia, o que via. E ficou à espera das horas intermináveis e frias da madrugada… deixou cair o caderno e adormeceu… vencido pela espera…

E um raio de luz despertou-o… no cimo do monte onde estava via a planície imensa que pouco a pouco ia passando de cores escuras a cores claras… a luz ia avançando lentamente… e começavam a passar carros pela estrada ao longe, uma mulher saia com um cântaro, o pastor passava com algumas ovelhas, abria-se uma ou outra janela das casas que via ao longe. Tinha que recomeçar a escrever! E pegou no caderno. Mas o que tinha escrito estava quase imperceptível apagado pela humidade da noite… fez o esforço de ler, para recordar o ponto em que estava e só via verbos: vi, senti, olhei, passei, toquei, ri, chorei… E chorou, porque em todo o dia anterior não havia um único verbo que estivesse noutra pessoa a não ser a primeira pessoa do singular. O dia mais atento da sua vida fora o dia mais egoísta… não se lembrava da cara das pessoas com quem tinha estado, nem das coisas que lhe diziam… inconscientemente lembrava-se de algumas perguntas: que estás a fazer? Ouve-me! Ajuda-me! Tens um segundo? Olá! Trouxeste o que te tinha pedido? O que é que se passa contigo?

O dia mais completo que ele quis viver, resultou ser o mais cego da sua vida… o seu mundo era o seu caderno, agora quase desfeito….

E olhou em frente, para a paisagem cheia de sol, a primeira hora da manha… Aquela hora que quase nunca se vive, e descobriu que aquela era a Hora! Cada dia em que sai o sol fazia-o deitar fora o caderno das suas coisas… não podia continuar a escrever o que ia suceder, porque, no fundo já sabia… avançar para o dia sem o caderno, sem o programa, era tão novo… e assustou-se, mas quis experimentar.

E ao longo do dia foi dando conta que cada rua que passava, cada pessoa que via, cada gesto que fazia, era um novo raio de luz que entrava no dia… e que era possível que a primeira hora da manhã durasse todo o dia… E teve o dia mais bonito da sua vida, em que os acontecimentos mais comuns eram vividos com surpresa, as pessoas eram oportunidades de vida, as tristezas eram diluídas na esperança de que também elas estavam iluminadas… por um olhar novo, sempre novo…

Chegou a casa. Antes de adormecer, pegou no caderno que todo o dia esteve esquecido no bolso. Rasgou as folhas até que ficou apenas a ultima… e nela desenhou o sol… o diário do passado, do presente e do futuro.

E a partir daí esse homem viveu cada dia feliz, dia-a-dia, entregando-se à novidade de todas as coisas. Sem se desesperar que as coisas menos boas lhe iam tirar a luz, porque só por as viver, já estavam iluminadas.

Um dia entrou numa capelinha, onde não havia ninguém. Ao fundo, Jesus na cruz… e o sol que entrava pela única janela iluminava em cheio o rosto e o sorriso. Os olhos de Deus olhavam o coração do homem… e ele percebeu, e sorriu…

“Será que não sabes que deixas fugir o que a vida te dá para sorrir?”

07 outubro 2006

No stress

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Estava há dias a pensar em amizades. E já me tinha dado mais ou menos conta que os grandes amigos que tenho são, na sua maioria, pessoas muito diferentes de mim. As vezes são mesmo casos que se diria à partida que não poderíamos ter nada em comum.

E porquê? Vejo algumas hipóteses: ou porque me completam, em coisas e qualidades que não tenho tão desenvolvidas; ou talvez porque olham para a vida de modo diferente e não menos bonito, alargam o meu horizonte.

E acho que é disto, mas sobretudo de uma outra coisa: são caminhos de vida que Deus pôe no meu caminho. Porque em cada momento precisamos de algo que nos faça olhar para além dos nossos limites, e mesmo das nossas qualidades.

Completar a vida com amigos assim faz-nos alargar o coração e estender as mãos, para coisas novas, que não estariam nos planos iniciais. E são momentos de Deus.

Lembro-me de um amigo muito especial. Uma das pessoas mais bem dispostas que conheço, simplesmente me faz rir, é sempre novo o que diz. Uma amizade que se foi fazendo de descobertas e surpresas e de momentos de riso intenso e lágrimas muito sinceras.

Quando a amizade nos faz crescer naquilo que não nos pertence à partida e nos faz diferentes, isso é uma verdadeira Criação.

06 outubro 2006

Lua

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11.30h da noite, 5 de Outubro.

É tão especial deixar-se levar. Não fazer sequer um esforço de tentar explicar porque é que, diante de mim, está a lua com um dos brilhos mais intensos que vi, e que se reflecte no mar. Ondulante. A luz de um barco ao fundo.

E sentir o vento frio passar-me pela cara e pelo cabelo e vozes alegres de amigos, a falar atrás de mim.

Dizer que esta paisagem é bonita, é talvez um lugar comum. Que tenho sorte em estar ali, é outro lugar comum.

Que me senti vivo, e fazendo parte de uma Vida feita de grandiosos espectáculos comuns e pequenos pormenores que passam pelos sentidos, aí talvez seja diferente.

Que a minha Vida é aquilo que faço com o coração e com as mãos, ao amar e deixar-me ser amado, aí ainda é mais diferente.

Ser-se autêntico como a luz da lua que não faz mais que iluminar o mar. E isso é extremamente bonito.

03 outubro 2006

Não saber

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Há imagens que as vezes olho e não me apetece dizer nada. Despertam sentimentos e espaços interiores, como se encontrasse espaços meus que julgava perdidos.

Deixo a sombra do silêncio abrir-se a um voo de esperança.

02 outubro 2006

A Praça

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Num dia de sol, calor de Verão, tinha acabado de sair do carro para poder beber alguma coisa fresca. A viagem durava já algumas horas e vinha mesmo a calhar um pequeno intervalo. Tinha chegado a uma daquelas aldeias que parece que só existem no cinema, na hora de maior calor, não estava ninguém na rua, apenas se levantava, em direcção a um céu azul muito intenso, uma poeira fina e alaranjada no jardim da praça onde me encontrava.

Algures, por entre as árvores do jardim, vi algo que me chamou a atenção. Numa pequena fonte cantava um pássaro que não reconheci, apesar dos meus estudos e da suposta ciência que enchia os meus dias, no meu trabalho.

Este momento criou em mim algo que eu não esperava, que acabou por mudar muitas coisas na minha vida, e ainda hoje, enquanto escrevo estas coisas, me surpreende, ao pensar que um pequeno instante pode trazer em si o fundo da vida, a cor do mar, o sorriso e o olhar que eu sempre procurei. Foi isto que aconteceu:

Ali me deixei ficar, a ouvir cantar aquele pássaro. Procurei uma sombra sentei-me no chão de poeira, que o vento levantava em círculos para o alto. Aos poucos deixei-me levar por todas as sensações que me rodeavam e embalavam. Afinal, aquela paragem no meio da corrida da minha viagem estava a fazer-me reencontrar coisas pequenas que eu há muito tinha deixado de olhar. Pensava nos meus olhos infantis e na magia das primeiras surpresas, no encanto que enchia o coração, apesar de serem as coisas mais simples da vida: a primeira vez que vi um céu a explodir de estrelas, um pintainho a sair do ovo, o homem que colhia a fruta na árvore. Notas soltas de uma existência já esquecida e que agora, em torrentes de cores, cheiros e sabores saltavam à minha volta.

A vida que hoje levo é uma conquista minha, procurei o que hoje tenho e sou, e sinto-me feliz por isso. Mas aquela tarde de sol e calor fez-me cair na conta de que todas estas coisas continuam a existir: as estrelas estão por cima de mim, mas há quanto tempo não levantava os olhos do chão? A vida surge continuamente, mas quando é que reparo nisso? O que visto, o que como, aparece-me em casa... quando é que penso por onde todas estas coisas passaram para chegar até mim?

Naquela tarde dei-me conta de que tudo o que sou não é fruto apenas do meu esforço. Sou também uma parte de todo um universo de gente, corações e energias; sou fruto do vento, do sol, da água, das árvores... Venho também d’Aquele por quem todas estas coisas são. Foi esse o instante que me mudou: em tudo encontrei o dedo de Deus, que transforma o meu existir em pequenos toques de eternidade.

Voltei à minha vida normal, mas tudo a partir daí era diferente: as pessoas, a natureza, tudo o que faço faz parte de um projecto que é sonhado para mim e realizado por mim. Encontro na vida o desafio de me dar conta deste momento e desta presença: Não estou sozinho.

Com isto, regressei à praça, depois de não sei quanto tempo nestas considerações. Estava a pôr-se o sol, e à minha frente uma criança estendia-me um copo de água fresquinha...

01 outubro 2006

Da janela.... uma História

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Coisas pequenas... que se fica surpreendido em saber, mas que depois, pouco a pouco, vão entrando mais fundo e fazendo descobrir novas possibilidades de Vida. Não é preciso viajar muito para ir tão longe.

Se calhar bastava estar ontem, à luz do entardecer, a estudar com um amigo - mais a falar que estudar =) , voltados para a janela, no 4º andar. Aparece um homem novo, a estender a roupa. Ar simples para uma coisa simples. Conheci este novo companheiro de Comunidade há dois dias, e ainda não tive oportunidade de trocar com ele mais que umas poucas palavras.

O meu amigo contou-me um pouco da sua história. Que vida tão diferente! Tão impossível de pensar, à partida, que poderia estar ali, ontem, a estender a roupa e a sorrir para nós. Fiquei a olhá-lo enquanto ele ali estava e ouvia falar dele. Tão autêntico nos seus gestos, tão entregue a uma vontade de ser feliz e ser santo. Tão ele próprio, apesar de ter mudado tanto. Com os seus velhos tesouros em novas mãos.

É tão grande sermos movidos por um olhar desde a nossa janela...
 

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